Decorre neste momento o Olhares do Mediterrâneo – Women’s Film Festival em Lisboa, entre Abril e Junho. No seu seguimento, dia 23 de maio decorreu a projeção de The Other Side of the River, um dos três filmes sobre a revolução feminista no Rojava.
Este é um ciclo cinematográfico que introduz a democracia radical do Curdistão Sírio. Neste caso, The Other Side of the River é um documentário realizado por Antonia Kilian, de 2021.
Este filme estilo documentário acompanha a vida de uma jovem síria, Hala, que foge de um casamento forçado pela sua família. Para tal, atravessa o rio Eufrates em busca de liberdade, e nisto junta-se a uma Unidade Curda de Proteção das Mulheres, na qual recebe treino militar e político. Isto permite a libertação da sua cidade natal do Estado Islâmico.
No entanto, depara-se com uma realidade triste: para além do ISIS, o patriarcado e os seus valores culturais são também grandes inimigos de todas as mulheres nas YPJ. Com isto, Hala promete dedicar-se à libertação das mulheres e das suas irmãs, custe o que custar.
Este é um filme que tem como foco central a liberdade feminina, a resistência ao patriarcado, a identidade política e a emancipação num território destruído pela guerra.
The Other Side of the River passa-se durante a Guerra Civil da Síria, iniciada em 2011. Com o caos da guerra, o ISIS (Estado Islâmico) conseguiu ocupar várias regiões da Síria e do Iraque. Este defendia ideais extremistas e impôs regras violentas. A cidade natal de Hala, Manbij, esteve sob o controlo do ISIS entre 2014 e 2016.
A protagonista refugia-se em Rojava, uma zona controlada pelos curdos sírios, com uma abordagem política mais progressiva. É dada uma grande ênfase à participação feminina nas YPJ, que pegaram em armas contra o ISIS, afirmando o seu valor e os seus direitos.
Através do contexto histórico, o filme revela a maneira como a guerra altera a vida quotidiana, como as mulheres passam a ser agentes políticos e militares, e os choques entre o valores progressivos e modernos e os valores tradicionais e culturais.
O filme parece perguntar constantemente até que ponto uma transformação política consegue realmente mudar uma sociedade?
Em primeira instância, tudo aponta para estado de libertação: Hala consegue fugir do casamento, atravessa o rio e junta-se a um movimento que defende a igualdade de género. O rio funciona como uma metáfora visual, que provoca a ruptura entre o passado de submissão, a mudança de identidade e renascimento. Pela primeira vez, Hala tem opção de escolha.
Contudo, mesmo após a derrota militar do Estado Islâmico e da implementação de políticas mais progressistas, continuam presentes os mesmos valores sociais e culturais, em torno de toda a tradição e orla familiar.
Será que uma revolução política é o suficiente para transformar mentalidades profundamente enraizadas?
O filme sugere que a mudança institucional é muito mais rápida e fácil do que a mudança cultural. De facto, a revolução abre possibilidades, mas não elimina estruturas de poder antigas, e talvez não chega a proteger quem as tenta romper.
Every step is valuable, no mather how society actually reacts to women’s actions in behalf of their freedom.
It’s sad that the system isn’t still able to change, but one day we’ll get there.
De uma estudante de Mestrado em Ciência Política, no ISCTE.
Título original: The Other Side of the River; Ano: 2021; Género: Documentário Duração: ~91–96 minutos; Países de produção: Alemanha, Finlândia; Línguas: Árabe, Alemão, Curdo, Inglês; Realização: Antonia Kilian; Escrita: Antonia Kilian, Guevara Namer e Arash Asadi; Produção: Merja Ritola, Frank Müller, Antonia Kilian e Guevara Namer; Produtoras: Pink Shadow Films (Alemanha) Doppelplusultra Filmproduktion (Alemanha) Greenlit Productions (Finlândia); Edição: Arash Asadi; Música Original: Shkoon; Direção de Fotografia: Antonia Kilian
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de capa: JIP
Escrito por: Soraia Amaral
Editado por: Rodrigo Caeiro


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