Levantado(s) do chão porque não temos tetos

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“Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças.”

José Saramago, em Levantado do Chão (1980).

Escrito no final dos anos 70, este livro conta a história da família Mau-Tempo, e retrata o povo rural do interior do Alentejo, subjugado à miséria e à precariedade das condições de trabalho. Acabo de o ler agora, quase 50 anos depois da sua publicação, e mexe comigo reconhecer nele parecenças e relevância, face ao que se tem vivido em Portugal nestas últimas semanas.

Não sejamos fatalistas. Sei que o livro de Saramago fala sobre os anos da guerra, da ditadura do Estado Novo, onde se trabalhava de sol a sol, e direitos das mulheres, isso que é?, e felizmente já os passámos.

Mas se na altura, a população do latifúndio lutava pelo direito ao trabalho digno, mobilizando-se e manifestando-se contra o Estado, e eram detidos, espancados, alguns mortos pelas forças policiais, como não fazer paralelismos com quem hoje luta por outro direito igualmente básico e constitucional com tão semelhante consequência repressora?

Não estamos a comparar, o que seria se numa democracia vivemos, mas também não podemos ser assim tão mesquinhos de mente e literais. É de um precedente que se abre, que se está falando. De uma normalização de violência, de medo e de caos que não se importa, produz-se nacionalmente (haja alguma coisa, que até os porcos e as azeitonas nos vieram os espanhóis deitar a mão), porque temos o hábito gravado na cruz do nosso passado. Veja-se no livro, por exemplo. Então mas é preciso explicar tudo?

Escusado será dizer que, acabada a época dos Mau-Tempo, chegámos à época do tempo mau. Seria preguiçoso, pedante fazê-lo, até porque hoje os tempos nem são maus, são péssimos, e não é tempo para fazer graçolas.

Então, corrijamos: nesta época dos tempos péssimos, juntam-se em ruas e praças milhares de pessoas a lutarem por um povo inteiro. Carregam-nos todos às costas, porque a habitação é um direito comum. Direito dos que sofrem o frio, o sono, e as bastonadas nas praças, dos que partilham as imagens e informações sobre o movimento em solidariedade, e também desses últimos, desprovidos de qualquer coisa que não me apetece explicar, não vá ser incompreendido (já basta o bastante), que aplaudem em seus sofás a força desproporcional da PSP sobre os que também estão a lutar por eles. A lutar por todos. Não tinham pensado nisso? Também pudera, deem-lhes o desconto.

De um lado: cães, cassetetes, carros, armas, capacetes, e do outro: tendas, e… uma bandeira da Palestina? Um passe navegante? Olha, já é bem bom, que a gasolina está cara, e o passe sempre dá para se meterem dali ao Martim Moniz num instante a ver se não são detidos. Ah, pois foi… coitados.

Sim, parece-me justo, vamos para a segunda jornada, que isto é preciso é fazer cumprir a lei.

Tenham vergonha. Os que tornaram o país assim, e os que o deixaram que ele assim se tornasse. Mas mais do que vergonha, tenham humildade de reconhecer o erro. É só disso que se trata. Da incapacidade do governo ver no povo a razão da revolta. Senhor ministro, então eu votei em si, e agora vou ficar sem casa, não pode resolver? Olhe, minha senhora, eu como tenho 55 não tirei essa formação, mas meta numa caixinha de sugestões que alguém depois resolve.

Assim andamos. Semanas, meses, anos de cobardia e narcisismo. De fuga ao debate, à resolução, à empatia. Semanas de dizer: “As acampadas acabam amanhã!”, e depois não acabam. Ficou ferido o ego do menino, foi? Sentiu-se desautorizado? Assim também não vale. Sim, senti-me, e só por causa dessa amanhã levam com os meus polícias nos cornos para verem o que é bom…

O que importa é Portugal estar bonito para os turistas e as praças arrumadas.

Portugal já não é um país, é uma performance. Um teatro a céu aberto, elencado por atores de todo o mundo, mas que talvez seja melhor não falarem, não lhes vá sair algum sotaque curioso. Curioso não – errado. Porque os da plateia também os têm, às vezes mais curiosos até, mas todos sabemos que se rimarem com visto gold, Airbnb e pasheteeeel the natha, então meu amigo sê bem-vindo, Welcome to Portugal!!!

Mas assim como um teatro, Portugal, e Lisboa sobretudo, vivem da perceção, de condicionarem uma visão bidimensional à sua audiência onde mais vale parecer do que ser. As montras estão impecáveis, trabalhámos tanto nelas, nós e os fundos estrangeiros, como é óbvio, e querem agora estes arruaceiros vir mostrar a podridão dos bastidores, era o que faltava.

Queremos. E vamos continuar a querer pôr o país a nu, a mostrar e a condenar as suas falhas, porque estes cenários não são de pladur. São compostos pela carne e o osso da gente humana que neles trabalham, e se fica mal para os turistas verem confronto e mobilização onde era para estar a ginjinha de Natal, problema deles.

Por isso, lutemos. Resistamos. Levantemo-nos do chão para onde nos querem atirar vezes sem conta, tal qual uma flor que irrompe sob a selva de asfalto, porque quando não há a capacidade de se mostrar humilde e errado perante o outro, ataca-se. E eles já atacaram.

Esses rafeiros, mal-cheirosos, vestidos de trapos, desempregados, drogados, egoístas, antipatriotas!

Gostam tanto vocês da pátria, vejam lá com quem à noite se deitam, não vá ser adultério o que querem fazer com a estátua do D. Pedro IV… Mas também, que tenho eu que ver com isso, desde que seja cada um na sua casa (ou nas várias que têm), que o façam, a gente não gosta é de ver espetáculo…

Dizem que nós odiamos o nosso país por nos revoltarmos contra ele. Como se a pátria (lá estou eu a repetir esta palavra com mau gene, mas é a que há), fosse o estado. Somos nós muito mais patriotas por nos revoltarmos contra ele, do que o dito estado quando se revolta contra o povo. Porque a pátria é o povo, a pátria somos nós que lutamos para que seja ela mais justa. E os egoístas são vocês, que sabem lá o que é isso da pátria.

Mas para vos explicar agora, que vos explique António Mau-Tempo, que eu cansado já estou que chegue:

“A pátria deverá tirar à sua própria boca para não faltar à minha, e se eu tiver de comer cardos, coma-os a pátria comigo, ou então uns são filhos da pátria e os outros filhos da puta.”

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Expresso

Escrito por: Rodrigo Caeiro

Editado por: Carolina Dinis

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