Em 2021, seguindo as modas do discurso popular que vai correndo os fóruns audiovisuais das nossas vidas, o termo “whataboutism” – ou, “então-e-ísmo” – é agraciado com a honra da sua inclusão no insigne dicionário Merriam-Webster, numa das suas atualizações regulares.
Hoje em dia, tem-se prestado a um uso alargado por parte da nossa classe política (para além das outras dos outros, mas fiquemo-nos pela nossa, que chega (“pun intended ”) e sobra (para mal dos nossos pecados)) nos mais variados contextos, mas sempre com o mesmo objetivo: o da tão apreciada finta, a segunda perícia mais aplaudida pelo povo, a seguir ao golo.
Pessoalmente, e de volta à política, não sou o maior fã duma tática que prima pelas piores razões. Nem é só pela falta de criatividade do método ou pela falta de mestria necessária para o aprender e aplicar. É mais pelo facto de que, quando se responde “Então e os subsídios!?” ao aumento do custo de vida, “Então e os extremistas dali!?” aos extremistas de acolá, “Então e os imigrantes!?” à crise habitacional, “Então e o que o Costa fez!?” às contas do S.N.S., et cetera, consegue-se a proeza de se falar de todos os assuntos que estão em cima da mesa, sem que depois se decida o que quer que seja, por falha de entendimento. E conclui-se tudo, não se fazendo nada em relação a coisa nenhuma.
Longe vão os tempos (e eu amarguradamente lamento, mesmo do meu poiso privilegiado, em pleno século XXI d.C.) em que os homens históricos da nossa tradição greco-romano-germânica civilizacional desempenhavam os seus papéis de cidadãos perante o teatro do mundo selvático da antiguidade, perante os seus iguais, os seus súbditos e os seus ancestrais.
Governavam-se e governavam de acordo com os valores mais elevados que compunham o que então se percecionava como sendo o apogeu da complexa natureza humana, a que só é feita justiça quando humildemente aceitamos que não somos, unidimensionalmente, nem só bons nem até maus. E daí, depois, idealmente, fazemos o que está no nosso poder, deixando o resto à confiança do universo, para nos cumprirmos ao nosso mais alto grau, em prol da humanidade.
Mas hoje “politica-se”. “Amanda-se” postas de pescada. Arrasa-se com a bandalheira.
Não admira que há quem prefira “ir masé ver a bola”.
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Escrito por: Daniel Rúben
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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