Eu sou a verdadeira crente: Hayley Williams e o uso da voz num momento de silêncio

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A cantora norte-americana lançou seu terceiro álbum solo de estúdio, causando comoção online pelo protesto contra racismo e extremismo religioso em algumas faixas.

Nesta sexta (7 de novembro), Hayley Williams, lançou a última versão de seu terceiro álbum solo de estúdio, Ego Death at a Bachelorette Party. No álbum, além de contar sua vida pessoal, a cantora denuncia o racismo e extremismo religioso norte-americano, recebendo grande aclamação online pela letra polêmica e direta de sua música “True Believer”. Williams cresceu num ambiente bastante religioso, que ela usou como uma de suas inspirações na composição da música. 

Sobre a cantora

Hayley Nichole Williams, conhecida apenas por Hayley Williams, é uma cantora e compositora norte-americana. Nascida em 27 de dezembro de 1988, em Meridian, no Mississippi, a cantora é a vocalista da banda de rock Paramore. Apesar da banda, Williams teve alguns projetos solo durante sua carreira, como suas colaborações no hit “Airplanes” de B.o.B em 2010 e em “Castles Crumbling”, de Taylor Swift em 2023. A cantora também lançou três álbuns solo: Petals for Armor em 2020 (inicialmente lançado como dois EPs, Petals for Armor I e Petals for Armor II), Flowers for Vases/Descansos em 2021 e, em 2025, Ego Death at a Bachelorette Party. 

Ativismo

Durante sua carreira, Hayley Williams sempre demonstrou apoio a diversas causas sociais, com maior destaque para pautas raciais, LGBTQIA+, direitos das mulheres e a situação política estadunidense.

Em uma entrevista para “Popcast” em outubro de 2025, a cantora detalhou um pouco sobre seu interesse de se posicionar em causas raciais, dizendo “I’m never not ready to scream at the top of my lungs about racial issues. I don’t know why that became the thing that gets me the most angry. I think because it’s so intersectional that it overlaps with everything from climate change to LGBTQIA+ issues” (Eu nunca não estou pronta para gritar a todos pulmões sobre problemas raciais. Eu não sei por que isso se tornou a coisa que mais me dá raiva. Eu acho que porque é tão interseccional que se mistura com tudo, desde mudanças climáticas até problemas LGBTQIA+).

Em 2024, durante o período de eleições presidenciais nos EUA, Hayley pausou o show de sua banda para se manifestar contra o candidato, agora presidente, Donald Trump.Project 2025 is Donald Trump’s playbook for controlling and punishing women, poor people, people of color & the LGBTQ+ community. […] Do you want to live in a dictatorship? Well, show up and vote!” (O projeto 2025 é o livro de brincadeiras do Donald Trump para controlar e punir mulheres, pessoas pobres, pessoas de cor e a comunidade LGBTQ+. […] Você quer viver numa ditadura? Então, vá votar!).

Em maio de 2023, durante um show da banda no Adjacent Music Festival em Nova Jersey, Williams declarou: “If you vote in Ron Desantis you’re dead to me(Se você votar em Ron DeSantis, você está morto para mim). As palavras da cantora se referem ao governador do partido republicano da Flórida, conhecido por suas ações e políticas radicalmente anti-direitos LGBTQIA+, como sua assinatura no projeto de lei “Don’t Say Gay” (lei que restringe as conversas sobre orientação sexual e identidade de gênero nas escolas).

Fonte: Billboard

Sobre o álbum

Lançado oficialmente no dia 28 de agosto de 2025, o terceiro álbum de estúdio solo de Hayley Williams, Ego Death at a Bachelorette Party, foi inicialmente lançado no seu site oficial em Julho do mesmo ano, depois lançando as faixas de maneira avulsa nas plataformas digitais no início de agosto, apenas no fim do mês podendo ser encontrado como um álbum completo. No dia 23 de outubro, mais uma música foi adicionada ao álbum, com a vigésima e última música do álbum, Showbiz, sendo lançada dia 7 de novembro.

O álbum foi composto e produzido pela cantora em colaboração com Daniel James, Brian Robert Jones, Steph Marziano, James Harmon e “Jim-E” Stack. De gênero pop alternativo com elementos de rock alternativo, trip hop e até mesmo folk, foi extremamente aclamado pela crítica musical, com nota 91 no Metacritic.

Nesta sexta-feira (7), o álbum recebeu quatro nomeações nos Grammys, sendo elas: melhor álbum de música alternativa, melhor performance de rock com a música “Mirtazapine”, melhor performance de música alternativa com “Parachute” e melhor música de rock com “Glum”. É a primeira vez que Hayley recebe indicações na premiação por um trabalho solo.

True believer e Ego Death at a Bachelorette Party

Dentre as 20 faixas do álbum, duas chamaram a atenção da mídia e dos fãs devido aos temas retratados nelas. Em “Ego Death at a Bachelorette Party”, música que leva o mesmo nome do álbum, Williams retrata um sentimento de “perda de sentido” sobre quem é e seu descontentamento com Nashville, onde morou durante a maior parte de sua vida adulta. No entanto, uma parte em específico da música causou maior comoção, quando a cantora diz, “I’ll be the biggest star at this racist country singer’s bar” (Eu serei a maior estrela no bar desse cantor de country racista). Após especulações de que o cantor em questão seria Morgan Wallen, numa entrevista para o podcast “Popcast” do New York Times, ao ser perguntada sobre quem a letra referenciava, a cantora respondeu, “Poderia ser algumas pessoas, mas eu estou sempre falando do Morgan Wallen. Eu não estou nem aí, me encontre no Whole Foods, eu não ligo”.

Em 2021, um vídeo de Morgan Wallen dizendo uma palavra racista surgiu na internet, resultando numa repercussão negativa para o cantor, que se desculpou após isso.

Hayley Williams não parou com seu protesto anti-racismo por aí, e em “True Believer”, a artista explorou ainda mais o assunto, se aprofundando também em extremismo religioso. Vimos isso logo no primeiro verso, quando a cantora diz “The churches overflow each Sunday, greedy Sunday morning” (As igrejas lotam todo domingo, ganância de domingo de manhã), criticando as infames “megachurches”, muito populares nos Estados Unidos, em que a religião cristã é extremamente capitalizada e politizada, fugindo dos princípios cristãos.

A verdadeira comoção acontece durante o segundo verso, “They put up chain-link fences underneath the biggest bridges/They pose in Christmas cards with guns as big as all their children/They say that Jesus is the way, but then they gave him a white face/So they don’t have to pray to someone they deem lesser than them”. (Eles construíram cercas de arame debaixo das pontes mais altas/Eles posam em cartões de natal com armas tão grandes quanto seus filhos/Eles dizem que Jesus é o caminho, mas deram a ele um rosto branco/Para que então eles não tenham que rezar para alguém que eles julgam inferior a eles).

Na música, Hayley também fala sobre a gentrificação dos bairros de Nashville. O verso começa com ela denunciando isso, mais especificamente as estratégias anti-homeless, comum em centros urbanos, em que barreiras são postas para evitar que pessoas sem-teto possam se abrigar nesses lugares em vez de o governo investir em políticas que irão realmente ajudar essas pessoas a saírem das ruas.

Ela logo conecta esse ponto com as políticas pró-armas dos Estados Unidos, tão presentes nas casas de pessoas de vários estados americanos, que é como se as armas se tornassem parte da família — algo que ocorre, majoritariamente, em famílias apoiadoras da extrema-direita norte-americana. Hayley então fala sobre a hipocrisia e racismo religioso, primeiramente denunciando os auto-proclamados cristãos que, apesar de adorarem a Jesus e seus ensinamentos, acabam por não segui-los, preferindo espalhar ódio a todos que consideram diferente deles, e, no caso da música, o racismo histórico dentro da religião cristã, em que a figura de Jesus Cristo é representada como um homem branco de características européias, quando, ao se analisar o contexto histórico da época e região em que Cristo viveu, ele era, na verdade, um homem de pele escura do Oriente Médio, alguém que os extremistas religiosos que Hayley descreve na música iriam odiar e perseguir em vez de adorá-lo, caso tivessem o conhecido durante suas vidas.

Hayley continua durante o pré-refrão, dizendo “The South will not rise again/’Til it’s paid for every sin/Strange fruit, hard bargain/Till the roots, Southern Gotham”. (O Sul não irá se erguer novamente/Enquanto ele não tiver pagado por cada pecado/Fruto estranho, barganha complicada/Até as raízes, Southern Gotham).

No início do pré-refrão, Williams muda a frase “The South will rise again”, comumente usada por supremacistas brancos que apoiam a confederação. Isso surgiu durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), em que o norte dos Estados Unidos queria a abolição da escravidão, enquanto o sul era contra isso.

Os pecados a que a cantora se refere logo a seguir seriam sobre todo o racismo que a população negra americana sofreu desses supremacistas durante toda a história do país. “Strange Fruit” é uma referência que Hayley faz à Billie Holiday, uma música que denuncia o linchamento sofrido pelos afro-americanos, comparando-os com frutas em árvores. A música foi extremamente polêmica na época de seu lançamento, chegando até mesmo a ser censurada e proibida de ser tocada nas rádios. Já “Hard Bargain” seria uma referência à uma comunidade afro-americana da cidade de Franklin. Ela leva esse nome devido a dificuldade de alcançar um acordo na compra das terras.

Por que isso é importante?

No dia 8 de outubro deste ano, a cantora fez uma aparição no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon, que gerou grande comoção online devido a sua performance da música “True Believer”.

Na apresentação, Hayley está sentada num piano, tocando-o enquanto canta a música, sendo acompanhada por uma orquestra composta por, majoritariamente, pessoas — especificamente mulheres de cor. Durante a performance, as luzes davam uma aparência misteriosa e até mesmo sombria ao palco. No fim, a orquestra performou o instrumental de “Strange Fruit”, com as luzes focando apenas neles em vez de Hayley. 

Não parando por aí, a cantora dedicou sua apresentação a Trey Reed, um estudante universitário negro que foi encontrado morto em setembro desse ano. A sua morte foi rapidamente classificada como um suicídio, apesar da falta de provas e informações sobre o caso para que chegassem em tal conclusão, demonstrando o descaso da polícia estadunidense com vítimas de cor.

Essa apresentação foi tão comentada nas redes sociais devido a algo que aconteceu alguns dias antes dela ir ao ar. No dia 30 de setembro, Jimmy Fallon deu uma entrevista ao CNBC em que, no contexto da suspensão do programa de Jimmy Kimmel após uma piada que fez sobre a morte de Charlie Kirk, foi perguntado se Fallon sentia alguma pressão de ter seu programa suspenso também, em que o apresentador respondeu dizendo que seu programa nunca foi político, e que sempre tentaram demonstrar ambos os lados. Sua fala gerou revolta online, por decidir manter uma postura neutra em vez de apoiar todos os protestos contra o atual governo estadunidense. 

No entanto, a apresentação de Hayley Williams fez com que o programa de Jimmy Fallon, mesmo que por só uma noite, se tornasse extremamente político. A cantora não hesitou em escolher uma faixa de seu álbum cheia de referências ao histórico de racismo, hipocrisia e extremismo religioso de seu país, mostrando que, sempre que tiver a oportunidade, ela irá usar sua voz para se manifestar contra tudo isso. 

Atualmente, os Estados Unidos estão vivendo um momento de retrocesso em políticas voltadas aos direitos humanos devido à vitória da extrema-direita norte-americana nas eleições. Com isso, vem também a censura e perseguição a todos que se manifestam avidamente contra o governo. Williams demonstra sua braveza e reconhecimento de seus privilégios como uma mulher branca, hétero cis e afluente para denunciar o preconceito que as minorias de seu país sofrem. Num período em que as pessoas estão cada vez mais se submetendo à realidade, sem qualquer interesse por mudança, principalmente por não fazerem parte dos grupos mais atingidos por esse tipo de governo, Hayley continua usando sua voz para lutar pelos direitos desses grupos minoritários. Relembrando a todos, mais uma vez, que a arte sempre foi, e sempre será, uma manifestação política. 

Nota: A autora escreve em português do Brasil.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: DIY Magazine

Escrito por: Emilly Silva

Editado por: Rodrigo Caeiro

One response to “Eu sou a verdadeira crente: Hayley Williams e o uso da voz num momento de silêncio”

  1. Avatar de JOYCE KARLA SANTANA
    JOYCE KARLA SANTANA

    Excelente texto, parabéns!

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