Fofoca ou Agressão?

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Sendo hoje o Dia Mundial da Saúde Mental, não poderia deixar de abordar a minha jornada por aquela que é a base de todo o funcionamento do nosso corpo e que tanto condiciona a nossa vida.

O maior desafio que enfrentei nesse aspeto, até agora, aconteceu há precisamente dois anos (mais dia, menos dia), quando, na minha secundária, passou a ser aceitável gozar com a minha pessoa e menosprezar quem sou. Quando, chamemos as coisas pelo nome, comecei a sofrer de bullying, assédio esse que durou dois anos, e que só “terminou” agora que abandonei aquele ambiente. Chamemos novamente as coisas pelo nome e usemos o termo “atenuou”, porque o ataque à integridade física e mental de uma pessoa não tem espaço. Afinal de contas, o bullying está nas pessoas, não no sítio onde é praticado, e começa a ser tão natural em quem o pratica, que surge com a mesma naturalidade (e com a mesma frequência) com que acenamos a quem conhecemos, quando vemos a pessoa a aproximar-se, na rua. Começa, no fundo, a ser aceitável aos olhos dos outros, começa a ser um pensamento geral e geral considera-se no direito de o praticar, também.

Quando pensei sequer na ideia de escrever sobre este tema, fiquei maldisposta. Fiquei sem sentir o corpo, nauseada, enfim, com o género de ataque de ansiedade que comecei a conhecer nesse dia. Há dois anos que aquilo de que fui vítima em outubro de 2022 me aparece de repente na cabeça, como um pensamento intrusivo que ainda não consegui deixar escapar. Foi há dois anos, mas este ano ainda tive de procurar apoio médico, pois não percebia por que razão tinha, semanalmente, tonturas e falta de sensibilidade nos membros, de repente, onde quer que estivesse. Era ansiedade.

Há dois anos que tenho, também como pensamento presente em mim, a ideia e a necessidade de falar sobre isto, de escrever sobre isto, de mostrar ao mundo o meu lado, mas sempre que começava a escrever ficava ansiosa ou a pensar que nunca valeria a pena, pois, inconscientemente, fiquei com a crença de que as pessoas vão sempre valorizar mais aquilo que, de mal, se diz sobre nós, e com a ideia de que expor a situação teria efeitos negativos em mim. Resumindo, o típico medo que quem já foi vítima sente, e nem sabe bem explicar.

Este dia internacional e a oportunidade de escrever sobre o mesmo surge, hoje, como uma motivação para expressar, finalmente, aquilo que tenho guardado dentro de mim, e todo o processo de cura que tenho vindo a desenvolver. A ideia que tinha do bullying era a que, muito provavelmente, a maioria das pessoas que não sofreu do mesmo tem. Era a ideia estereotipada de que o bullying é loud, que se vê e se identifica imediatamente. A ideia de que a vítima é totalmente excluída do espaço onde sofre, e em que a humilhação pública surge de forma fervorosa. Só percebi que sofria do mesmo após um ano, quando me apercebi que desrespeitar-me e inferiorizar-me enquanto pessoa, física e psicologicamente, ainda que de uma forma mais discreta que o estereótipo que se tem sobre o tema, se tinha tornado moda entre os demais e se tinha tornado estupidamente aceite. Lembro-me de uma noite em particular: tinha ido sair com uns amigos a um bar, onde encontraram um rapaz da nossa escola. Esse rapaz não me conhecia, mas passou o tempo todo em que estivemos juntos a fazer comentários sobre mim aos meus próprios amigos, tendo chegado a dizer “ainda bem que aquela p*** já se foi embora”, quando me ausentei por uns minutos. Nesse dia, cheguei a casa a chorar de um dos momentos em que, supostamente, mais felicidade nos traz: estar com os nossos e conviver com eles. Foi um dos momentos em que me apercebi de que a situação se estava a alastrar e a ultrapassar todos os níveis, e em que me apercebi de que me sentia muito sozinha e infeliz, onde quer que estivesse com pessoas da minha idade. Era um dos sinais que estava a perder a minha sanidade mental e a minha autoconfiança, tudo influência do ambiente onde me inseria.

Há dois anos que cinco pessoas da minha escola secundária, maioritariamente maiores de idade, enviaram cinco mensagens diferentes sobre o quão terrível sou como pessoa. O grupo tinha mais de 100 pessoas e as mensagens serviram como campanha para a Associação de Estudantes. Para mim, serviram como um cartão-verde para ser maltratada pelos outros, e como principal motivo pelo qual queria sair o mais depressa possível daquela escola. A partir desse dia que sei o que é apontarem-nos o dedo como quem aponta uma arma, ou olharem-nos como se olha para um palhaço, no meio de um palco, com os holofotes em cima dele e a pedir para o público se rir de tudo aquilo que disser e fizer, e a partir desse dia que situações como a da noite no bar começaram a acontecer, regularmente.

Fiz queixa na direção da minha escola e falei com várias pessoas sobre o assunto. No entanto, nunca houve consequências para os agressores. A partir desse dia percebi, também, que muito dificilmente as pessoas responsabilizam os culpados por casos de difamação e que, aliás, muito facilmente sabrecaem sobre a vítima. Não sei se é do gossip típico do português ou se este gosto pela mesquinhez está intrínseco no ser humano, a verdade é que fiquei sem muita gente que considerava amiga, nessa altura, e que passei por tudo isto muito sozinha. Pessoas que considerava os meus melhores amigos deixaram-me, para acreditar naquilo que se disse sobre mim, não por tudo o que tinha sido para eles.

Apercebi-me de que esta é uma situação muito mais comum do que pensamos e muito mais séria do que parece. É ao sentir na pele que entendemos todas as vítimas de boatos criados e espalhados por pessoas inconscientes (ou bastante conscientes, até), e a dor que é não conseguir limpar uma imagem que não é nossa e que nos é atirada para cima, escurecendo os nossos dias e as nossas relações interpessoais.

Estou, neste momento, a passar pelo processo de cura neste assunto e a recuperar a minha autoconfiança, e ter mudado de ambiente fez-me, nos últimos meses, sentir que me estou a ter de volta muito mais depressa. Espero que, quando me sentir 100% curada, possa falar de tudo aquilo que me ajudou a fazê-lo. Para já, mesmo que já tendo aprendido muito com isto, queria dizer-vos que não estão sozinhos, e que a sociedade precisa de evoluir muito no que toca a estes temas.

Estou orgulhosa de mim por ter conseguido expor isto, é um sinal de que posso celebrar o dia de hoje, feliz com o meu progresso.

Este artigo é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Cristina Barradas.

Editado por: Marta Ricardo.

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