A informação nunca foi tão acessível como na nossa geração. O repertório de aprendizado que se pode ter através da internet é algo que a humanidade ainda está aprendendo a lidar. Todavia, mesmo com tantas informações científicas de fácil acesso, a pseudociência continua um grande problema.
Ainda há hoje quem diga, por exemplo, que o homem nunca foi à lua e que é tudo uma farsa.
Não há problema em questionar acontecimentos ou teorias científicas quando se utiliza base empírica e a própria ciência para isso. Infelizmente, não é o que ocorre. O que acontece, na verdade, é uma onda de pseudociência e desinformação. Pode parecer inofensivo, apenas “teorias da conspiração“, até haver pessoas que são antivacinas, por exemplo.
A pseudociência é perigosa, como uma doença em forma de falso conhecimento, e a sua adesão pode ser explicada por diversos fatores sociais e cognitivos. Mas, primeiro, temos que compreender alguns fatores.
O que é pseudociência?
Para entendermos o tema, primeiro temos que responder a esta pergunta. Pseudociência é qualquer conjunto de “conhecimentos“ que tentam se passar por científicos, mas não são. São crenças que não seguem o método científico e tentam usar uma linguagem que pareça complexa. O exemplo mais clássico que se pode citar é Astrologia, que parece uma espécie de astronomia, mas não usa do mesmo processo científico.
Para compreendermos melhor, podemos fazer uma comparação direta com a ciência, o que serve também para ajudar as pessoas a diferenciá-las e se afastarem da falsa ciência.
A teoria científica pode e deve ser testada e, futuramente, refutada.
Segundo a falsificabilidade de Popper, uma teoria científica pode e deve ser testada. A teoria da relatividade, por exemplo, pode ser testada através de um eclipse solar, para verificar a deflexão da luz. Esse experimento foi feito no Brasil em 1919 e forneceu evidências observacionais em concordância com a teoria.
No entanto, em pseudociências como astrologia, terraplanismo, cristal terapia e etc., não há como testá-las de verdade. Na maioria dos casos, é apenas uma falsa relação de causa e efeito, e quando se tenta testá-las, ocorre outro problema a ser abordado, a falta de refutação.
Quando uma teoria científica não tem evidências que a sustente através de experimentos e informações, a teoria precisa ser revista ou abandonada. A pseudociência, por outro lado, tende a evitar esse processo. Ao invés de aceitar a possibilidade de erro, ela tenta adaptar as explicações para que nunca sejam consideradas falsas. Por exemplo, na cristal terapia, pode-se afirmar que um tratamento não funcionou porque o indivíduo não possuía a “energia adequada”, entre outros argumentos semelhantes.
Porque as pessoas acreditam em pseudociência?
A parte mais simples desta resposta é a desconfiança em instituições, governos e afins. Não é algo que necessariamente pode culpar as pessoas da pseudociência diretamente, visto que a desconfiança em uma instituição ou governo não é a parte nefasta disso tudo, especialmente porque questionar é uma base da própria ciência. No entanto, o problema entra quando as pessoas têm dificuldade em separar isso da própria ciência em si. A ciência, infelizmente, é cheia de interesses políticos negativos. Então, embora a desconfiança não seja a parte principal do problema, é geralmente onde começa.
Assim, cercada por dúvidas, as pessoas naturalmente buscam respostas. Mas a ciência é complexa e exige rigor, então dificilmente as pessoas buscam respostas através dela. E, juntando isso com o facto de termos um telemóvel à mão que nos bombardeia de informações, a fórmula do caos fica quase completa.
A internet é um lugar perfeito para a pseudociência se proliferar como uma praga. A pseudociência é simples de entender e parece “divertida”, algo que combina perfeitamente com a dopamina rápida da internet. Além do mais, o algoritmo quase sempre te recomenda mais coisas da sua própria bolha, dificilmente algo oposto a ela. E claro, todo mundo gosta de parecer alguém diferente, aquele que sabe o que “os outros não sabem”.
No entanto, isso não faz toda a fórmula para esse problema, existe mais um fator: a falta de alfabetização científica.
É muito mais fácil a pseudociência se espalhar em pessoas que não tiveram a melhor educação científica, o Brasil é um exemplo. Obviamente cada país acredita mais em diferentes pseudociências, e a educação não é o único fator, mas isso é uma das razões. Sendo assim, não se pode culpar as pessoas diretamente por acreditarem em pseudociência como se elas fossem apenas “burras”.
Os riscos da pseudociência na sociedade:
Em 2019, em Samoa, houve um surto de sarampo que ceifou 83 vidas. Segundo a OMS, a desinformação sobre a segurança das vacinas foi um dos fatores que contribuíram para a queda na cobertura do programa de imunização. Não estamos falando de um simples caso que alguém foi enganado por pseudociência, estamos falando de 83 vidas que não voltarão mais.
Outro grande problema da pseudociência é, talvez o mais conhecido e perigoso, o negacionismo climático. Ainda não temos um conhecimento final do quão prejudicial isso vai ser para a humanidade, até porque muitos não levam a sério.
Também há algo que se aplica a um nível não tão trágico, mas ainda sim moralmente errado: o charlatanismo. Há diversas pessoas que buscam respostas para questões físicas e mentais através de pseudociências, como astrologia e “tratamento com cristais”, gastando quantidades imensas de dinheiro com isso. Pessoas perdem tempo e dinheiro com falsas promessas, e pouco se faz sobre isso.
Para onde iremos?
Isso tudo não serve apenas para informar de uma forma resumida sobre a pseudociência, serve como um alerta. Devemos sempre estar em alerta com todo o conteúdo que consumimos na internet e fora dela, sempre com a ciência como base, mesmo alguns não gostando. A pseudociência não só pode enganar, ela traz uma ameaça à vida em certos casos.
Também devemos lembrar que a culpa não é simplesmente de quem acredita diretamente nisso. A pseudociência é um dos sintomas da má eficiência do Estado também, seja por uma educação científica ruim ou pela falta de combate à pseudociência.
Não sigam líderes políticos cegamente. Duvide, teste, comprove com rigor científico.
Nota: o autor escreve em português do Brasil.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Undark
Escrito por: Gustavo Trentini
Editado por: Leonor Oliveira


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