Se te ofendes facilmente, não abras este artigo

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Quantas vezes já disseste a ti próprio que “está tudo a correr conforme planeado” enquanto a tua conta bancária exibe um saldo deprimente e o teu futuro profissional parece um labirinto sem saída? De repente, a nossa geração decidiu que a realidade é uma mera sugestão e que um estado de delírio é a única ferramenta de sobrevivência que nos resta no kit de primeiros socorros mental. 

É uma estratégia sedutora e hipnótica. Se o mundo lá fora está um caos absoluto, porque não criar uma versão alternativa onde tu és o protagonista inabalável de um filme de sucesso que ainda ninguém viu? O problema é que, entre mantras de abundância sussurrados ao espelho e painéis de visão recortados meticulosamente do Pinterest, podes estar a entrar num caminho sem retorno onde a linha entre a ambição saudável e a dissociação pura e dura se torna perigosamente invisível.

Vives numa era onde admitir o fracasso, a tristeza ou a simples precariedade é visto quase como um pecado capital, uma “baixa vibração” que afasta a sorte e o algoritmo. Criaste uma espécie de radicalismo psicológico onde a performance do sucesso se tornou mais importante do que o sucesso em si. Passas horas a curar uma estética de produtividade impecável, a fingir que o teu side hustle está prestes a descolar e que a tua vida é uma sucessão de momentos esteticamente agradáveis, mas essa economia do otimismo tóxico exige uma energia monumental que te drena por dentro.

Estás a gastar o teu oxigénio mental a manter uma fachada para uma audiência que, na verdade, está demasiado ocupada a encenar o seu próprio “delírio” para realmente te prestar atenção. É um teatro de sombras coletivo onde todos somos atores e ninguém está na plateia e o custo real dessa peça é um esgotamento crónico que nenhum filtro (ou café de cinco euros) consegue esconder por muito tempo.

Este fenómeno do “delírio” funciona como um analgésico social potente, uma anestesia necessária para aguentar o peso de expectativas que já não cabem no mercado de trabalho atual nem no preço proibitivo das casas. É a resposta cínica a um sistema que nos prometeu que o esforço trazia recompensas e nos entregou contratos precários e ansiedade climática.

Todavia, como qualquer substância que nos retira da realidade, o efeito acaba por passar e a ressaca pode ser brutal quando o despertador toca. O perigo real não reside no sonho em si, sonhar é humano, mas na paralisia que o delírio traz disfarçado de esperança. Quando começas a acreditar genuinamente que “querer muito” substitui o “fazer por” estás a entregar voluntariamente o teu poder de ação a uma fantasia. É muito mais confortável acreditar que o universo tem um plano secreto para ti do que aceitar que o sistema em que vives é, por desenho, indiferente aos teus esforços e às tuas necessidades básicas.

Além disso, há uma armadilha cruel escondida nesta mentalidade, a culpa. Se o sucesso depende apenas da tua “vibração” e da tua capacidade de manifestar, então o teu fracasso passa a ser uma falha moral tua e não um subproduto de uma economia em crise. O “delírio” faz-te acreditar que se não chegaste lá, é porque não acreditaste o suficiente, ignorando todas as barreiras sociais, económicas e geográficas que estão no teu caminho. É um gaslighting psicológico que praticamos contra nós próprios, uma forma de evitar a raiva legítima que deveríamos sentir contra as circunstâncias, canalizando-a para uma procura incessante por uma perfeição mental inalcançável.

Estamos a transformar problemas coletivos em falhas individuais, tudo isto enquanto sorrimos para a câmara frontal do telemóvel e dizemos que a “gratidão” resolve tudo.

No entanto, há que admitir a outra face da moeda, há algo de profundamente rebelde em recusares a miséria emocional que te tentam vender todos os dias nos telejornais e nos gráficos de inflação. Talvez o teu delírio seja, de facto, a última trincheira da tua sanidade num mundo que deixou de fazer qualquer sentido lógico. Se a lógica matemática e estatística diz que vais ter uma vida materialmente mais difícil que a dos teus pais, a tua ilógica interna diz que vais ser a exceção gloriosa à regra. É uma estratégia de sobrevivência mental que te permite rir do caos absoluto em vez de colapsares sob ele. 

A questão fundamental que tens de colocar a ti próprio, antes de publicares o próximo story sobre como a tua vida é uma “vibe” constante, é saber se és tu que estás a usar essa ilusão para ganhar fôlego e lutar pelas mudanças que queres ver, ou se é a ilusão que te está a usar a ti para te manter calado, dócil e estático enquanto o mundo lá fora continua a arder. No fim do dia, todos precisámos de uma dose generosa de magia para conseguir sair da cama, mas convém garantires que, quando as luzes se apagam, ainda sabes onde termina o teu perfil digital e onde começas tu, com todas as tuas dores, dúvidas e verdades que nenhum delírio consegue apagar.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Freepik

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Leonor Oliveira

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