Saúde mental nos jovens universitários: um retrato no plural.

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No ano de 2023, Portugal foi o segundo país com a maior taxa de doenças psiquiátricas da Europa: Um em cada cinco portugueses tem uma perturbação psiquiátrica. Além disso, os sintomas mais frequentes são encontrados nas pessoas entre os 18 e os 29 anos. De forma simplificada, nos jovens universitários.

Provavelmente, aquilo que vai ser aqui escrito será uma narrativa próxima de milhares e milhares de pessoas. Jovens ou idosos, homens ou mulheres, portugueses ou irlandeses.

O ano era 2017. Estava no meu oitavo ano. Quando dei por mim, estava no gabinete de piscologia e orientação da minha escola, com a Dr. Telma. As pessoas à minha volta notavam que eu estava estranha. Mas para mim estava tudo normal. Só dizia umas coisas sem nexo. E não dormia de noite. E rabiscava coisas num caderno coisas “para não me esquecer”. Depois também não conseguia ler o que escrevia. Mas andava sempre com o tal do caderno. Inclusive no dia que decidi pedir desculpa à minha turma sabe-se lá porquê. Os olhos postos todos em mim, eu a dizer umas coisas sem nexo, com o tal do caderno. “Queres que eu leia por ti?”. “NÃO, NÃO PODES VER ISTO!”, pensei eu na minha cabeça. Aquilo fazia parte da minha “vida secreta” A mesma que tinha quando estava sozinha.

Lembro-me do dia em que as minhas duas melhores amigas da altura me telefonaram depois das aulas a perguntar se estava bem. Uma a seguir à outra. E eu disse que sim às duas, claro. O que é que ia dizer? Que não? Nem eu própria sabia bem o que se passava. Mas estava tudo bem, claro.

As coisas ficaram mais claras quando fui encaminhada para a psiquiatra e a Dr. Áurea disse que tinha uma “depressãozita”. Estava a entrar na adolescência e as hormonas desregularam-se. Foi isso. Com consultas de psicologia, psiquiatra e medicação durante cinco anos, tudo foi ao seu devido lugar. Voltei a dormir de noite e aquele nevoeiro todo foi embora. Deixei o Risperdal e o consultório cheio de desenhos da Dr. Áurea. Mas até hoje continuo no psicólogo: seguiu-se a Dr. Filipa e o Dr. Ângelo, este último que me tem acompanhado desde o começo da minha jornada no ISCSP.

Até porque ganhei uma amiga nova: a ansiedade. Mais vale chamar de amiga: é bom que nos demos bem. Não sei como surgiu. Não sei que preocupações tinha uma criança do oitavo ano para ter ansiedade. Casualmente perguntei à doutora se também tinha ansiedade (como se não bastasse a depressão) e ela disse que sim. “Não é o transtorno de ansiedade generalizada porque não te inibe de viver a tua vida normal”, disse-me. E vivo a minha vida normal, a roer as unhas desde que me conheço, a não conseguir parar quieta. Volta e meia choro, invadida por um tsunami de “e ses”. A minha vida mudou quando percebi o que eram aquelas dores de barriga que por vezes invadiam o meu corpo de surpresa, como aquela vizinha chata que volta e meia está na soleira da nossa porta. Não passavam nem com chás, idas à casa de banho ou medicações, mas passavam quando chegava a casa depois de uma situação stressante no trabalho.

Será sempre aquela pedra no meu sapato, mas nos dias de hoje já sei que é uma pedra, cinzenta, que não vai sair dali nunca. Mas se tiver um calçado mais confortável e for cuidando dos pés, não me incomoda tanto. Eu estou em paz com isso. Vou lidando como posso.

Será uma batalha sempre minha e só minha. Já ouvi coisas muito feias das pessoas que acham que sabem mais do que eu. O clássico “tem calma”, que faz tudo menos acalmar. O “já olhaste para as tuas unhas?”. Epá não, por acaso não tinha reparado, obrigada! E a melhor: que devia de voltar a tomar a medicação. Porque ser um ser humano com sentimentos é algo estranho aos olhos da sociedade. Temos de dizer que sim e ser submissos. Nada de contrariar, nem chorar, nem nos manifestar-mos quando as coisas não estão bem.

Se calhar é por isso que uma em cada cinco pessoas no nosso país sofrem de problemas de saúde mental.

Felizimente, há pessoas que são fortes o suficiente para falar das suas experiências. Os nossos colegas ISCSPianos são prova disso e quiseram partilhar connosco os seus testemunhos:

No meu primeiro ciclo sofri bullying e uma colega minha fazia-me chantagem, por exemplo: se não fores levar a minha mochila à sala já não sou mais tua amiga. Sempre tive medo de perder as amizades então fazia sempre tudo o que me diziam para fazer, mesmo se isso me levasse a sofrer. Ainda tenho ansiedade e tomo medicação para tal, e sinceramente ajuda me imenso. Hoje em dia o que a ansiedade me faz sofrer é por antecedência e faz me pensar que toda a gente está chateada comigo. O que eu quero dizer é que procurar ajuda nunca foi uma fraqueza, por outro lado, procurar ajuda só me tornou mais forte.

Anónimo

Eu sempre fui uma pessoa bastante ansiosa, mesmo para coisas super normais. Por exemplo, no 8º/9ºano, principalmente, a caminho da escola, estava constantemente aos tremeliques no carro e naquele nervosismo que até dá “a volta à barriga”. Nunca liguei muito, no entanto não entendia porque acontecia já que ia fazer as mesmas coisas e estar com o pessoal do costume. No entanto, foi no ano passado, 2023, que se descarrilou completamente. Em junho, com a época dos exames, eu andava obcecada com o estudar e não me focava em mais nada porque realmente achava que por mais que me esforçasse não seria o suficiente. Com isto, comecei a distanciar-me das minhas amigas e nesse verão quase que nem saí com elas nem dava notícias. Estava presa no meu quarto a estudar e comecei a saltar refeições tal era o stress. Isolei-me chegando ao ponto em que, mesmo que tivesse sido por minha culpa, sentia-me super sozinha/perdida já para não falar desmotivada, mesmo após a época dos exames. Sentia-me super triste e lembro-me que cada vez que o meu pai me perguntava se estava tudo bem, uma onda de lágrimas me vinha ao de cima. Não tinha vontade de falar nem de sair à rua. A minha ansiedade chegou a um nível absurdo, principalmente em agosto, ao qual eu posso dizer que foi o pior mês da minha existência. Passei super mal e estava tão emocionalmente instável que chorava todos os dias, múltiplas vezes e nas piores situações possíveis. Foi uma sensação mega desagradável sentir-me assim por um lado, e por ver a inquietação dos meus pais por outro.

Madalena Cardoso

Olá a todos, decidi mandar a minha história para talvez influenciar alguém a não desistir nunca e conseguir perceber que mesmo estando na m**** que há sempre forma de dar a volta. Pouco antes de entrar na faculdade fui diagnosticado com depressão muito grave. No primeiro ano de faculdade, não havia nenhuma festa em que não bebesse e caísse para o lado e me envolvesse com alguma rapariga. Sofria muito e achava que era no álcool e prazeres momentâneos que ia encontrar uma resposta. Magoei muitos amigos meus com os meus problemas, porque ninguém gostava de ver um amigo no estado em que eu estava. Maltratava-me diariamente a nível psicológico e físico. Se soubesse que havia uma rapariga que me fosse tratar mal, era a que mais me atraía. E assim entrava numa bola de neve que foi muito complicada de sair. Chumbei a muitas cadeiras e não era por falta de esforço, era frustrante tentar estudar e não me conseguir focar. Tudo era mau e não havia nada que me agarrasse à vida. Até que descobri que tinha ADHD e muitas das coisas que eu sofria e me culpava porque achava que eram da minha personalidade, tinham a ver com esta doença. Comecei a ter esperança e a envolver-me no associativismo, onde ganhei um novo propósito. E pela primeira vez em muito tempo, tinha um propósito e vários projetos a longo prazo. Com a medicação para o ADHD, comecei a ter motivação para fazer as atividades do dia a dia. Com psicoterapia, comecei a ganhar ferramentas para lidar com situações más que acontecessem. Nunca tive uma base familiar, emocional, financeira, etc… vim do nada e nunca tive uma mãe que me desse amor e carinho, que são essenciais para o crescimento de um ser humano. Tudo o que atingir na vida custará o dobro ou o triplo comparando a certas pessoas, comecei a valorizar-me por isso e não a culpar-me. Hoje em dia estou em bom estado e tenho crescido muito, já estive mesmo muito mal e neste momento tenho objetivos diferentes. Ajudar o próximo é sempre bom e lembro-me que foi também a ouvir histórias destas que me deu força para não desistir. Não desistas nunca!! Tens um propósito muito maior do que pensas!

Anónimo

Estas histórias certamente que se vão repetindo por aí, de pessoa em pessoa. O mais importante de tudo é falar sobre isso abertamente, sem medos. Se calhar a pessoa que te ouve sabe exatamente do que falas.

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Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Marta Ricardo

Editado por: Catarina Soares

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