O “não” ainda precisa de tradução?

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Portugal voltou, infelizmente mais uma vez, ao mesmo debate: até que ponto é que tudo pode ser considerado uma “opinião”, mesmo quando essa opinião inclui a banalização da violação?

Comentários recentes feitos num programa televisivo matinal vieram reacender uma chama que há muito já devia estar apagada. Com comentários que banalizam o poder do “não” e que relativizam o tema da violência sexual, vemos que mesmo em pleno século XXI ainda há quem trate o consentimento como uma sugestão opcional e não como um limite inegociável.

E não, não se trata de “não se poder dizer nada”, ou de “um simples ponto de vista”.

Trata-se de perceber que há coisas que simplesmente não devem ser ditas e quando são ditas, têm peso e consequências.

Mas talvez seja mais fácil fingir que não.

No final de contas, estamos a falar “apenas” de opiniões. E opiniões, como se sabe, não fazem mal a ninguém. Não moldam mentalidades. Não influenciam perceções. Não contribuem, de forma alguma, para a forma como uma sociedade olha para crimes como a violação.

Ou será que contribuem?

Aqui entra a parte menos conveniente da conversa, a realidade.

Em Portugal, os números não são apenas uma opinião. Só entre janeiro e setembro de 2024 foram registados 521 casos de violação, o equivalente a cerca de duas por dia. E estes são apenas os casos denunciados, aqueles que ganham voz e coragem, ultrapassaram o medo, a vergonha e a desconfiança num sistema que nem sempre protege quem fala.

Mas continuemos a falar de opiniões, porque falar de opiniões é mais confortável do que falar do que realmente acontece. Do facto da maioria das violações não ocorrer num cenário de filme, mas sim entre pessoas que se conhecem e que são próximas. Do facto de muitas vítimas passarem anos sem denunciar. Do facto do consentimento ainda ser, para muitos, um conceito surpreendentemente difícil de entender e de ouvir…

A violação não é um mal-entendido, não é um “acidente”. Não é algo que precise de ser ser debatido com diversos pontos de vista até deixar de parecer grave, é pura e simplesmente violência.

E é precisamente por isso que o discurso à sua volta importa.

Quando figuras públicas falam, especialmente em contextos mediáticos, com milhões de espectadores, não estão apenas a partilhar uma opinião inocente. Estão a contribuir para um ambiente onde certas ideias se tornam mais aceitáveis, mais repetidas, mais normalizadas.

E é precisamente nesse momento que acontece o ponto de viragem.

Porque, enquanto se discute se houve exagero na reação, há vítimas sentadas no sofá a ouvir e a perceber exatamente o que está em causa, ao sentirem que o seu caso pode ser relativizado, que a sua experiência pode ser debatida como se fosse uma simples falta num jogo de futebol… no fundo como se fosse uma questão de perspetiva.

Isto leva ao medo de que a denuncia possa significar ter que ser questionada, exposta ou desacreditada.

Mas talvez estejamos a exagerar, talvez seja só uma opinião, só televisão. Talvez seja só mais um tema que daqui a uns dias será substituído por outro, igualmente polémico e igualmente descartável.

Entretanto, os números continuam a existir e as histórias também, mas cada vez mais difíceis de contar.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem da Capa: https://pin.it/73I1qZtPX

Escrito por: Sofia Maria

Editado por: Rodrigo Caeiro

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