O mundo é bué cenas

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Tenho os olhos postos no ecrã há varias horas. O meu dedo mexe-se num ritmo constante, quase robótico, enquanto faço scroll infinito por vídeos aleatórios na internet.

Não me lembro se estou no Instagram ou no TikTok. Antigamente, as redes sociais eram diferentes – cada uma com a sua particularidade especial que a tornava única – mas, agora, somos escravos do algoritmo, que se tornou idêntico em todas e que é o princípio ativo desta droga demasiado viciante. Nem me lembro de quando me tornei numa viciada. Não dei por mim. Nenhum de nós deu.

Vejo um vídeo de um grupo novo de música, um post com um meme engraçado que viralizou na noite anterior, e uma fotografia de uma amiga, de férias na Tailândia. Dou like na última e movo o polegar, sem perceber que dei a ordem ao meu cérebro para continuar a “scrollar”. Estou aborrecida, mas o vício é maior.

Mais um vídeo. Um influencer a dizer que os grandes problemas da sociedade seriam resolvidos se as mulheres voltassem para casa para ter filhos e servir os maridos, e fossem proibidas de votar. A culpa é delas, por terem deixado que a epidemia da solidão masculina se tornasse tão grave. A culpa é das feministas que odeiam os homens.

Paro o vídeo e sigo para o próximo.

Desta vez são imagens de guerra. Bombas a cair, soldados a disparar tiros. Aquilo que pensava ser uma reportagemmostra-se, rapidamente, mais gráfico do que aquilo que passaria na televisão. Vejo as vítimas a cair no chão. Algumas com tiros, outras com estilhaços de bombas. Numa guerra os alvos não são apenas os militares; os civis também sofrem – vejo mulheres, crianças e idosos caídos, magoados e desesperados. Sangue por todo o lado. Vejo o que restava de uma cidade a rodeá-los, e a lembrá-los constantemente de um passado que nunca mais vai regressar.

Sinto-me mal disposta e continuo a passar de vídeo em vídeo, de post em post, de fotografia em fotografia, e a ver como a vida é tão triste.

Uma notícia. Uma jovem da minha idade suicidou-se em direto. Estavam centenas de pessoas a assistir, e ninguém a ajudou. Na realidade, encorajaram-na para que ela não tivesse quaisquer dúvidas de que estava a tomar a decisão certa. Deixou os pais e um irmão mais novo com apenas quatro anos. Todos destroçados.

Mais notícias. Noutro país, uma manifestação deu origem a desacatos entre a polícia e os manifestantes. Dezenas foram presos e outros tantos, agredidos. Nos comentários, leio uma guerra autêntica entre apoio à polícia, insultos aos manifestantes e insultos aos governantes, por levarem o país a esta situação. Leio insultos a todos os que discordam das opiniões divergentes. Já ninguém consegue debater um assunto sem ofender gratuitamente. Onde está a tolerância?

Fecho os olhos e respiro fundo. Uma vez, ouvi alguém dizer que “o mundo era bué cenas”. Então porque é que não parece? A cada dia que estamos fechados dentro do nosso mundo, a vida torna-se uma tragédia maior.

Somos jovens, mas não há futuro. Não há casa. Não há bons empregos. Não há salários justos ou um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. Esperam que sejamos escravos de uma sociedade que não quer acomodar inovação, a menos que ela se chame IA. Aí, forçam-nos a utilizá-la, mesmo que isso custe o planeta, a qualidade de vida e o pensamento crítico humano.

Ainda somos regidos pelos “donos disto tudo”. Seja quem for que está a governar, o dinheiro fala sempre mais alto e o povo sofre com as decisões de lobbies não confirmados, empresas com listas de clientes não divulgadas e milionários, cujos interesses não favorecem quem realmente faz pelo país.

Não podemos mudar o mundo. Dizem-nos desde pequenos que podemos fazer tanta coisa, mas ao ver tudo isto sinto que, não só não posso mudar o mundo, como estou com as mãos tão atadas, que mais vale desistir. De que me vale estar aqui se só me resta desistir?

Não! Recuso-me. Não vou baixar os braços.

Por agora, vou desligar o telemóvel.

Vou sair lá fora e ver que o mundo, realmente, “é bué cenas”. Não vou odiar o desconhecido. Vou explorá-lo, aprender com ele e decidir que tipo de pessoa vou ser. O mundo é mais do que esquerda ou direita, likes e comentários, ou a aprovação de alguém que não me diz nada. Vou tirar a voz a influencers que não sabem do que falam, vou fazer voluntariado numa associação que ajude pessoas ou animais em necessidade. Vou fazer por mim, e pelos outros.

Vou ler muito. Vou ver muitos filmes. Vou sair com os meus amigos e dizer à minha família que os amo. Vou tirar todas as dúvidas que tenho porque nenhuma pergunta é estúpida. Vou vestir aquela roupa com confiança e esquecer o que os outros vão pensar. Vou provar todas as comidas que quero.

Vou ver peças de teatro. Participar numa, talvez?

Vou votar, porque é um direito e um dever!

Vou tirar fotografias. Vou a museus. Vou a debates, e não vou insultar ninguém.

Vou viver, e vou conhecer o mundo.

Não podemos acabar com a guerra. Há sempre alguém a tentar começar outra, por qualquer que seja a razão, sem pensar que isso vai destruir vidas inteiras e condicionar muitas mais.

Estou farta do telemóvel. Estou absolutamente farta das redes sociais e do algoritmo que nos impingem a torto e a direito, para que continuemos a consumir a depressão e o ódio em forma de conteúdo.

Não pode ser só isto que existe, e não é só isto que existe.

O mundo ainda é, e vai continuar, a ser “bué cenas”.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa: Getty Images

Escrito por: Filipa Almeida

Editado por: Cristina Barradas

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