Do aviso vermelho a aldeias às escuras: a “normalidade” que tarda a chegar

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Nos dias que se seguiram à tempestade Kristin, que chegou na madrugada de 27 para 28 de Janeiro, o país acordou com imagens de casas sem telhados, árvores caídas, casas às escuras e uma parte do país isolada. Nas televisões e nas redes sociais, é visível uma parte da tragédia que atravessou Portugal. Porém, muito menos visível foi o que aconteceu – e sobretudo o que não aconteceu – no interior do nosso país, onde pequenas aldeias continuam a lidar quase sozinhas com as consequências de uma tempestade que expôs, mais uma vez, um problema antigo: o esquecimento estrutural destes territórios.

Enquanto nas grandes cidades do país se fala de milhões em prejuízos, de linhas de apoio e de planos de resiliência, há lugares no interior onde a “reconstrução” se resume a lonas improvisadas, telhas reaproveitadas e vizinhos que se juntam para levantar paredes. Em muitas aldeias, a chegada de equipas técnicas, de membros do Governo e de um mínimo sinal de ajuda é lenta, pontual, ou simplesmente inexistente. A distância geográfica transforma-se aqui em distância política: quanto mais longe de Lisboa e do Porto, mais difícil parece ser aceder a apoios, informação clara e respostas rápidas.

Este esquecimento não começou com a Kristin. Todos os anos, o centro do país é alvo de incêndios, progressivamente piores com o passar do tempo, e, com tudo isto bastante visível, continuam a ser dadas poucas respostas a quem, ainda nos dias de hoje, sofre com as consequências destes fogos. A tempestade apenas tornou visível aquilo que há muito se sente em muitos concelhos do interior: despovoamento, envelhecimento, falta de serviços essenciais e infraestruturas frágeis. Numa aldeia onde já não há escola, onde o autocarro passa uma vez por dia (ou nem isso), qualquer dano material tem um impacto social multiplicado. Um telhado arrancado numa casa onde vive um idoso sozinho não é apenas uma questão de alvenaria: é uma questão de dignidade.

No entanto, a resposta das próprias pessoas mostra um caminho diferente. Os vizinhos ajudam a tapar buracos nos telhados, os bombeiros voluntários passam dias seguidos no terreno, habitantes que juntos fazem o “impossível”: tudo isto revela uma resiliência que contrasta com a lentidão e descoordenação de quem representa o nosso país, e a quem o compõem: todos nós. O problema é que a resiliência local, por mais admirável que seja, não pode continuar a servir de desculpa para a ausência do Estado no interior do nosso país.

Posto isto, todas as minhas palavras dirigem-se a quem, mesmo depois de fenómenos extremos que nos enfrentam, mesmo com o abandono dos nossos representantes, tenta trazer normalidade para as suas vidas, estando tudo menos normal.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa: Gerada por IA

Escrito por: Mariana Pedro

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

One response to “Do aviso vermelho a aldeias às escuras: a “normalidade” que tarda a chegar”

  1. Parabéns pelo tema: necessário e urgente. O interior, envelhecido e isolamento, tem de começar a ser visto pelos governantes como uma questão de dignidade e não de número.

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