Ensino em crise: até quando é que os governos europeus vão desvalorizar o setor da educação? Em França os alunos e comunidades escolares estão fartos de esperar por mudanças.
Em França, a tradição de derrubar a ordem estabelecida está tão enraizada que a única diferença entre 1789 e 2026 é que a resposta ao “let them eat cake” agora são contentores do lixo a arder e bloqueios às portas de escolas.
O mês de setembro é marcado pelo regresso às aulas e este ano em França não foi diferente. Ao serem confrontados com as condições há muito criticadas e fartos de esperar por uma resposta do Governo a esta “crise”, os jovens, professores, funcionários, pais e sindicatos revoltam-se contra as condições do ensino, fechando escolas e saindo às ruas.
Este movimento, que teve início na Academia de Créteil, na região metropolitana de Paris, alastrou-se rapidamente a cidades como Lyon, Marselha e Toulouse, graças às redes sociais, onde circulavam imagens desta revolta.
Os estudantes, professores, pais e, em geral, as comunidades escolares exigem uma melhoria das condições das escolas e, ao verem que não eram “ouvidos”, decidiram sair para a rua.
As instalações estão degradadas e antigas, o que torna impossível o bem-estar de todos nas cada vez mais frequentes ondas de calor, sendo estas algumas das provas da falta de investimento neste setor.
Os manifestantes reportam também que a falta de professores tem vindo a aumentar ao longo dos anos; dados mostram que, apesar de haver menos professores do que há 18 anos, há mais 250 mil alunos.
As turmas são demasiado grandes, rondando os 30 alunos, o que torna o ensino pouco personalizado, uma vez que o professor não tem tanto alcance individual em turmas tão numerosas, colocando em risco a qualidade do ensino.
Os manifestantes consideram que a falta de condições e o clima de tensão que se vive neste setor tão essencial à sociedade são o motivo pelo qual o desempenho dos alunos franceses no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) tem caído a pique nos últimos anos.
Os protestos iniciaram-se de forma pacífica, mas com a escalada de violência começaram a surgir consequências bastante sérias: mais de 5000 pessoas foram detidas desde o início da mobilização e há um número de feridos bastante significativo. Além de ferimentos ligeiros, um jovem perdeu uma mão, outro a visão de um olho e um professor foi atingido com gasolina.
O Primeiro-Ministro francês assume que as exigências e preocupações dos estudantes são legítimas, mas declara que os protestos são muito violentos. O Governo tem sido fortemente criticado pelos estudantes, que consideram insuficiente a resposta às suas reivindicações.
Estas manifestações, por mais que reivindiquem coisas essenciais e importantes e denunciem a degradação do sistema social francês, mostram, também, que as novas gerações estão prontas para lutar por causas que as afetam diretamente. No entanto, toda a violência que está neste momento associada a este movimento não é aceitável e pode acabar por prejudicar muitas pessoas.
O ministro da Educação francês já se reuniu com representantes dos jovens, mas a reunião terminou sem qualquer acordo.
Algumas regiões da Bélgica estão a adotar atitudes semelhantes às de França e, em Portugal e Espanha, têm acontecido cada vez mais manifestações por parte dos professores em relação às condições do ensino, passando por situações semelhantes às de França.
Em geral, acredito que podemos concluir que estes problemas no setor da educação atravessam fronteiras. No nosso país, no passado ano letivo, já assistimos a algumas manifestações por parte dos alunos, neste caso sobre os exames nacionais.
Tudo isto me leva a refletir sobre a importância da educação nas sociedades, um setor que ultimamente parece ser desvalorizado por parte de muitos dos governos europeus. Como podemos formar jovens para se tornarem adultos totalmente funcionais e bons profissionais, se o nosso Governo nos desvaloriza a nós e àqueles que têm um papel fundamental nesta ação?
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Matilde Morais
Editado por: Nikola Milosev
Imagem de capa: SAPO


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