Ensinar a FPF a contar – a má contagem de campeonatos portugueses

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Para muitos, contar é algo intuitivo. Aprendi a fazê-lo há uns anos, apesar de nunca ter tido a maior vocação para a matemática. Ainda assim, o sistema de ensino não é perfeito, e permitiu a alguns indivíduos em cargos decisivos tornar contexto e evidência histórica obsoleta, estabelecendo assim a melhor maneira de contar. Soa confuso? Vou explicar tudo: O FC Porto sagrou-se no dia 2 de maio de 2026 campeão nacional pela 31ª vez… mas, então e o resto?

Parte 1 – Século XX

A história das competições do futebol português começa no ano de 1921, com a criação do Campeonato de Portugal, uma competição que visava premiar a melhor equipa em território português. Era a maior e única competição de futebol em Portugal e, logicamente, condecorava o campeão nacional.

O Campeonato de Portugal era organizado num sistema de eliminatórias para o qual se classificavam as equipas campeãs regionais do país. O primeiro a sagrar-se campeão foi o FC Porto, mas ainda assim começava a formar-se uma hegemonia dos clubes lisboetas, algo que forçou a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) a alterar radicalmente o seu formato do Campeonato no começo da época 1926/27, de modo a permitir a participação de mais equipas por região do país.

Antes da alteração, alguns nomes de zonas mais periféricas do nosso Portugal ganhavam destaque, como: o SC Olhanense do munícipio de Olhão, sagrado campeão português em 1923/24 e o CS Marítimo do Funchal, sagrado campeão português em 1925/26.

Depois da alteração, registam-se 3 Campeonatos de Portugal para o SL Benfica e para o CF Os Belenenses, e 1 Campeonato de Portugal para o Carcavelinhos FC, um clube de Alcântara já extinto.

Sobressaem-se com 4 Campeonatos de Portugal cada, relevantes às duas fases, antes e pós alteração, o FC Porto e o Sporting CP.

O Campeonato de Portugal encerra na época de 1937/38 com o triunfo do Sporting CP sobre o SL Benfica no Estádio do Lumiar em Lisboa, construindo a forma final do Palmarés do Campeonato de Portugal, onde constavam 7 clubes distintos, aos quais era atribuído o título de campeão português:

  • FC Porto e Sporting CP – 4 Títulos;
  • SL Benfica e CF Os Belenenses – 3 Títulos;
  • SC Olhanense, CS Marítimo e Carcavelinhos FC – 1 Título.

Na época de 1934/35, decide-se fazer uma nova competição em formato de liga. Uma competição mais ‘democrática’, que permitia que todas as equipas se defrontassem umas às outras duas vezes por época, ainda que nem todas as equipas pudessem participar. Eram escolhidas 8 equipas a dedo (4 da AF de Lisboa, 2 da AF do Porto e 1 da AF de Coimbra e da AF de Setúbal). Foi a primeira experiência do formato atual.

Esta é nomeada Campeonato da Primeira Liga ou “Liga Experimental”, porque era, ao fim do dia, uma experiência para testar e adaptar as equipas a um novo formato. Durante os seus 4 anos (1934/35 a 1937/38) tivemos 2 clubes vencedores: O SL Benfica com 3 títulos e o FC Porto com 1 Título.

Depois de notada a adaptação dos clubes portugueses a este formato. são fundadas, em 1938/39, duas novas competições: o Campeonato Nacional da Primeira Divisão, que se tornava a prova máxima do futebol português. e a Taça de Portugal, a prova rainha do futebol português, que mantinha o sistema de eliminatórias, mas não o peso da competição.

Foi compreendido por todos que seriam feitas novas contagens (do zero) para ambas as novas competições. Deixando para trás as antigas, mas compreendendo o Campeonato de Portugal como o decisor do campeão nacional.

Parte 2 – Século XXI

Sob esta nova contagem, no final da época 2003/04, os Palmarés constavam:

  • SL Benfica – 27 Títulos;
  • FC Porto – 19 Títulos;
  • Sporting CP – 18 Títulos;
  • CF Os Belenenses e Boavista FC – 1 Título.

Mas, por proposta do SL Benfica à FPF, tornavam-se agora os campeonatos experimentais, nunca considerados relevantes para a contagem do campeão nacional, em títulos de campeão português. Tornando a contagem de Palmarés em:

  • SL Benfica – 30 Títulos;
  • FC Porto – 20 Títulos;
  • Sporting CP – 18 Títulos.
  • CF Os Belenenses e Boavista FC – 1 Título.

Quebrando toda a lógica histórica de quase 70 anos da nova competição e ignorando a importância da competição que verdadeiramente premiava o campeão durante os primeiros 17 anos da história do futebol português.

A FPF, contrariamente à sua decisão, diz na obra própria: Os Anos de Diamante 1914-1989: “[…] São campeões de Portugal todos os clubes que ganharam esta prova (Campeonato de Portugal), propriamente dita, de 1921/22 até 1937/38 e serão campeões nacionais os clubes que vierem a ganhar a competição, organizada em novos moldes, a partir de 1938/39. […]”, ou seja, nunca podendo atribuir a qualidade de campeões nacionais aos detentores dos títulos de campeonatos experimentais.

Considerações Finais

É nítido como o clubismo pode mexer com os nossos sentimentos e a nossa maneira de ver certos pontos de vista. É justo que cada um ache que o seu clube é o melhor, mas há também que reconhecer os factos, e os factos são estes.

Toda a situação culmina numa falta de respeito para com a história do futebol português, os clubes e atletas em tempos campeões nacionais e os seus adeptos. Fica evidente uma perda completa de relevância na FPF, do futebol português e da justiça portuguesa em geral como agentes neutros.

Finalmente, encerro este artigo, que mais parece um manifesto, com a apresentação de contagem de Palmarés que (corretamente) indica os 8 campeões nacionais, com base histórica e factual:

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa: https://www.futbox.com/blog/wp-content/uploads/2021/10/trofeus-liga-portugal-Foto-Liga-Portugal-nuno-martins-design.jpg

Escrito por: Guilherme Bencatel

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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