“Eu não sou português. Eu sou Portugal.” Essa foi a frase que ecoou no palco do CCB como um trovão, na noite de sábado, dia 13 de setembro. O Jornal desacordo teve o prazer de assistir a “Adilson”, a primeira ópera de Dino D’Santiago, e percebemos, logo nos primeiros minutos, que não era um espetáculo qualquer: era um manifesto sobre identidade, imigração e pertença.
Numa encomenda e produção original da bienal BoCA — Bienal de Artes Contemporâneas 2025, que decorre até 26 de outubro, em Lisboa e em Madrid — Dino D’Santiago foi desafiado a exorcizar a discriminação e injustiça social através da música e do movimento, numa ode à CPLP e, (tão coincidentemente que é quase poético) assinalando também os 50 anos de independência das antigas colónias portuguesas em África. Esta expressão atravessa tanto o elenco como os instrumentos tocados pela orquestra (adufos, a ferrinho de Cabo Verde, mbira de Moçambique, tina da Guiné-Bissau).
A ópera, cujos temas incluem injustiça social, xenofobia, racismo, discriminação e esperança, foi encenada e criada por Dino D’Santiago a partir de Serviço Estrangeiro, texto do dramaturgo e encenador Rui Catalão, e conta com a soberba direção musical do maestro Martim Sousa Tavares.
Dão-nos a conhecer a história de Adilson, bailarino e amigo de infância de Dino, que chegou a Portugal com onze meses mas ainda é considerado um estrangeiro no país onde cresceu e deu os seus primeiros passos. Nasceu em Angola, sim, e a sua ascendência é cabo-verdiana, sim; mas nunca morou em Angola e nunca sequer foi a Cabo Verde; é assim, dos três lugares ao mesmo tempo, mas sem passaporte ou vínculo formal a nenhum. Como milhares de outros afrodescendentes, habita este espaço de “fronteira”, este paradoxo, mencionado durante a ópera: «Nunca lá fui, sempre estive aqui onde sou estrangeiro”. Como diz o título do artigo sobre a peça no jornal espanhol El País “Adilson tem uma ópera, mas não tem cidadania”.
Ao presenciar a dramatização de situações corriqueiras da sua vida, e de tantos outros imigrantes, apercebi-me que não me encontrava numa sala de espetáculos, mas sim dentro de uma sala de espera. A peça move-se através deste paradoxo desesperante, legado da legislação proposta em 1981 por Almeida Santos, na qual o princípio do jus sanguinis passou a ter mais peso que o jus soli, o que automaticamente excluiu a esmagadora maioria dos imigrantes (sobretudo todos os que vieram das ex-colónias) e os seus filhos, mesmo que nascidos e criados em Portugal e mesmo que estes nunca tenham conhecido outra realidade. Só em 2020 é que se deu uma mudança parcial da lei, conquistada após anos de luta do movimento antirracista, mas o impacto dessas décadas de exclusão continua a fazer-se sentir.
É neste contexto que a vida de Adilson se desenrola. Neste pesadelo sem fim de filas, senhas, tempos de espera, antipatia, imprevistos, adiamentos e burocracias infinitas, entre Embaixadas, polícia, agentes da AIMA, tudo atado com o “belo” laço do racismo e xenofobia, que o impedem de ser plenamente reconhecido pelo país onde sempre viveu. Faltava sempre um carimbo, uma assinatura, um papel, um pormenor. Como cantado durante a ópera: “Quando um problema se resolve, outro nasce”.
E é assim que em Portugal é possível que um afrodescendente seja residente há mais de 40 anos, sem nunca obter cidadania portuguesa (mas se tiveres dinheiro, a cidadania tem atalhos surpresa; às vezes parece que a cidadania até te encontra antes de pedires).
Sim, 40 anos. O que dá oportunidade ao diálogo bastante surreal, mas ao mesmo tempo perfeitamente realista:
Adilson: Que idade tem?
Funcionário da AIMA: 26.
Adilson: Eu já existo antes de existir o SEF. Era o SEF, depois veio a AIMA. Vocês continuam a mudar, mas a minha situação não muda.
E não é “apenas cidadania”. Não é apenas um papel. Adilson explica, “Não posso alugar uma casa, não posso ter uma conta no banco, não posso trabalhar sem recorrer a fiadores ou a métodos clandestinos.”
A produção, estética e encenação da ópera são simples, mas visualmente impactantes, reforçando a narrativa que se desenrola no terminal de partidas de um aeroporto e, mais tarde, no SEF e na Embaixada de Cabo Verde em Portugal. É interessante escolherem-se espaços destes para que possamos olhar para eles com outros olhos. Para tantos, são pontos de passagem, são um não-lugar. Para outros, habitam emoções complexas, esperança e ansiedade.
A fusão sonora da ópera é fascinante e diversa, intercalando ritmos tradicionais da lusofonia com batidas eletrónicas e orquestra clássica. E como não podia deixar de ser, ainda houve espaço para uma referência à Palestina, com a participação de Mais, palestiniana de Nazaré, que cantou (e encantou) em árabe e tocou flauta.
Oponho-me aos telemóveis durante espetáculos, mas confesso que puxei dele umas quantas vezes para apontar algumas das minhas frases e trechos favoritos. (por uma causa nobre, portanto). Entre eles destaco este:
“Fogo lento, eu cozinho dor.
Transformo as cicatrizes num prato de sabor.
Não corro, não fujo, eu enfrento o calor.
Fogo lento, faço do medo, amor.”
Cada verso cantado parecia materializar a resiliência do personagem principal e de todas as vozes que este ecoa.
Na noite em que fui, sala com lotação esgotada, o público reagia em silêncio, mas por vezes consegui ouvir pequenos murmúrios pela plateia. Suponho que seja porque esta não era só arte de ver por ver; era um espelho, e um espelho obriga-nos sempre a olhar para nós mesmos.
Adilson representa centenas de milhares de pessoas ignoradas pelo sistema, e a sua voz ressoa como o eco de tantas outras que se encontram invisíveis, à espera. E é desconfortável para muitos reconhecer que, fora de uma bolha de privilégio, é essa a realidade de tantos.
Em “Esquinas”, de Dino D’Santiago em colaboração com Slow J, cantada durante a ópera, ouvimos “nossos corpos também são pátria”, que se esforça para desmantelar a visão limitada e ignorante de que a nossa identidade está amarrada a um lugar em concreto. Concluo: os nossos corpos podem ser pátria ou fronteira. Cabe-nos a nós decidir.
“Adilson” foi mais do que música, e muito mais que o simples entretenimento banal de sábado à noite. É um retrato da experiência imigrante, da vida em suspenso e da luta para existir num país que ainda hesita em reconhecer os seus filhos. Não fui ver um espetáculo. Fui ver uma aula de história e um debate público transformados em arte. Fui ver um aviso, um abraço e uma provocação.
A cultura tem a capacidade de unir mundos que insistimos em separar, sendo também território para luta. A política não se limita ao parlamento e às manchetes, e é preciso mais salas assim — onde se ouve, onde se vê, onde se pensa.
E que Portugal aprenda a amar o Dino, porque com ele ainda não aprendemos tudo o que devíamos.
Fonte da imagem de capa: Observador
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Nina Silva
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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