Ventura e Pacheco Pereira: Um falso debate

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Como muitos dos meus compatriotas, ontem à noite, 13 de abril, segunda-feira, liguei a televisão na CNN. Até tenho como princípio não dar palco e palmas a quem não faz bom teatro, como costumo dizer, mas decidi ver. Vi o debate até ao fim, aliás, até cheguei a revê-lo. 

Foi mais de uma hora de um debate num dos canais de televisão mais vistos e prestigiados em Portugal em que permitimos que André Ventura brincasse conosco. Sim, foi isso que aconteceu, para que não haja dúvidas. Não duvido das boas intenções de Pacheco Pereira ao convidar André Ventura para debater — falamos de um homem culto, com conhecimento académico e de causa, que se viu indignado com o discurso feito pelo anterior no dia da celebração dos 50 anos da nossa Constituição. Não é o primeiro e não será de certeza o último. O único erro de Pacheco Pereira aqui foi achar que poderia mudar André Ventura ou o seu eleitorado. Infelizmente, como verificámos, não foi esse o caso, já que este saiu de lá com as mesmas convicções intocáveis que tinha antes de entrar, e os seus eleitores congratulam-no pelo suposto baile que deu ao historiador. 

Há pessoas que simplesmente não reagem à verdade, e quando eu digo não reagem, isto é importante, atenção; há uma diferença entre não saber e não querer saber. É mais do que óbvio e evidente que André Ventura sabe dos factos, do que aconteceu realmente antes e depois do 25 de Abril. Sabe. Pode não gostar de ouvir, pode “não concordar”, mas sabe. Apenas não reage a esses factos. Estamos a falar de um licenciado em Direito, com média final de curso de 19 valores. André Ventura não é burro nenhum, não precisa de ser recordado da verdade que ele já sabe, aliás, qualquer tentativa de o fazer apenas lhe dará uma oportunidade para manipular as coisas a seu favor. Dito e feito, todos os factos e relatos citados por Pacheco Pereira acabaram manipulados por André Ventura. Todos, não lhe escapou um. Ora vejamos: 

Nesta lógica, um português que defende Portugal e a sua soberania é um bom português, que faz o correto. No entanto, um angolano, moçambicano ou guineense que tenha lutado pelo país seu estava simplesmente a atacar o exército português. Não há aqui defesa do seu território, nem libertação. Há apenas um “ataque ao exército português”. Zero nuance. Sempre a centrar a conversa neste militarismo nacionalista, para se desviar do assunto. 

Como eu já aqui referi, André Ventura é inteligente. Sabe incitar a um assunto ou opinião que tenha sem dizer explicitamente aquilo que acredita que o irá comprometer. É exatamente assim que os seus eleitores continuam a acreditar nele, porque se focam no que lhes é dito explicitamente e não leem as entrelinhas do que está implícito. Neste caso, isto foi feito através de uma pergunta, que passo a citar: “(…) como é que éramos uma ditadura tão feroz?” Percebem? Notem a dúvida em relação à ferocidade da ditadura, quase como negacionismo. Está tudo nestas palavras. 

Como último exemplo da distorção feita por André Ventura, dou um pouco de contexto, citando o mesmo: “E eu gostava que o Pacheco Pereira fosse capaz de dizer assim (…) houve tortura dos dois lados, (…) Houve terrorismo dos dois lados!” Pacheco Pereira responde a isto com um simples “Sabe porque é que eu não lhe posso dizer isso?” E Ventura remata com “Porque não tem independência!” Errado. Pacheco Pereira está neste debate como historiador de profissão e conhecedor de causa, não como dirigente partidário ou candidato às legislativas. Claro que tem independência, apesar de ter as suas convicções, terá sempre independência. Qual é a obsessão de Ventura em exigir independência a qualquer pessoa que assuma ou entenda ser de esquerda? 

É curioso, exigimos sempre à esquerda uma dissociação dos seus ideais base para que possa haver debate, mas isso não tem nada a ver com o caso. 

Pacheco Pereira  foi deputado pelo Partido Social Democrata, no qual ainda se encontra. Não é, à data, um homem de esquerda. Não o é, e está tudo bem. Pois, André Ventura discorda. Várias vezes no debate utilizou as expressões “extrema esquerda” e “esquerda intelectual”, chegando mesmo a chamar-lhe comunista. Outra que é engraçada, Ventura não larga os comunistas da mão, mesmo quando esse assunto não é para ali chamado, relevante, ou produtivo, mas isto também não tem nada a ver com o caso. Como é já do entendimento comum, nestes últimos tempos, especialmente em debate com membros da família política do líder do Chega, qualquer pessoa minimamente decente, mesmo que de direita, arrisca-se a levar com alegações de comunismo. Não que isso seja mau, de todo, mas mostra claramente ao que chegámos, uma total deturpação da realidade. 

Aproveito para começar o último parágrafo deste artigo com essa mesma frase, deturpação da realidade. Este debate deu a Ventura a oportunidade de fazer uma total deturpação da realidade. Além de interromper e chegar mesmo a gritar com Pacheco Pereira, distorceu os factos. Quando nós não acreditamos, quando nós vemos e rimos, não achamos muito grave, são só umas figuras. Mas é grave. Porque nunca sabemos como vão reagir os outros. Se vão acreditar. É isto que leva à romantização da ditadura, é isto que leva ao negacionismo, a evitar conversas difíceis. É isto que leva à repetição dos mesmos erros. Para encerrar, penso que houve uma coisa boa com este debate: A máscara de Ventura caiu de vez, e caiu de uma só vez quando proferiu as deploráveis palavras “(…) nós tivemos uma revolução miserável, miserável (…)”  Não há como justificar isto. Não há como justificar este desdém ao 25 de Abril, uma data tão importante, tão bonita, e consensual da esquerda à direita. Pode ser que, ao menos assim, alguém questione tudo aquilo em que tem acreditado depois de ver isto. Pelo cair desta máscara, pela mudança de, pelo menos, uma pessoa, este debate já valeu a pena. 

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados

Fonte da Imagem de Capa: CNN

Escrito por: Lucas Sousa

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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