51+1… o bug que felizmente ninguém corrigiu ainda espera o save

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Houve um dia em que o sistema português crashou. Era 25 de abril de 1974. O Estado Novo, um regime que se queria eterno, funcionava como um software pesado, cheio de permissões bloqueadas, pastas secretas da PIDE e uma firewall chamada censura. Até que um grupo de capitães encontrou uma falha de segurança. Não era um vírus sofisticado. Era uma canção na rádio e um tanque com cravos.

O 25 de abril foi o maior bug da nossa história. Um erro feliz no Matrix português. A revolução que ninguém programou, mas que todos executaram. E o melhor: funcionou.

Agora, 51 anos depois, quase 52, estamos à espera que alguém carregue no “save”.

Porque a liberdade foi instalada, sim. Mas ficaram módulos por atualizar. A saúde pública é um sistema a funcionar em safe mode. A habitação está com memory leak. A justiça parece um loop infinito. E o interior do país? Esse está em offline há décadas.

Abril não acabou, mas adormeceu numa playlist de feriado. Todos os anos tiramos os cravos da gaveta, ouvimos Grândola no telejornal, recordamos Zeca Afonso, e depois arrumamos tudo até ao ano seguinte. Mas se o 25 de abril fosse uma playlist de 2026, já lá estavam Capicua a descascar a realidade, Sam the Kid a samplear liberdade, B Fachada a desarrumar a ordem e Dillaz a “rappar” sobre sobreviver num país que às vezes esquece que foi revolucionário. 

O direito ao rap, ao trap, ao ruído, ao que incomoda, isso também é 25 de abril. A revolução não acabou nos cravos. Acabou na permissão para ser desagradável.

Vamos comemorar os 52 anos do 25 de abril. Mas ainda não os comemoramos. Porque comemorar não é repetir. Não é hastear bandeiras um dia por ano e guardá-las no armário durante os outros 364. Não é bater palmas à liberdade enquanto se normaliza a precariedade, o atraso nos hospitais, o envelhecimento da população que pressiona a segurança social e exige respostas inadiáveis para quem cuidou do país. Comemorar é perguntar o que é que ainda não fizemos. Onde é que Abril continua preso. Que revolução ficou a meio. Enquanto não respondermos a isto e enquanto não agirmos, estaremos sempre a aproximar-nos da data sem nunca a celebrarmos verdadeiramente.

Acredito que o caminho passa por fortalecer o Estado social, garantir o direito à habitação como pilar da dignidade, valorizar o trabalho e combater a precariedade com políticas ativas de emprego. Passa por investir na coesão territorial, para que ninguém seja forçado a abandonar a sua terra por falta de oportunidades. Passa por uma justiça mais célere e acessível a todos. Passa por uma escola que incentiva a pergunta em vez de a castigar, e por uma saúde pública que não abandona ninguém à espera. Passa por uma Europa solidária, onde Portugal ocupa o seu lugar de construção de pontes e não de muros. Acima de tudo, passa por devolver a esperança na política como instrumento de transformação coletiva, e não como palco de desilusão.

52 anos depois, o melhor tributo a Abril não é um cravo. É um futuro. Precisamos de um patch: coragem para acabar o que Abril começou. Acabar com a habitação como negócio, com a precariedade como norma, com o interior como deserto, com a memória como folclore.

O 25 de abril não é um ficheiro só de leitura. É um programa aberto. E nós temos permissões de administrador. Só falta usá-las.

Este artigo é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem: https://sicnoticias.pt/pais/2023-04-25-25-de-Abril-as-horas-decisivas-da-Revolucao-dos-Cravos-17e9a54f

Escrito por: Ricardo Farto

Editado por: Rita Luís

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