Ao sair de casa: escuridão quase total. Percorrer centenas de metros até o mercado mais próximo (nas paragens, quase não passam autocarros). Ao voltar, subir vários lances de escadas, compras em mãos, pois os elevadores já não funcionam. Correr para cozinhar rapidamente o que se acabou de comprar, para que não estrague. Ao fim de tudo, dormir sem poder tomar banho, já que a ausência de eletricidade impede a chegada de água em casa.
A rotina descrita é, apesar de caricatural, exemplo próximo de uma realidade vivida por muitos cubanos, em um cenário em que veem-se confrontados com apagões recorrentes ao longo dos últimos meses. Desde janeiro de 2026, Cuba — país que, para uns, é exemplo de uma nação que luta pela sua sobrevivência; para outros, uma demonstração do fracasso de uma ideologia; e, para muitos, apenas um destino turístico desejado — entrou numa grave crise humanitária.
A realidade é que o país enfrenta, hoje, seu momento mais instável desde o fim da União Soviética, no apelidado “Período Especial” de 1991. Mas, como tudo começou? Onde está Cuba hoje e para onde caminha? Ou, o que é ainda mais importante, o que resta ao povo cubano em meio a todo este panorama?

Fonte: Reuters
O começo da crise
No dia 3 do primeiro mês deste ano, a “Operação Resolução Absoluta” foi realizada pelos Estados Unidos com êxito na captura do Presidente venezuelano Nicolás Maduro. Do dia para noite, ou melhor, da noite para a madrugada, Cuba perdeu o seu principal parceiro comercial de petróleo. A forte dependência elétrica da ilha a este recurso — cerca de 50% de sua matriz energética depende de motores que funcionam à base dos derivados do petróleo — levou à necessidade de recorrer às reservas estratégicas, a fim de garantir algum nível de funcionamento imediato a curto prazo.
Com os recursos escassos, a perda da parceria que tinha com o México e a Ordem Executiva do dia 29, em que os Estados Unidos decretaram a aplicação de tarifas a países que forneçam ou vendam petróleo à ilha, o país mergulhou definitivamente na crise, dando início às falhas na rede elétrica por quase todo o território.
Vale ressaltar que a infraestrutura elétrica de Cuba, baseada em tecnologia antiga da URSS, enfrenta problemas de manutenção e falhas constantes, e desde o ano passado diferentes regiões do país já enfrentavam esporádicas falhas energéticas de larga escala. No entanto, a agudez e recorrência dos apagões recentes não pode ser compreendida senão pela grave escassez de petróleo, que é fortemente ampliada pelas sanções americanas e pelo corte de fornecimento do petróleo venezuelano.
Nesse sentido, apesar de ser possível atribuir o início da crise ao fim da ligação estratégica com a Venezuela, é necessário compreender que foi uma verdadeira soma de fatores sequenciais, somados a problemas estruturais já existentes, que levaram Cuba a estar na situação crítica em que se encontra atualmente.
O estado das coisas e o horizonte à vista
De então para cá, com a exceção de um descargo realizado em março pela Rússia, Cuba não recebe nenhum tipo de fornecimento externo de petróleo.
No último dia 13 de Maio, o Ministro da Energia Vicente de la O Levy declarou publicamente que as reservas de combustível chegaram ao fim, e a produção interna que é mantida está longe de ser suficiente para a garantia das necessidades mínimas da população. O desespero é evidente, na medida em que o ministro apela para o interesse do país em comprar combustível de qualquer país disposto a vender, e a população cubana vai às ruas na maior onda de protestos desde o início da crise.
As tentativas de negociação acontecem entre o governo cubano e o americano, em trocas de declarações que revelam a tensão estrutural entre os interesses de ambos. De um lado, Cuba tenta reafirmar sua soberania e defender seu próprio regime, declarando-se aberta ao diálogo, enquanto se vê obrigada a aceitar imposições e propostas americanas que enxerga como “insultórias” , com o objetivo de garantir sua sobrevivência. Do outro, os Estados Unidos condenam o regime socialista cubano e acusam o ex-presidente Raúl Castro de conspirar no assassinato de três civis americanos em um episódio relacionado ao abatimento de dois aviões civis por jatos cubanos em 1996, ao mesmo tempo em que propõe medidas “apaziguadoras” e que não deixam de esconder seus interesses em uma mudança de regime na ilha.
Diante do cenário que se apresenta, é difícil, para não dizer impossível, afirmar qual será o futuro de Cuba. Seu destino está condicionado em uma complexa teia de constrangimentos e possibilidades, na qual tanto sua sobrevivência em termos materiais quanto a sua existência enquanto nação estão em risco. O jogo geopolítico está a acontecer, e a certeza é apenas uma: Um interesse há de vencer, e, em uma situação em que dois lados têm visões de mundo irreconciliáveis, as resoluções raramente acontecem de maneira fácil.

Fonte: Reuters
Para quem está na ilha
Aos cubanos, o que resta é uma realidade difícil. Uma realidade sofrida, pois são eles que têm de lidar diariamente com as consequências de todo um contexto cujas causas estão distantes de suas próprias mãos e cujos efeitos sentem na própria pele. A eles, resta ter de escolher entre passar as noites no calor extremo de janelas fechadas, ou abri-las e terem de lidar com os mosquitos. Resta quase não conseguirem mais ser atendidos nos hospitais, que não se sustentam por dias seguidos com seus geradores de emergência. Resta ter de ir atrás de água fora de casa, visto que as bombas de água para abastecimento não funcionam sem energia. Contudo, resta também assumir a posição central na definição do seu futuro. Resta a escolha dos rumos da sua nação, através da luta por aquilo em que acreditam ser mais importante. Trata-se de reivindicar um protagonismo, transformar as angústias em mobilização na expressão do desejo de um futuro que desejam garantir. É, em última instância, resistir e persistir.
É importante, por fim, ressaltar a importância da ajuda humanitária neste contexto. Toda ajuda ao povo cubano é fundamental neste momento, e a solidariedade e empatia a uma população vulnerabilizada deve, necessariamente, transcender qualquer barreira ideológica.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
O autor escreve em português do Brasil.
Foto da imagem da capa: AFP
Escrito por: Nikola Milosev
Editado por: Leonor Oliveira


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