“A vida está-te a sorrir?”

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Como um cumprimento inócuo ajudou-me a pôr em perspectiva a depressão.

Quantas vezes dizes «Bom dia!» literal e genuinamente, sem ironia? Há tempos, desdobrei-me sobre esta questão.

É difícil que todos os dias sejam bons, ou até que a palavra «dia» seja usada à hora certa. Mas, como nunca duvidei da capacidade do ser humano para perseguir a felicidade, tentei encontrar uma solução que não me faça duvidar sempre que cumprimento alguém.

Assim, por eu ser pregui- quer dizer, pragmático, comecei a dizer sempre «Bom dia!». E, caso digam «Ainda não almoçaste?» ou «Mas já é de noite!», eu respondo: «Mas o dia é sempre bom.»

Ora, agora, o que faço quando os dias não estão a ser bons?
Fácil: culpo-me, pois o mundo não tem culpa, somente eu.

A depressão é um dos estados mais complicados de se estar. É difícil de medir, reagir, resolver, entender e de conjugar com outros verbos que assumem automaticamente uma conotação negativa quando aplicados a um distúrbio mental.

Por isso, não a vou tentar resolver aqui (pelo menos por enquanto). Em vez disso, irei partilhar uma curta história com a minha colega de curso e o que aprendi sobre utilizar uma perspetiva diferente.

A Chica, sendo uma aluna deslocada, cumprimentou-me na segunda semana de aulas de uma forma que não se vê aqui em Lisboa: genuinamente, perguntou sobre o meu estado de espírito, de uma forma que nunca tinha ouvido…

“Olá, a vida está-te a sorrir?”

Admito que fiquei sem palavras, pois é raro uma pergunta tão esotérica e de calibre tão pesado ser usada como um simples «Então, como estás?».

E foi isso que lhe disse mais tarde nesse dia, quando tive tempo para pensar na interação. Ela admitiu que estranha a forma como as pessoas em Lisboa respondem quando lhes perguntam como estão e que fica com saudades de casa (Viseu) quando estas pequenas dinâmicas acontecem.

Fiquei a pensar nesta interação durante o resto do mês. E decidi colocar a vida em perspetiva.

Os meus pensamentos negativos têm-se vindo a acumular desde o início do semestre, provenientes de dúvidas como «Será que conseguirei boas notas?» e «Sou mais velho que os meus colegas, estou atrasado face à minha geração, será este o caminho certo?», entre outros pensamentos, alguns já mais pesados, que dariam vontade aos leitores de ligar para a Saúde 24 e de chamar uns colegas de Psicologia para me virem dar conselhos.

Não vou elaborar mais, pois quem sabe sabe. Quanto mais se fala sobre isto, menos se diz. Direi apenas a conclusão do meu pensamento.

A vida está a sorrir-me? Diria que sim: entrei no curso, os meus colegas são bacanos, os professores ajudam e a água dos filtros sabe bem (quem não tem um sentido de paladar fora do comum não entende a importância disto!).

Se assim o é, como posso não sorrir de volta? Mesmo que seja por momentos, mesmo que seja por capricho, mesmo que seja só para ser do contra, não é verdade que posso retribuir o sorriso?

Então, eu sorri para a vida, até mesmo quando me custa.
O dia é sempre bom, e a vida irá sempre sorrir-te.

Obrigado, Chica, pelo ato de bondade genuíno.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa: pexels

Escrito por: Tiago Almeida

Editado por: Melissa Figueiredo

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