Quem lê um conto acrescenta um ponto

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É normal não aceitar livros emprestados com medo de não conseguir cumprir a missão de os devolver imaculados. Tudo porque cada livro pode e deve ser riscado, rabiscado e anotado com o que se pensa e sente ao ler aquela obra. Serve isto para preservar parte do leitor e, contraintuitivamente, parte daquela história no que lhe resta de branco naquelas páginas. 

Dito isto, o que são livros se não páginas em branco em que o escritor riscou, rabiscou e anotou, encerrando nelas parte dele? E o que é o conhecimento transferido pelos livros senão uma construção cumulativa com base no que é lido?  

Escrever é depositar o que nos envolve, implícita ou explicitamente, num texto e, consequentemente, ler é mergulhar num mundo que não é nosso e vê-lo através dos nossos próprios olhos. Como tal, é possível identificar ao longo da história da literatura casos gritantes do impacto monumental da escrita, que não deixa de ser a transfiguração da realidade para o papel e, além disso, o poder da interpretação proveniente da leitura, que, no fundo, não passa de transfigurar o que está no papel para a nossa realidade. 

Olhemos para a escrita como forma de monumentalizar a realidade. Pode pensar-se, rapidamente, em manifestos políticos, como “Portugal na balança da Europa” de Almeida Garrett, como sendo consequência direta de uma interpretação da realidade política. Esta obra surge de e para as revoluções liberais do século XIX, manifestando o desejo do autor de as replicar no nosso pequeno jardim à beira mar plantado. 

Contudo, rapidamente se percebe que não é só de realidades coletivas, como a política, que se faz a literatura. Um bom exemplo disto seria “Carta ao pai” de Kafka, com cerca de 100 páginas de texto corrido que descrevem a vida do autor, dando foco ao papel horroroso (adjetivo muito próprio de Kafka) que o seu pai desempenhou na construção dos seus traumas.

Existe ainda uma terceira via em que não se descreve explicitamente uma realidade coletiva ou pessoal, mas em que o autor idealiza e ficciona, criando algo, como o verbo indica, fictício. Pode parecer que obras deste género não descrevem, nem se apropriam, da realidade em que o autor vivia. No entanto, há que lembrar que são resultado de tudo o que se fez para chegar ao ponto da sua escrita, influenciando detalhes tão pequenos como a colocação de uma vírgula.

Em última análise, todas as obras são consequência da realidade específica em que o autor viveu, por muito aparentemente residual que seja. 

No outro lado da moeda temos o papel da interpretação e, num sentido mais lato, da leitura, que não deixa de se impor ao longo da história. 

É fácil tomar, como exemplo disto, obras cuja interpretação foi adulterada em prol de interesses de terceiros. Em Portugal, o Quinto Império de Pessoa, manifestado na obra “Mensagem”, foi utilizado como combustível para o acender do orgulho nacional que, ao invés de elevar o povo português, elevou o estado ao seu extremo, exaltando o antigo regime salazarista, mesmo contra a vontade do autor. Outro caso semelhante, mas de maior dimensão, ocorreu na Alemanha nazi, onde o pensamento de Friedrich Nietzsche, melhor expresso em “Assim falou Zaratustra”, foi utilizado para dar razão ao movimento supremacista alemão, deturpando a mensagem do autor. 

Concluindo, servem estes casos para ilustrar a importância da escrita e do seu papel de preservação da história, bem como o poder reformador da leitura. Toda a escrita tem em si encerrada uma fatia do passado e da visão do autor sobre o mesmo, congelando o tempo em que foi realizada. Da mesma forma, toda a leitura desconstrói o que foi escrito e remete-o para o presente, abrindo portas a realidades estrangeiras à nossa, contendo sempre o poder de alterar toda uma mensagem. Assim, quem lê um conto, acrescenta um ponto, o seu.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa: Expresso

Escrito por: Rafael Triães

Editado por: Leonor Oliveira

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