O lançamento de Cartas de Jharia no passado dia 27 de novembro contou com a presença do autor, António Montalvão, que conduziu grande parte da sessão, e dos colegas de mesa Oliveira Martins e Marina Fonseca, cujas intervenções ajudaram a aprofundar as dimensões culturais, históricas e sociais da obra. O ambiente foi marcado por agradecimentos sentidos, com destaque para os amigos que acompanharam o processo de criação.
Um romance que nasce da pesquisa e da inquietação
Apresentado como um romance que entrelaça ficção e realidade, Cartas de Jharia resulta de um ano intenso de trabalho, pesquisa temática e construção literária. O autor estudou em profundidade a estrutura social e religiosa do norte da Índia, mergulhando em textos como o Código de Manu, nas tradições hinduístas e nos efeitos duradouros do colonialismo. Como explicou na sessão, “não podemos resolver os problemas de 490 anos, mas podemos olhar para os de hoje”.
A obra foi publicada em Portugal e no Brasil, com possibilidades de ser traduzida para castelhano.
Entre Inglaterra e Índia: identidade, memórias e raízes
Narrado na primeira pessoa, o romance acompanha a infância e adolescência de Michael na Inglaterra do final do século XX. A sua ligação à natureza, a curiosidade e a bondade expressa em pequenos gestos, como ajudar uma idosa a enfiar a linha na agulha, constroem um protagonista sensível e inquieto.
A escolha da Inglaterra não é acidental: foi a potência colonial que dominou a Índia durante séculos, deixando marcas culturais, linguísticas e sociais que ainda hoje ligam os dois países. Esta herança histórica cria o contraste perfeito para acompanhar a infância e adolescência de Michael numa pequena cidade inglesa marcada também por minas de carvão antes de o conduzir à Índia.
A ida à Índia surge não como turismo nem mera investigação, mas como uma busca de identidade: filho de mãe inglesa da alta sociedade e pai indiano de casta inferior, Michael procura compreender as memórias dispersas do pai, perceber como viveu e reencontrar as raízes que nunca conheceu. O que começa como uma viagem íntima rapidamente se cruza com realidades sociais que o ultrapassam.
Jharia: o impacto humano das minas
Jharia, a maior concentração de minas de carvão a céu aberto e subterrâneas da Índia, ocupa um território de 270 km² marcado por exploração, pobreza extrema e trabalho infantil. Crianças que não frequentam a escola, salários irrisórios e condições precárias compõem o cenário que o protagonista encontra.
O romance expõe também a condição das viúvas, que continuam a ser alvo de forte estigmatização social. São frequentemente excluídas de celebrações e eventos comunitários, impedidas de participar em rituais e festividades religiosas. Muitas, após serem abandonadas pelos maridos ou perderem o sustento, acabam enviadas para as chamadas “cidades das viúvas”, onde vivem em extrema pobreza. Este retrato, baseado em tradições registadas no Código de Manu, mostra como normas antigas continuam a marcar a vida das mulheres que perderam o marido.

A dimensão religiosa: o peso do hinduísmo e do sistema de castas
Na sessão, António Montalvão sublinhou também a importância de compreender a dimensão religiosa da obra. O romance explora o hinduísmo não apenas como cenário cultural, mas como estrutura profunda que molda relações sociais, familiares e identitárias. O autor destacou que o hinduísmo é uma das religiões mais complexas do mundo, com raízes milenares, e que a sua compreensão exige uma verdadeira pedagogia cultural.
Foi referido igualmente que, dentro desta tradição, não existe conversão ao hinduísmo, uma vez que a pertença religiosa está intrinsecamente ligada ao nascimento e ao sistema de castas, ainda hoje visível em vários aspetos da vida quotidiana. Esse elemento torna-se central no romance: o pai do protagonista, pertencente a uma casta inferior, revela as desigualdades estruturais que persistem e condicionam o destino das famílias e, por consequência, a própria busca identitária de Michael.
A simbologia dos nomes: escolhas que moldam a narrativa
António Montalvão explicou ainda que os nomes das personagens e lugares não foram escolhidos ao acaso. Michael deve o seu nome a Miguel, o arcanjo guerreiro que combate as forças do mal, uma referência direta ao percurso moral do protagonista, que é também chamado a enfrentar injustiças e sombras sociais. A cidade inglesa onde cresce, Peterlee, homenageia Peter Lee, um mineiro que, no início do século XX, presidiu ao condado e cuja história liga o passado industrial britânico ao cenário mineiro de Jharia. Já Katherine, a namorada do protagonista, evoca Catarina, esposa de Vasco da Gama, remetendo para um imaginário de viagens, encontros interculturais e dilemas éticos que atravessam tanto a narrativa como a relação entre as personagens.

Entre desejo e virtude: um romance atravessado pelo dilema ético
Segundo o autor, Cartas de Jharia tem uma força transformadora baseada na compaixão e na pena. Não no sentido de piedade superficial, mas enquanto motor de mudança. O romance explora o conflito entre desejo e virtude, um dilema que condiciona o futuro de Michael e da sua namorada Katherine, cujo nome evoca simbologias históricas que o autor assumiu intencionalmente.
A narrativa divide-se em dois momentos contrastantes: um primeiro mais leve e humorado, e um segundo mais sombrio, marcado por um acidente e pela tomada de consciência da desigualdade económica e social da família indiana do protagonista.
A construção do romance: desenho, emoção e método
Um dos aspetos mais fascinantes revelados na sessão foi o método criativo do autor: enquanto escreve, desenha ambientes, paisagens e personagens, linhas que o ajudam a encontrar o caminho narrativo. Escreve em segmentos pequenos, permitindo que uma ideia desencadeie outra e altere o percurso previsto.
“Um escritor sofre ao escrever; emociona-se”, disse. A criação literária, para ele, é a combinação de experiência e sensibilidade, onde o real e o imaginável se misturam para dar forma ao que ainda não existe.
Um romance que pede atenção ao presente
Cartas de Jharia é, acima de tudo, uma obra que devolve voz às crianças mineiras, às viúvas e a todos os que permanecem invisíveis. Ao entrelaçar as memórias pessoais de Michael com a realidade dura de Jharia, o romance abre espaço para refletir sobre identidade, desigualdade e compaixão como força transformadora.
Sem recorrer ao sentimentalismo fácil, o autor convoca o leitor para uma questão urgente: o que é que ainda escolhemos não ver?

Fonte da capa: BBC Brasil
Escrito por: Beatriz Djalo
Editado por: Rita Luís


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