Reconectar-nos com a nossa humanidade essencial – mesmo ao nível mais elementar – terá um efeito cascata, e começa na mais pequena das escalas. No fundo, estamos cá para cuidar uns dos outros, cuidar da Terra, e criar coisas fixes.
Estou a passar por uma fase um bocado pessimista. E como não? Basta abrir as notícias ou as redes sociais. É tragédia atrás de tragédia. Ainda no outro dia a Diretora Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Mediterrâneo Oriental, confirmou que a Organização está ativamente a atualizar protocolos internos, já a antecipar a eventualidade de uma catástrofe nuclear, caso a guerra no Médio Oriente continue a escalar. Conclusão, dei por mim a pesquisar sobre no que é que isso consiste de facto. Vamos todos morrer? Se não todos, quantos? Qual é o nível da crise económica e colapso social que tal evento poderia desencadear? É suposto ir já comprar imenso papel higiénico, como no COVID? Quanto tempo até poder abrir a janela outra vez?
E pronto, já estava em espiral a tentar prever os “próximos passos” de uma catástrofe que ainda não aconteceu. Mas como não fazê-lo?
E ainda não me afetou a mim diretamente, mas então e todos os que já foram e estão a ser afetados? Oh não. A chamada empatia seletiva. Senti-me ainda pior. Não há nada que eu possa fazer por essas pessoas, por mais que me revolte. Estou de volta à espiral.
E isto é só sobre uma guerra. Então e todas as outras? Então e todos aqueles conflitos dos quais nem sequer ouvimos falar nas notícias?
Quero resolver tudo. Quero resolver a fome, a guerra, o abuso de poder, a corrupção, a injustiça social. Onde é que me inscrevo para isso?
Entretanto o meu pai veio perguntar-me se posso ir pôr a mesa. Agora não pai, não vês que estou a tentar perceber como é que me vou tornar Presidente do Mundo?
“Toda a gente quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a loiça.”
Eu não queria estar a escrever este artigo. Aliás, nem sequer queria ter de ter lido este livro. Mas para tempos trágicos, medidas drásticas.
A frase é de P. J. O’Rourke, do seu livro All the Trouble in the World. É satírica, provocatória e – claramente!!!! – assenta numa analogia extremamente datada e sexista. Mas, para lá da superfície desconfortável, contém um diagnóstico social que parece ter envelhecido melhor do que muitas teorias políticas dos anos 90.
Estamos inundados em informação, não é novidade. Aliás, pouco ou nada é novidade num mundo onde já nada me parece impossível. Se forem como eu, aposto que há dias em que acordam e pensam: “mais um dia neste mundo cruel”. Não que eu não tenha amor à vida que estou a construir, mas porque, de certa forma, custa-me viver o meu pequeno dia-a-dia no contexto desta que é a nossa atualidade. Tudo é questionável. Acompanhamos escândalos de elites políticas e financeiras que corroem a confiança pública. Assistimos ao crescimento de forças nacionalistas e abertamente racistas. Multiplicam-se conflitos armados, crises humanitárias e regressões democráticas. O cenário geopolítico é um mapa em chamas, e, graças ao nosso prolongamento do corpo/melhor amiga Internet, podemos mesmo ver em tempo real a bomba a cair no outro lado do mundo. O que deve ser fantástico para a nossa saúde mental, e ao mesmo tempo, excelente para pormos tudo em perspetiva e desconsiderar os nossos “problemas de primeiro mundo”. Como é que esperam que eu queira saber dos meus trabalhos se estão populações inteiras em constante sofrimento? Estou completamente dessensibilizada. As notícias de hoje são piores do que as de ontem e menos graves do que as de amanhã.
Nesta hiperconsciência global, todos queremos salvar o mundo. Queremos acabar com as guerras que se multiplicam em diferentes continentes com diferentes propósitos, nenhum deles válido, expor escândalos que corroem a confiança nas instituições, combater o racismo estrutural que insiste em sobreviver às promessas de progresso. Queremos justiça climática, igualdade de género, transparência democrática. Queremos tudo, e queremos já.
Simultaneamente, estamos completamente exaustos. A sensação de impotência e o desânimo que se segue consomem-nos. A sensação é a de que os problemas são grandes demais, estruturais demais, profundos demais para que qualquer gesto individual faça diferença.
Há um paradoxo inquietante no nosso tempo: quanto maior é a escala dos problemas, menor parece ser a nossa margem de ação individual. A sensação de descontrolo alimenta o cinismo. O cinismo transforma-se em apatia. E a apatia é o terreno fértil de todas as erosões democráticas.
No fim, talvez estejamos a cair numa armadilha conceptual perigosa: a de acreditar que o propósito individual só é válido se for historicamente transformador.
A obsessão contemporânea com impacto “macro” (alimentada por métricas de visibilidade, viralidade e reconhecimento público) criou uma hierarquia moral distorcida. Ativismo que não é visto parece irrelevante e mudanças que não são estruturais parecem insuficientes.
E, no entanto, toda a transformação estrutural começa numa escala microscópica.
E é aqui que a frase de O’Rourke ganha outra camada de significado.
Ninguém é obrigado a relativizar. Podemos estar revoltados na mesma. Mas talvez, só talvez o nosso propósito na Terra não tenha de ser sempre grandioso. Talvez não sejamos todos chamados a negociar tratados de paz, a reformar sistemas económicos ou a liderar revoluções morais. Talvez – e isto não é resignação, é maturidade – nem todos os problemas possam ser resolvidos de raiz por nós, individualmente. Mas isso não significa que sejamos irrelevantes.
Ajudar “a lavar a loiça” pode soar doméstico demais para uma análise geopolítica. Mas é como dizer, façamos o que é mundano e está ao nosso alcance. É cuidar da nossa casa, da nossa rua, da nossa universidade, do nosso local de trabalho. É intervir quando ouvimos um comentário preconceituoso. É apoiar um colega que precisa. É participar numa associação local. É votar de forma informada. É oferecer tempo a quem está isolado e atenção a quem está desmotivado. É organizar, mesmo que seja numa escala microscópica. O gesto pequeno, repetido, invisível, é a base de qualquer comunidade funcional. Sem ele, a casa degrada-se. E uma casa degradada dificilmente sustenta grandes projetos de redenção mundial.
Quando deixamos de acreditar que as nossas ações locais têm valor, abrimos espaço para duas tentações igualmente perigosas: o messianismo, a ideia de que apenas líderes fortes e soluções totais podem “limpar o caos”; e, no extremo oposto, o famoso niilismo – a convicção de que nada vale a pena porque nenhum esforço é suficiente. Ambas corroem a cidadania democrática.
Intervir quando alguém é alvo de um comentário racista não derruba uma estrutura inteira, mas desafia a sua normalização. Apoiar uma organização local não reforma a ordem internacional, mas fortalece o tecido social que sustenta democracias. Participar politicamente a nível municipal não termina guerras, mas constrói comunidades mais resilientes à manipulação e ao extremismo.
Há umas semanas, uma professora minha disse “sociedade ainda existe, mas já não existe comunidade.” Não poderia ter dito melhor. Num mundo obcecado com impacto viral e mudanças sistémicas imediatas, subestimamos o poder transformador da consistência. A política não vive apenas nos parlamentos ou nas cimeiras internacionais; vive no quotidiano; nas escolhas pequenas e repetidas que moldam culturas e que, essas sim, constroem comunidades. Num mundo em que escândalos globais alimentam desconfiança, talvez o verdadeiro ato radical seja reconstruir confiança na escala onde ela ainda é possível: a proximidade.
Talvez o propósito não esteja sempre em “salvar o mundo”, mas em recusar contribuir para a sua degradação, começando pelo espaço que habitamos.
“Ah pronto, então em vez de exigir mudanças estruturais vamos todos plantar manjericos e ajudar os vizinhos.” É verdade: gestos individuais não substituem reformas estruturais. A luta por direitos humanos, igualdade e justiça exige organização coletiva e mudança institucional – e continuará a exigi-la. Convém dizê-lo sem ambiguidades: valorizar a escala local não é ilibar os grandes responsáveis. Não é pedir às pessoas comuns que compensem, com gentileza e voluntarismo, a violência produzida por governos, elites económicas ou instituições falhadas. Nenhum gesto de proximidade substitui cessar-fogos, justiça social ou responsabilização política. Mas sem uma cultura de participação e coragem quotidiana, nenhuma reforma estrutural se sustenta por muito tempo.
Quando ajudamos “a lavar a loiça”, estamos a rejeitar o cinismo. Estamos a afirmar que, mesmo sem resolver o mundo, escolhemos não ser indiferentes. Podemos impedir que a nossa esfera de influência se torne mais injusta.
Talvez seja esse o verdadeiro antídoto para estes tempos difíceis: não a ilusão de que cada um de nós salvará a humanidade e o planeta, mas a convicção de que nenhum gesto é pequeno demais. Se cada pessoa fizer um pouco, no perímetro da sua própria comunidade, o mundo nunca ficará totalmente sem esperança. E a esperança não devia ser uma emoção passiva, mas sim uma prática diária; atualmente, talvez seja até a forma de resistência mais radical de todas.
Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Escrito por: Nina Silva
Editado por: Rita Luís


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