Não sou mais do que um feixe de reflexões. Palavras espalhadas no meu ideário sob a presunçosa ambição de serem publicadas. Risco a maior parte das frases porque nelas vejo a insignificância da mensagem que transmitem. No entanto, apesar da sua pobreza, fazem-me refletir sobre a minha tendência irracional para a preguiça. Quantos contributos perderemos por causa dela!
Ela é, pois, uma das grandes pragas da natureza humana. O esforço vão por exprimir na letra o que, do modo mais primário, o instinto gera e a razão agarra numa tentativa de transferir a consciência para o espírito pobre, que não permite sujidade nem outro elemento no seu proprium, a sua identidade, além do nome. Nesta abstração não há dúvida nem alterações. Tampouco cores nem limites numa sociedade cada vez mais mergulhada num véu de perversão, —não alienação, mas sim lucidez para ver a realidade na qual ninguém quer reparar— que luta contra nós próprios, polariza e extrai o pior de um parecer que flutua no conformismo e no impulso.
Lembra-me muito a paixão no seu mais baixo e primitivo sentido. O instinto tende para a via perdida, para os bens e prazeres simples. Então necessita de uma razão que conduza —uma utopia na qual um povo se estabelecesse sob o domínio de um motor que anulasse o mal, do mesmo modo que um deus ou estrutura de poder faria— mas é já impossível. O ego e a ânsia de pertencer a uma coletividade tornam-se pilar; aumentam tão exponencialmente que quase desenvolvem substância própria.
Somos filhos do wokismo puro e, como tais, ainda nestes tempos de conservadorismo, devemos abraçá-lo. Já Epicuro, sem o saber, desenvolvera em certa medida esta doutrina com o seu hedonismo. O ser contemporâneo entra num estado de êxtase sensorial perante a ausência de dor e ultrapassa o limiar da consciência. Extrapolável para muitas outras áreas da vida quotidiana, o inapropriado torna-se apropriado, e o apropriado desaparece. Tudo é o mesmo, mas vítima de um produto inexorável que modifica o seu carácter e, além disso, o próprio critério. É o auge da loucura. Tal é a sua força que separa o homem do mal; do corpo com mente não estimulada, de qualquer intuição, racional ou impulsiva.
A paixão é a nova religião do homem contemporâneo. Apresenta o castigo com a instantaneidade do seu próprio agir; é independente de todas as formas de vida ou esvaecimento. Contudo, a força está em identificá-la e acolhê-la carinhosamente à sua chegada. Só isso eliminará a incerteza de uma estrutura animal que se julga convulsa quando não é, senão, o presente de maior custo que a raça humana pôde ter: a ligação intemporal de uma sociedade seduzida e guiada pela pulsão herdada.
Descrição do desenho de capa: “Que chateado tu estás desde que não mandas! Porque não aprendes ortografia e te entreténs?”
Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Colección de Arte ABANCA
Escrito por: Reyes S. Sacramento
Editado por: Margarida Simões







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