FOMO: o medo de não estar na fotografia

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Às vezes, a melhor forma de não perdermos absolutamente nada é simplesmente pararmos de correr atrás de absolutamente tudo.

Há medos que passam de geração para geração: o escuro, as aranhas, falar em público, o medo de falhar num exame importante… e depois há o medo atual, silencioso e altamente moderno: o FOMO, que traduzido à letra significa Fear of Missing Out, ou, em bom português, o medo de estar a perder alguma coisa. Alguma coisa essa que, muito provavelmente, nem queríamos assim tanto.

O FOMO é aquela sensação desconfortável que aparece quando estamos em casa, de pijama, a ver uma série e abrimos o Instagram “só para ver uma coisa”. Passados cinco minutos, damo-nos de caras com fotografias de jantares em rooftops, uma festa na praia, três aniversários e uma saída para a qual nem sequer fomos chamados.

A ironia começa aqui. Muitas vezes nem sequer fomos convidados, ou fomos, mas dissemos que não íamos porque estávamos cansados, porque não tínhamos dinheiro ou porque simplesmente não nos apetecia. Mas basta ver as fotografias com luz quente, gargalhadas congeladas numa selfie e legendas bonitas para o cérebro decidir que fizemos a escolha errada. Devíamos estar ali, a sorrir, a divertirmo-nos e a conversar durante horas a fio, mesmo que no dia seguinte tivéssemos um teste importante.

Esta sensação alimenta-se da comparação constante, da comparação editada, filtrada e escolhida a dedo. Comparar o nosso bastidor com o palco iluminado dos outros é, no mínimo, injusto, mas fazemos isso constantemente. Pelo medo, o medo de não estarmos presentes, de perdermos momentos e de não aparecermos naquela fotografia de grupo que toda a gente vai ver e perceber que nós não estávamos lá.

Principalmente entre os adolescentes, o fenómeno é particularmente intenso, pois é nesta altura da nossa vida que sentimos que pertencer e estar presente é quase uma questão de sobrevivência. Não estar na fotografia pode parecer o mesmo que não existir, como se essa ausência momentânea nos desse menos cor, menos emoção e menos importância. E, no entanto, a maioria das experiências verdadeiramente boas não têm Wi-Fi suficiente para serem publicadas.

Mas é importante percebermos que, ao tentarmos não ficar de fora, estamos sempre mentalmente fora do momento presente. Assim, certos momentos passam-nos ao lado porque estamos com os olhos postos no ecrã luminoso do telemóvel, a pensar no que estará a acontecer noutro sítio.

Além disso, não há problema nenhum em não estarmos sempre presentes em tudo. As pessoas que realmente querem a nossa presença fazem questão de nos incluir. A nossa importância nas relações interpessoais não se mede pelo número de eventos a que fomos ou pelas fotografias em que aparecemos.

No mundo digital em que vivemos, ligados por uma onda invisível, é fácil esquecermo-nos de que ninguém vive apenas momentos extraordinários. A vida real é feita sobretudo de momentos simples e, muitas vezes, acabam por ser esses os mais impactantes e os que nos enchem o coração.

Talvez a grande rebeldia do nosso tempo seja exatamente o contrário do FOMO, ou seja, contrariarmos esse sentimento insólito. Escolhermos ficar em casa e não publicarmos nada, irmos a um sítio e não provarmos que lá estivemos ou ficarmos em casa a conversar com as nossas amigas enquanto acontece uma festa mesmo na rua ao nosso lado. Aceitar que não podemos estar em todo o lado ao mesmo tempo, é essencial.

Porque, no fundo, a vida é mais do que aquilo que se passa na porta ao lado da nossa. E, ironicamente, a única coisa que realmente perdemos quando vivemos em FOMO constante é o momento que já é nosso.

Fonte da imagem de capa: Pinterest

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Sofia Maria

Editado por: Margarida Simões

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