Para os que dizem que já existe igualdade suficiente. Para os que reviram os olhos quando se fala em feminismo. Para os que classificam denúncias como exagero. Para os que se apressam a defender “a reputação dos homens”, sempre que uma mulher expõe uma injustiça.
A todos os que odeiam mulheres, ainda que não tenham coragem de o admitir,
Esta carta é para vós.
O vosso ódio raramente se apresenta como ódio. Surge como opinião racional, de humor inofensivo e de tradição. Só que a realidade é menos sofisticada.
Uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida, mostram os dados da Organização Mundial da Saúde. Uma em três. As estatísticas feitas pela ONU Mulheres demonstra que as mulheres continuam sub-representadas nos cargos de decisão política e económica. A desigualdade não é perceção, mas mensurável.
Ainda assim, continuam a dizer que o problema é exagerado.
O vosso desconforto revela mais do que as vossas palavras. Desmascara o medo de perder privilégios que sempre pareceram naturais e mostra a dificuldade em aceitar que a competência feminina não é exceção.
Criticam o feminismo, ignorando que a sua essência é a igualdade. Temem uma guerra que nunca foi proposta, porque a única coisa verdadeiramente ameaçada é a hierarquia que vos beneficia.
Interrompem mulheres em salas de aula e chamam-lhe debate. Questionam a roupa de uma vítima e chamam-lhe prudência. Julgam a ambição feminina como arrogância. Transformam confiança em defeito quando o rosto é de uma mulher.
A escritora Chimamanda Ngozi Adichie escreveu que ensinamos as raparigas a diminuir-se para não intimidar. Muitos de vós continuam a exigir exatamente isso. Silêncio. Presença, mas sem barulho. Sucesso, mas sem demasia.
O problema não é “fragilidade feminina” (ou o que quer que isso seja). O problema é a necessidade masculina de superioridade aprendida como identidade.
Não se trata de afirmar que todos os homens odeiam mulheres, mas de reconhecer que muitos beneficiam de um sistema que as limita.
Se o desconforto surgiu ao longo destas linhas, talvez seja sinal de que algo precisa de ser revisto. Quem não odeia mulheres, não se sente ameaçado pela sua liberdade.
A igualdade não retira dignidade a ninguém, apenas redistribui o poder de forma mais justa. O verdadeiro medo nunca foi perder direitos, foi deixar de ter vantagem.
Sem os melhores cumprimentos,
Uma geração que já não vos aceita.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Freepik
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Cristina Barradas


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