Nunca pensei que uma das coisas mais difíceis de viver longe de casa fosse perceber que não preciso sentir saudades para sentir falta. Aqui, os meus dias enchem-se de pessoas, lugares e histórias novas, em Portugal, a vida continua a acontecer, com a mesma naturalidade de sempre, mesmo quando deixo de fazer parte de alguns dos seus momentos.
Eça de Queirós criava uma espécie de paradoxo entre o lugar onde vivemos e aquele a que sentimos pertencer. Longe de Portugal, começo a perceber essa mesma contradição… enquanto construo uma vida na Polónia, há outra que continua a acontecer sem mim, entre encontros, conversas e histórias das quais já não faço parte.
Antes de partir, imaginava que viver no estrangeiro seria sentir saudades constantes, como se a distância tivesse de se fazer sempre notar para me lembrar de onde vinha. Não pensei tanto na possibilidade de me esquecer dela, de passar dias inteiros ocupada com as aulas, os amigos, os lugares que ainda quero conhecer, sem que Portugal me ocorra a cada momento. A vida prende-nos ao presente, mesmo quando uma parte de nós permanece noutro lugar.
Aos poucos, a Polónia deixou de ser apenas o país onde estou a estudar. Há caminhos que já reconheço, pessoas que passaram a fazer parte dos meus dias e pequenos hábitos que me fazem sentir menos estrangeira. O que inicialmente exigia a minha atenção tornou-se familiar e é precisamente nessa familiaridade que descubro uma das maiores contradições de partir. Podemos começar a sentir-nos em casa num lugar novo sem deixar de pertencer àquele de onde viemos.
Por vezes, basta uma fotografia, uma chamada ou uma história contada por alguém para me lembrar de tudo aquilo a que não tenho assistido. Há momentos que acontecem sem mim, conversas às quais já não chego a tempo e memórias que outras pessoas guardam enquanto eu construo as minhas aqui. É estranho perceber que a nossa ausência não interrompe a vida de ninguém e que o mundo não abranda para nos permitir acompanhar tudo aquilo que deixámos para trás. Crescer é também aprender que não podemos estar presentes em todos os lugares onde somos amados.
Há, ainda assim, culpa em estar bem longe de casa. É como se a saudade fosse uma obrigação, uma prova que temos de apresentar para demonstrar que as pessoas continuam a importar-nos. Tenho aprendido que posso passar um dia inteiro sem pensar em Portugal e continuar ligada a quem lá ficou, que posso rir, fazer planos e sentir-me feliz aqui sem que isso diminua o significado da vida que deixei. Afinal, esquecer-me de pensar em alguém não é o mesmo que me esquecer dessa pessoa.
Partir também significa aceitar que algumas coisas vão acontecer sem nós. Enquanto descubro este país, há jantares, aniversários e tardes portuguesas que nunca vou conseguir recuperar. Quando regressar, terei histórias para contar, embora também existam histórias que não conhecerei inteiramente, porque não estive lá para as viver. A distância não é feita apenas daquilo de que sentimos falta, mas também daquilo que nunca chegaremos a saber.
Ainda assim, há uma parte de mim que só existe porque parti. Conheci pessoas que, de outra forma, continuariam desconhecidas, descobri que sou capaz de resolver problemas longe das minhas referências habituais e comecei a perceber que crescer implica, por vezes, deixar de reconhecer imediatamente o lugar que ocupamos no mundo. Não sei exatamente quem serei quando regressar, tal como não sei se vou conseguir explicar às pessoas que me conhecem desde sempre tudo aquilo que mudou em mim.
Por enquanto, há uma vida minha a acontecer em Portugal e outra a acontecer na Polónia. Não preciso de escolher qual delas me pertence mais, nem de sentir saudades a todas as horas para saber de onde venho. Estou a aprender que podemos continuar ligados aos lugares que deixamos, mesmo quando começamos a criar raízes noutros e que regressar não será recuperar exatamente a vida antiga, mas encontrar nela um lugar para a pessoa em que me tornei.
Para acabar, deixo a minha end line sobre viver entre dois países: descobri que a distância nos afasta de alguns momentos, aproxima-nos de nós próprios e ensina que há vidas que continuam a ser nossas mesmo quando já não estamos lá para as viver.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Magnific
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Carolina Dinis


Deixe uma Resposta