O regresso do Dragão: raça, saudade e superação

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O Estádio do Dragão finalmente voltou a explodir de alegria. O FC Porto voltou a ser campeão nacional, pela 31.ª vez na sua história. Mas este título teve um sabor diferente. Carregou consigo o peso da saudade. Após dois anos dolorosos que levaram a uma crise de identidade profunda, e depois de uma reconstrução exigente que muitos diriam levar anos, o clube regressou ao topo.

Foi um período que talvez a maioria dos portistas prefira esquecer. Porém, é nestes momentos que o FC Porto revela o seu verdadeiro ADN: raça, ambição, nunca desistir e a memória viva de quem partiu cedo demais. Entre lágrimas e homenagens a Jorge Nuno Pinto da Costa, Jorge Costa e Diogo Jota, os dragões conquistaram a Liga Portuguesa, perdendo apenas dois jogos no campeonato. Uma verdadeira homenagem a quem partiu e a quem está sempre presente para apoiar o clube.

Para entender o tamanho desta conquista, é preciso recuar no tempo. Em 2023/2024, o Porto terminou o campeonato em terceiro lugar com uma desvantagem de 18 pontos para o campeão Sporting, o pior resultado da era de Sérgio Conceição. No ano seguinte, com Vítor Bruno e Martín Anselmi no banco, o projeto de reconstrução de André Villas-Boas, assemelhava-se a um processo de retrocesso. A segunda época consecutiva em terceiro lugar, algo que não acontecia desde os anos 70. Para um clube acostumado a ganhar, foram duas épocas bastante difíceis. O Dragão outrora temido, parecia adormecido.

A revolução de Villas-Boas e a aposta em Farioli

A resposta aos problemas que o FC Porto enfrentava chegaram com mudanças estruturais. André Villas-Boas, eleito presidente em abril de 2024 com uns expressivos 80% dos votos, apostou numa renovação total do clube. A contratação de Francesco Farioli para o comando técnico do FC Porto foi a peça central para cumprir a promessa de um FC Porto novamente competitivo na luta pelo título.

O treinador italiano de 37 anos, chegou ao Dragão depois de perder o título no Ajax no último segundo da época anterior. Dois homens em funções diferentes, mas ambos com contas por saldar.

A época dos Dragões não começou da melhor forma. Um mês após Francesco Farioli assinar, o “Bicho”, como era conhecido Jorge Costa, faleceu. Os Dragões entraram em luto profundo. Contudo, esta perda tornou o objetivo ainda mais claro, ganhar o campeonato para honrar quem tanto deu ao clube.

A época arrancou com um aviso a toda a liga. Quatro jogos, quatro vitórias, um golo sofrido, incluindo um triunfo por 2-1 em Alvalade frente ao campeão Sporting. Um FC Porto renovado.

A epopeia de Samu: A lesão que confirmou a união da famiglia portista

A principal referência ofensiva da equipa foi Samu, o avançado espanhol de 21 anos, apesar de ter ficado lesionado no início de fevereiro, terminou a época como goleador da equipa com 20 golos em 32 jogos.

A 9 de fevereiro de 2026, no clássico frente ao Sporting, Samu sofreu uma lesão no ligamento cruzado que o afastou até ao final da época.

Em vez de abalar o grupo, a lesão do jovem goleador uniu ainda mais os jogadores em torno do objetivo traçado no início da época. Esta união, reforçou o conceito de famiglia portista criado por Francesco Farioli que simboliza a proximidade entre portistas, independentemente de serem jogadores, staff ou adeptos.

O lugar de Samu passou a ser ocupado por Deniz Gül que, apesar de contar com números mais modestos, ganhou a confiança de Farioli, superando a concorrência de Terem Moffi. A verdade é que até meados de abril, o avançado turco-sueco somava 40 jogos e apenas 4 golos, uma média de um golo por cada 10 partidas. Houve quem assobiasse e duvidasse se teria a capacidade de vestir o dragão ao peito.

Até que, a 26 de abril de 2026, na Reboleira, diante do Estrela da Amadora, com o título ainda em aberto, o herói improvável surgiu, Deniz Gül marcou dois golos, que quebraram uma seca de golos de quase três meses e colocou os dragões ainda mais perto do título. Nas bancadas, os adeptos que tanto o criticaram, cantavam uma versão muito própria de “Daddy Cool”, dos Boney M, em sua honra.

A lesão de Samu e a persistência de Deniz Gül, são, de certa forma, a metáfora perfeita desta época: dolorosa e exigente, mas vitoriosa.

Deniz Gül a celebrar após o golo contra o Estrela da Amadora (fonte: Record).

O muro e a surpresa polaca

O FC Porto acabou este campeonato com um registo impressionante de apenas 18 golos sofridos em 34 jogos, sagrando-se a defesa menos batida da prova. Mérito de Jan Bednarek e Jakub Kiwior, a dupla polaca que se afirmou como pilar da equipa que, com a preciosa ajuda do veterano Thiago Silva que retornou a casa, originaram uma autêntica “muralha” defensiva.

Para além dos heróis já conhecidos, a temporada revelou Oskar Pietuszewski, um extremo de apenas 17 anos que chegou no inverno aos dragões e se tornou uma das grandes revelações. Em 14 jogos de campeonato, marcou 3 golos e fez 4 assistências. O futuro é bastante promissor.

O jogo da glória: 2 de maio de 2026

Na 32.ª jornada, diante do Alverca, bastava vencer para a festa de campeão começar mais cedo. O estádio estava cheio. O golo não se fez esperar. Aos 40 minutos da primeira parte, Gabri Veiga cobrou um canto e Bednarek subiu mais alto que todos e cabeceou sem hipóteses para o guarda-redes Matheus Mendes.

O Dragão explodiu de alegria. Com 85 pontos somados, o Porto já não podia ser alcançado pelos rivais diretos, mesmo com 5 jornadas até ao fim do campeonato.

Milhares de adeptos encheram as ruas perto do Estádio para celebrar o tão esperado título de campeão, apesar de este só ter sido oficialmente entregue a 16 de maio, após o triunfo de uma bola a zero sob o Santa Clara na última jornada da liga. Esta “coroação” oficial do FC Porto contou com cerca de 400 mil adeptos nas ruas, que acompanharam os jogadores no cortejo até à Avenida dos Aliados, local onde os dragões celebram as suas conquistas.

Por coincidência ou não, o FC Porto sagrou-se campeão no dia 2, número que Jorge Costa usava na camisola. Em memória, o Estádio do Dragão apagou as luzes e nos ecrãs, surgiu o rosto do “Bicho”. Foi possível ver vários adeptos comovidos e até o próprio Francesco Farioli numa das homenagens mais bonitas do futebol português.

O sonho europeu

Na Liga Europa, o Porto chegou aos quartos de final com mérito e com a sensação de que poderia ter chegado mais longe. Após terminar em 5.º lugar na fase de liga, na fase a eliminar, os dragões eliminaram os alemães do Stuttgart.

Nos quartos de final, frente ao Nottingham Forest, tudo desmoronou, a expulsão de Bednarek aos 8 minutos e um golo sofrido logo aos 12 minutos ditaram o fim do sonho.

A Europa deixou um sabor agridoce, mas não apagou o que foi feito em casa.

A equipa portista em ação na liga Europa (fonte: Publico).

Para além do campo

Há títulos que chegam como consequência natural de ciclos dominantes. Este não foi o caso. O título chegou após dois anos no terceiro lugar. Chegou depois de uma reconstrução dolorosa, depois de dúvidas e de mudanças profundas. E chegou, sobretudo, depois de um período em que o clube perdeu três ícones, Jorge Nuno Pinto da Costa, o “presidente dos presidentes”, Jorge Costa, o” Bicho” e o talento da casa, Diogo Jota.

Na última jornada da liga, lia-se nas bancadas: “O Rei (Pinto da Costa) e o capitão (Jorge Costa) entregam a taça ao campeão”.

No palco da Avenida dos Aliados, a música” Always” de Gavin James, ecoou enquanto os jogadores, com lágrimas nos olhos, olhavam para o céu e dedicavam este título a Jorge Costa.

Homenagem a Jorge Costa nos Aliados (fonte: Sic Notícias).

O Dragão ardeu durante dois anos. Das cinzas, saiu campeão. Com a Liga dos Campeões no horizonte e com uma base sólida de jogadores jovens e experientes, o Futebol Clube do Porto não está apenas de volta ao topo. Está a construir algo maior. E, desta vez, inspirado por aqueles que já cá não estão, por aqueles que vieram para ficar e, sobretudo, pela famiglia portista que une todos os que defendem e sentem o que é ser Porto.

O campeão voltou, o FC Porto voltou, pelo seu eterno presidente, pela sua eterna promessa, pelo seu eterno capitão, pela sua tradição e pelo seu ADN.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem da capa: Jornal de Notícias

Escrito por: Alexandre Sá

Editado por: Leonor Oliveira

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