E se a nossa obsessão por ter uma vida perfeita nos estiver a impedir de gostar da vida que temos?
Existe um certo conforto na ideia de ter tudo no lugar. Acordar cedo, cumprir os objetivos, beber o café ainda quente e chegar ao fim do dia com a sensação de que fizemos tudo o que tínhamos planeado. Gostamos de imaginar que, algures, existe uma versão de nós que consegue conciliar tudo. Que nunca se atrasa, nunca se esquece de nada e, de alguma forma, ainda encontra tempo para ler antes de dormir.
O problema é que essa versão parece viver sempre um bocadinho à nossa frente. Enquanto tentamos acompanhá-la, os dias passam. Há tarefas por terminar, mensagens por responder e planos que ficam para amanhã. E, mesmo quando fazemos muito, fica aquela sensação incómoda de que podíamos ter feito mais. Como se o tempo nunca chegasse. Como se estivéssemos constantemente atrasados em relação a uma vida que ainda nem começámos, verdadeiramente, a viver.
Talvez seja por isso que gostamos tanto de observar as rotinas dos outros. Há uma certa beleza nas agendas organizadas, nas secretárias arrumadas e nas manhãs que parecem começar exatamente como deviam. Nas redes sociais, a vida cabe numa sequência de imagens bonitas. O que não vemos são os atrasos, os dias difíceis, os planos que falham ou as vezes em que também ninguém sabe muito bem o que está a fazer.
Não há nada de errado em querer melhorar. Ter objetivos, criar hábitos e organizar os nossos dias pode ser uma forma de cuidarmos de nós. Mas há uma diferença entre querer uma vida melhor e sentir que a vida que temos nunca é suficiente.
Às vezes, até o descanso parece precisar de uma justificação. Não basta parar. É preciso merecer parar, depois de riscar tudo o que estava na lista. E, quando finalmente temos tempo livre, damos por nós a pensar no que poderíamos estar a fazer. Como se ficar quieto fosse desperdiçar uma oportunidade. Como se cada minuto tivesse de provar a sua utilidade.
Mas uma vida bonita não se mede apenas pelo que conseguimos fazer, dentro de um dia. Também está nas pessoas com quem nos perdemos em conversas, que deviam durar dez minutos. Nos passeios sem destino, em que não estamos atrasados para lado nenhum. Na vontade de parar para observar qualquer coisa, sem sentir que temos de a fotografar, partilhar ou transformar numa memória digna de ser guardada. Está, sobretudo, na capacidade de gostarmos de nós, sem precisarmos de estar sempre a melhorar alguma coisa.
Talvez romantizemos tanto as rotinas perfeitas porque nos dão a sensação de controlo. Num mundo em que tanta coisa é incerta, saber o que vem a seguir pode ser reconfortante. Mas a vida nunca foi especialmente boa a seguir planos. Há encontros inesperados, oportunidades que surgem tarde e dias que não correm como imaginávamos. E ainda bem. Nem tudo o que importa pode ser previsto, organizado ou assinalado como concluído.
Não precisamos de deixar de fazer planos. Precisamos, talvez, de deixar algum espaço para aquilo que não planeámos. Porque há dias em que fazemos tudo. Outros em que fazemos muito pouco. E há outros em que simplesmente existimos, sem grandes conquistas para contar ao fim da noite. Nenhum deles precisa de ser perfeito para ter valido a pena.
A vida dá-nos inúmeras oportunidades. Para recomeçar, mudar de ideias, tentar outra vez ou descobrir que afinal queremos outra coisa. Não temos de aproveitar todas ao mesmo tempo. Nem de transformar cada dia numa prova de que estamos a fazer o suficiente.
Às vezes, talvez seja preciso deixar a lista por terminar, sair de casa sem destino e aceitar que o mundo continua a girar mesmo quando não estamos a tentar acompanhá-lo. Afinal, de que nos serve ter tudo organizado se nunca temos tempo para viver o que organizámos?
Fonte da imagem de capa: Própria
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Gabriela Martins
Editado por: Cristina Barradas


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