Na madrugada do dia 28 de janeiro do presente ano a Depressão Kristin atingiu Portugal continental. O Expresso avançou que o fenómeno climatérico causou 9 mortes, e deixou 440 mil pessoas sem eletricidade. Foram registradas ainda mais de 10.000 ocorrências de norte a sul do país e 59 concelhos declararam estado de Calamidade. De acordo com o Jornal ECO foram participados 160 mil sinistros totalizando cerca de 732 milhões de euros em danos.
O Governo decretou dois dias depois o estado de calamidade (30/01). No dia 1/02 o é anunciado um conjunto de medidas, aprovadas em conselho de ministros extraordinário. O apoio às vítimas totaliza um valor de 2,5 mil milhões de euros. Estes apoios consistem no apoio à habitação própria e permanente, apoio à reposição da capacidade produtiva, apoios ao emprego e moratórias no crédito à habitação e aos empréstimos das empresas, bem como uma moratória fiscal até ao fim de março entre outras. Foi criada ainda uma plataforma de reporte de prejuízos. No dia 02/02 o Governo reportou mais de mil militares no terreno, com o apoio de 200 viaturas. O papel das forças armadas é diverso: “Marinha, Exército e Força Aérea estão a assegurar ações de comando e ligação, informação, engenharia, energia e iluminação, comunicações, limpeza e desobstrução, alojamento, vigilância e dissuasão, retirada de pessoas e remoção de escombros (…).”.
No dia 11 de fevereiro o governo anunciou que já tinham começado a ser distribuídos os primeiros apoios. De acordo com o governo à data referida (11/02) tinham sido recebidos cerca de 12.000 pedidos. Nesta altura cerca de 5.000 destes pedidos já tinham sido processados, totalizando um volume de 540 milhões de euros.
No entanto, através de um contacto com uma associação de voluntários da região constatou-se uma situação diferente daquela reportada pelo governo. Sendo assim uma entrevista foi marcada para o dia 28/03 com o intuito de partilhar um testemunho.
Na noite da tempestade Maria Isabel Jesus Domingos viu o telhado da sua casa ser parcialmente arrancado pelo vento – “levantou isto já está tudo velho, aquilo já não aguentou com o vento, partiu tudo“. Nos dias imediatos à catástrofe, as autoridades locais mobilizaram-se: Maria Isabel e outras famílias foram alojadas num pavilhão municipal onde, segundo o seu testemunho, havia boas condições. Aliás a sua família imediata presente no momento da entrevista fez questão de enfatizar este ponto.
De seguida, a Junta de Freguesia e a Câmara prometeram apoios céleres para a reconstrução das habitações. As promessas incluíam não só alojamento temporário mas também a garantia de que ninguém sairia do pavilhão até as casas terem as condições de habitabilidade necessárias. No entanto, rapidamente se instalou um padrão quando chegou o momento de exigir os apoios: “Empurram para a Câmara, a gente empurra para a Câmara, a Câmara empurra para a junta e não fazem nada”. Entretanto, devido à necessidade de retomar as atividades desportivas Maria Isabel foi realojada, juntamente com a sua família, para casas modulares. Esta situação temporária dura até hoje, três meses depois. A Junta informou ainda que as casas modulares tinham que ser libertadas até ao final do mês de maio, sem propor uma resolução.

Percebe-se no relato a frustração sentida: “Prometeram, prometeram, prometeram, prometeram. Até o gás daqui nos disseram: ‘Ah, não há problema quando o gás acabar, vai para a junta. Depois da junta à Câmara e a Câmara é que paga’“, recorda o filho de Maria Jesus. Contudo, quando o gás nas casas modulares acabou, foram os próprios afetados que tiveram de pagar. A casa onde morava a família não sofreu qualquer tipo de intervenção. E as condições descritas refletem a urgência de uma intervenção: “Chove-me na casa quando chove, chove-me na casa. E na cozinha então ainda é pior“,. A água da chuva infiltra-se pelas paredes, criando condições insalubres – “tenho na minha cozinha que mete nojo por dentro, quando choveu a água infiltrou-se na parede, correu pelas outras paredes abaixo“.
A família não possui condições de arranjar a casa sem apoio financeiro. “A minha reforma é de 350 EUR pago a medicação todos os meses na farmácia são 100 EUR. Tenho que comer, tenho que pagar água, tenho que pagar a luz. Fico com quê? Não posso. Não sou eu que fico sem comer, não é verdade? Agora, não sei. O que é que vai ser?“, questiona Maria Isabel. O apoio prometido nunca chegou: “Abrimos uma conta, mas não tivemos nada, não caiu lá dinheiro nenhum. Está lá 1 EUR, mas não tivemos mais apoio nenhum“. A Câmara e a Junta não se disponibilizaram para fazer obras.
A promessa de celeridade governamental contrasta brutalmente com a realidade de quem, passados três meses, continua à espera de um telhado, de apoio financeiro e de respostas.
Fonte da imagem de capa: Bruno Venâncio
Escrito por: Bruno Venâncio
Editado por: Margarida Simões


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