As janelas da lei

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Nos próximos dias, Alfonso Basterra, condenado pelo crime do assassínio da sua filha Asunta, poderá sair da prisão. Apesar da sua solicitação ter sido indeferida em 2024, foi aceite a tramitação de uma nova possível saída temporária. A história da menina que inspirou a série da Netflix El caso Asunta, coloca agora a questão de uma justiça indulgente e uma opinião pública imunizada perante a vileza das barbáries.

18 anos de prisão sentenciaram. Basterra foi condenado, em outubro de 2015, pela sua participação no crime, juntamente com a ex-mulher Rosario Porto. A Audiência Provincial da Corunha condenou ambos pelo crime de homicídio qualificado, com a agravante de parentesco, depois de um júri popular ter emitido um veredicto de culpabilidade por unanimidade. 

O crime obedeceu a um “plano premeditado, executado de forma gradual”, o que seria impossível de realizar sem a participação de ambos os progenitores ou de, pelo menos, o seu consentimento. O Ministério Público considerou Basterra e Porto “coautores” da morte violenta da menor. 

A menina foi intoxicada pelos progenitores em quatro ocasiões anteriores ao seu assassínio com doses elevadas de sedativos. No dia da sua morte, ingeriu pelo menos 27 comprimidos de ansiolíticos, substâncias que lhe foram administradas no dia em que Alfonso preparou a refeição que os três partilharam. Além disso, duas professoras de música confirmaram que o próprio Alfonso chegou a levar a menina “drogada” às aulas, com aspeto de estar sedada e “como que sonâmbula”. O relatório forense confirmou que a menor foi atada e asfixiada, graças à situação de debilidade em que se encontrava.

Na atualidade, Alfonso Basterra continua a cumprir a sua pena na prisão de Topas (Castela e Leão), centro para onde foi transferido a partir da prisão de Teixeiro (Galiza). No entanto, Basterra não poderá usufruir da saída da prisão até que a decisão judicial transite em julgado. Os responsáveis pelo estabelecimento prisional de Topas consideram que este não cumpre os requisitos para a sua saída e opõem-se à decisão do juiz.

Alfonso Basterra nunca reconheceu o crime e recusou-se a realizar um curso voluntário de violência vicária, já que fazê-lo seria o equivalente a admitir que matou a sua filha. Agora, a decisão tornar-se-á definitiva e o recluso poderá realizar essa saída autorizada, apenas se o Tribunal de Salamanca a confirmar. A anterior, solicitada em 2024, foi recusada por risco de alarme social e ausência de arrependimento.

Nesta Páscoa, vêm novos chamados para o devir de Basterra. A agonia dos tempos vividos convive com as ondas de um aparato judicial que se desfaz nas areias do aparente, enquanto ardem para os cristais das firmes janelas do discurso.

É simples falar de reinserção desde a estreiteza. Ninguém consegue fugir da volição de apagar um problema na louvada diligência dos feitos nus de efetividade, enquanto falecem as ações honestas. É mais válido mexer os pés nas areias dos anos cumpridos na sentença preestabelecida, na adulação para com o próximo como estratégia de persuasão. Assim são os acordes de um sistema capaz de redimir sem arrependimento, que acredita nas falácias justificadas com lágrimas de chumbo. Basterra chegou a assinar a sua obra narrativa inaugural Cito com uma dedicatória à sua filha: “A Asunta, a minha menina, a minha vida, o meu grande amor”.

As palavras já não comunicam; tornaram-se sujeitos ativos na erotização da mágoa. Nestes mundos caóticos, a dor traduz-se em palavras mórbidas para o público-alvo: aqueles que esquecem o ocorrido, alegam desconhecimento e tentam crer na abnegação genuína, na qual não resta mais que o nome. São anseios impossíveis que lançam as ideias, responsáveis pelos emblemas da moralidade, frente às causas. Nada importa o perdão na ausência de gratidão. Interagir com a justeza expõe a vida nos cristais das vizinhanças.

Apesar disso, é ainda mais assustador não rachar essas janelas apertadas nos fólios. Aceitar que é impossível atingir as mudanças procuradas, mesmo colocando o coração em dívida com os decretos. Só então a vastidão do pensamento arrasta, para os oceanos abissais livres de areias, janelas e trocas de autocomplacências vazias. No entanto, lá, na escuridão e no silêncio, estão rostos e fundos. Os mesmos aos quais a rapariga que nasceu fugindo das ondas costumava sorrir. 

Resumo do caso. Fonte: G24 Noticias

DISCLAIMER: O artigo foi escrito no 30 de março. No 1 de abril de 2026, a solicitação foi RECUSADA.

Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da imagem de capa: Europa Press

Escrito por: Reyes S. Sacramento

Editado por: Cristina Barradas

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