A frase “O inferno são os outros” vem da peça “Entre Quatro Paredes”, escrita por Jean-Paul Sartre em 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial. Depois de três personagens morrerem, acordam num quarto fechado: o inferno. Não há fogo, demónios, nem tortura física. Estão condenados a conviver uns com os outros.
À medida que se relacionam, percebem que o sofrimento vem do facto de viverem sob o olhar permanente do outro, sem conseguir escapar. Isto gera conflito porque, quando alguém nos observa, já não somos apenas quem percepcionamos – passamos também a ser o que a outra pessoa vê.

Nunca estivemos tão conectados. Há estradas para todo o lado, voos para todos os cantos do mundo, conseguimos apreciar a gastronomia de todos os cantinhos deste planeta. Temos (praticamente) todas as pessoas à distância de um clique.
Todavia, nunca estivemos tão desconectados. Apesar de os efeitos variarem entre indivíduos, há estudos que mostram que o uso excessivo das redes sociais está associado a níveis mais altos de isolamento social.
Vivemos numa sociedade cada vez mais individualista, onde o lema aparenta ser “cada um por si”. Crescemos a ouvir que não vale a pena ajudar o outro, porque “se fosses tu, ele não faria o mesmo”. Esta lógica, disfarçada de prudência, vai corroendo a empatia e os laços sociais.
A desconfiança e descrença na humanidade pode, muito facilmente, colocar-nos doentes. Passamos a sentir que o mundo é um sítio muito mais perigoso do que realmente é. Onde, de alguma forma misteriosa, toda a gente te quer apanhar, gerando um estado de alerta constante. Com esta filosofia de vida nunca podes cair, já que ninguém te irá apanhar.
Enquanto que, na realidade, nós só existimos através do outro. A nossa identidade não nasce pronta, é construída através da convivência. Charles Cooley chamava-lhe o espelho do eu: aprendemos o que somos a partir do reflexo que os outros nos devolvem. É por isso que Durkheim defendia que o indivíduo só se torna verdadeiramente humano dentro da sociedade – fora dela, sobra apenas o instinto.
A série Kaos representa esta ideia de uma forma brilhante. Nesse universo mitológico, todos os seres humanos nascem com um prefácio escrito pelos deuses. Ao descobrir o seu destino – o primeiro filho que respirasse o mataria – o presidente decide aprisioná-lo, afastando-o de qualquer contacto humano.

Crescido em total isolamento, o rapaz transforma-se num ser primitivo: não sabe falar, não se reconhece a si nem aos outros, apenas reage. Sem socialização, não há linguagem, nem cultura, nem humanidade. Ao receber o título de Minotauro, ironicamente, transformou-se nessa besta: um ser humano que matava todos os que entravam em contacto com ele.
Nós sem o outro deixamos de ser pessoas, tornando-nos apenas corpo. É na convivência que nascemos duas vezes: uma fisicamente, e outra socialmente. A primeira dá-nos vida, a segunda dá-nos propósito.
Então, quando Sartre diz “O inferno são os outros”, não quer dizer que o ser humano seja mau. Mas que a convivência é difícil, porque o outro nos obriga a ver-nos de fora, a confrontar a nossa própria imagem, os nossos erros e as nossas falhas. A sermos melhor. O inferno é estar constantemente sob esse espelho, onde somos julgados, pois nunca conseguimos controlar o que o outro pensa de nós.
No entanto, o inferno acaba por ser quando nos esquecemos que também somos o outro de alguém. Mas, o paraíso começa quando escolhemos continuar a acreditar e a cuidar. E até posso estar a cometer alguma falácia, porém acredito que mais vale acreditar que toda a gente é boa do que todos são maus.
É urgente recuperar o sentido de comunidade, de entreajuda e de humanidade. Hoje em dia é estranho interagir com desconhecidos, pedir ajuda ou criar novas conexões. Rousseau afirmou que o homem nasce bom mas a sociedade o corrompe mas, talvez o problema não seja da sociedade, mas nós quando deixamos de acreditar nela.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do(a) autor(a), não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Sara Reis
Editado por: Rita Luís


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