Numa sociedade onde o conhecimento se tornou uma arma de divisão, em vez de uma de compreensão, o maior ato de rebeldia é manter a curiosidade e recusar as certezas absolutas.
Nos dias de hoje, o conhecimento tornou-se uma arma que divide, cria conflito, tapa os nossos olhos e torna-nos hostis. O conhecimento, como sempre o vi, está em transição. O domínio sobre um determinado assunto é, agora, ignorado, sobressaindo-se quem fala mais alto ou quem recorre às palavras mais atrativas e populares (“buzzwords“).
Não é só na televisão que vemos este fenómeno; é nos cafés, na rua, em casa… ou seja, em todo o lado. Hoje em dia, ser uma pessoa mais racional e analítica é quase como cair num poço, cada vez que ouvimos algumas palavras a sair da boca de algumas pessoas: ao ter uma maior consciência sobre os assuntos, mais perplexos ficamos, quando ouvimos coisas que não possuem qualquer fundamento.
No entanto, o meu problema para com esta “crise de ignorância” deve-se ao facto do conhecimento (algo que, como seres humanos racionais, deveríamos procurar ao longo da vida) estar a ser ultrapassado por uma falta de curiosidade e interesse por tudo.
Atualmente, é preferível seguir o que os outros estão a seguir, como se tivéssemos que escolher um lado em todos os temas que surgem.
E eu pergunto: Por que é que não podemos formar as nossas próprias opiniões? Por que é que temos que acreditar que tudo tem um culpado e uma vítima? Por que é que nos temos que aliar sempre a alguma equipa, partido, ou figura pública mais famosa?
Eu admito. Antes de começar a estudar Sociologia, aqui no ISCSP, era exatamente igual, Porém, ao ver que a sociedade é demasiado complexa, soube que vim ao mundo para questionar tudo o que vejo à frente, até mesmo as minhas próprias convicções.
A sociologia sempre foi e sempre será um antídoto contra esta crise.
Por outro lado, pegando pelo lado da Psicologia, quando fui pesquisar mais sobre este assunto – que me anda a chatear a cabeça -, deparei-me com o “efeito Dunning-Kruger”:
Dunning Kruger: “Trata-se de um erro sistemático de raciocínio, nomeadamente de avaliação e análise, em que a falta de conhecimento impede o indivíduo de reconhecer as próprias limitações, conduzindo a intervenções inadequadas ou juízos errados.” (Filipe Froes, Diário de Notícias, 2026)

Este efeito explica, perfeitamente, esta crise de que falo, em que parece que todos são donos da razão, sabem e falam sobre qualquer assunto, mesmo nunca tendo ido, realmente, à procura de conhecimento sobre o mesmo.
É isto que realmente me preocupa. Num mundo onde as palavras possuem uma força imensurável, os juízos de valor, a desinformação e as “inverdades”, que deles surgem , podem prejudicar a passagem de uma mensagem de diversas formas, vinda de diversas fontes.
No fundo, o que quero transmitir neste texto é uma preocupação que tenho há bastante tempo, e que tem vindo a piorar. Claro que o ser humano não consegue e nunca conseguirá ser perfeito no que toca ao conhecimento, mas é por isso mesmo que o reproduzimos: o conhecimento é criado através da ignorância, mas de uma ignorância consciente, em que percebemos as nossas próprias lacunas, tentando corrigi-las. O problema é que essa consciência está a desaparecer aos poucos. Vemos, cada vez mais, discursos disparatados na comunicação social, das pessoas nos autocarros e nas nossas próprias interações, que nos fazem perder a cabeça.
Falta-nos humildade e o reconhecimento de que o nosso conhecimento é sempre limitado e está sempre inacabado, e que mudar de opinião perante novos factos não é uma derrota, mas sim um sinal de maturidade.
É por isso que escrevo isto, como um alerta à comunidade ISCSPiana. A nossa responsabilidade passa, precisamente, por recusar o conforto dos dogmas, transformar a academia num espaço de debate vivo, não de doutrinação, e ter a coragem de fazer as perguntas mais desconfortáveis.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de Capa: Vox
Escrito por: Gonçalo Ribeiro
Editado por: Cristina Barradas


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