Rui Pereira é um rapper de Mem-Martins que, em pequeno, tinha o sonho de ser jogador de futebol, mas as adversidades da vida mudaram o seu rumo e também a maneira como passou a ver o mundo. Abandonou aquilo que lhe dava o alento que precisava para fugir a todo o stress que vivia em casa, mas calma… Eu não sou o Rui para vos falar sobre a sua história, o meu nome é Marco Morgado e vou vos falar sobre a sua obra.
WONDER é o terceiro álbum do artista que, assim como uma borboleta, teve de se transformar e sair do seu casulo para ser finalmente livre para voar. Para os mais distraídos, ou até para os que não conhecem, hoje a lição é sobre o rapper Papillon.
No mundo do Hip-Hop desde os meandros da Liga Knockout, Papillon começou a fazer o seu nome quando integrou a banda GROGNation, um grupo de rappers de Mem-Martins que fez imenso sucesso em Portugal, o que alavancou o nosso Rui para começar a trilhar a sua carreira a solo. Afinal de contas, as borboletas voam sozinhas.
E foi sozinho que fez o seu caminho. Adorava explicar-vos cada faixa ao detalhe mas, para não ficar um artigo muito longo, vou focar-me no principal, ouçam o resto para absorverem todo o sumo que esta trilogia tem para vos dar a beber.

O primeiro álbum, lançado em 2018, leva o nome de Deepak Looper, e é sobretudo sobre desabafos, mais crítica do que compreensão, a forma mais injusta de nos tranquilizarmos a nós próprios, mas, muitas vezes, o estágio inicial da cura, apontar a culpa ao outro.
Foi neste álbum que surgiu uma das músicas mais tocadas na história recente do Hip-Hop português, Impec. É também nele que nasce uma das mais pesadas de ouvir e imagino que deve ter custado ainda mais a escrever, Imagina, uma faixa que concilia 3 histórias e um traço comum a todas elas, uma raiva latente e a culpabilização das pessoas à sua volta pelo estado depressivo a que chegou:
“Nunca vi os meus pais trocarem um beijo, amor todos falam dele mas eu nunca o vejo” é o seu desabafo escrito sobre algo que nunca pôde dizer aos pais diretamente.
“Queria dizer-te que sim, mas esse amor que sentes por mim… Nunca senti” foi o que ouviu da sua amada antes dela partir para nunca mais voltar.
“Só quis viver a vida enquanto ainda ‘tavas aqui, eu nunca soube ‘tar na vida até ‘tar na vida sem ti” é o pensamento angustiante de quem tem de lidar com o luto prematuro sem armas para o fazer.
A mixtape acaba com Metamorfose, pt. 2, a música mais importante do álbum. Esta faixa parece ler o futuro porque fala sobre a fase final da sua metamorfose (chegar ao estado de borboleta) mas confunde-se com uma falsa ilusão, palavras de afirmação de quem está a tentar curar-se, já a imaginar a cura pronta e aplicada, uma espécie de “Fake it until you make it” do rap lusitano. Funcionou comigo, mas com o passar do tempo percebi que ainda havia muito a aprender.

O seu segundo álbum, Jony Driver, lançado em 2022, aparece com outra abordagem. Músicas mais longas, menos desabafos e mais ação, o som que abre este álbum é Metamorfose Fase I, porque muitas vezes é preciso voltar atrás para percebermos a origem da nossa dor e aquilo que nos faz falta. E não, não é animar a malta, o que faz falta é mudar para melhor.
A questão é que, mesmo sabendo o que fazer, é necessário perceber como o fazer, e na música Tenta encontramos, lá está, essa tentativa:
“Às vezes dou por mim completamente dividido
Resisto à tentação ou deixo ela me consumir?
Tou tão certo ou então vivi toda uma vida iludido
E tentar sempre foi desculpa para nunca assumir”
Às vezes a melhor maneira de encontrar respostas, é fazendo perguntas, mesmo que se demore a encontrar uma resposta para elas, e nesta música com várias perguntas temos apenas uma resposta, “Para de tentar fazer e faz, para de tentar viver e vive”.

E chegamos por fim ao motivo principal deste artigo ter sido escrito, o fim da trilogia, o culminar de uma longa história que começou quando o Casillas ainda jogava no Porto, o seu álbum de 2025, WONDER. Um nome ambíguo como a própria mixtape, que parece ser o equilíbrio perfeito entre as outras duas e também a resposta a todas as perguntas que ele fez ao longo de tanto tempo… Nenhuma.
A verdade é que não há nenhum segredo para a cura, o Papillon encontrou-a, ou uma espécie dela, fazendo o que mais gosta de fazer e expressando-se da maneira que pôde, o grande motivo de fazer as músicas que faz é poder desculpar-se a si e aos outros. A dor externalizada não nos ajuda apenas a falarmos com outras pessoas, é fundamental para falarmos também connosco, descobrir palavras, encontrar fonemas, é tudo imperativo para a cura. Porque a linguagem, forma como nos expressamos, ainda não está acabada, e o Papillon fez um trabalho muito importante nesta luta infinita. Ajudou-se a si, ajudou-nos a nós e, dado que este é um artigo autoral, ajudou-me a mim e eu agradeço-lhe por isso.
Não me vou alongar sobre nenhuma música porque não as saberia explicar melhor que ele, nem as conseguiria compreender tão bem como vocês, desta maneira está feita a introdução, enquadrada a obra de Rui Pereira A.K.A. Papillon e está terminado o meu trabalho. Agora peguem nuns fones com anulação de ruído e vão ouvir os álbuns.
Aproveito para partilhar que o artista vai ter um espetáculo a solo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 20 de março. Com muita pena, não vou poder ir por causa do meu Erasmus em Zaragoza, por isso, se puderem, façam-no por mim.

Quase me esquecia de vos pedir um último favor. Aconteça o que acontecer, nunca parem de se perguntar, só então poderão saber.
Fonte da Imagem de Capa: Som Direto.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Marco Morgado
Editado por: Leonor Oliveira


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