Imagine o prato típico português, com um bom bife no centro do prato, batatas, arroz a acompanhar, e uma folha de alface colocada estrategicamente no prato para aliviar a consciência. Se déssemos apenas 10 segundos de antena à roda dos alimentos, aposto que nos perguntaria porque é que escolhemos praticamente todos os dias ignorá-la.
Os números não deixam grande margem para dúvidas… Segundo a Balança Alimentar Portuguesa 2020-2024, divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística, a ingestão calórica média diária por habitante é de 4079 kcal. Dito de forma bastante simples, consumimos, em média, o dobro do valor recomendado para um adulto com peso saudável.
E onde está o maior excesso? No grupo “carne, pescado e ovos”, com mais 11,4 pontos percentuais acima do recomendado. Já os hortícolas e os frutos, continuam a ser convidados, mas nunca chegam a ser os protagonistas.
Em Portugal, a carne não é apenas alimento, é cultura, é identidade, é convívio. O problema começa quando essa “tradição” passa a justificar o exagero. Portugal produziu 947.000 toneladas de carne em 2024, um número recorde que ultrapassa brutalmente aquilo que era suposto… Eu sei, dito desta forma não dá para conseguirmos ter realmente noção do impacto disto, mas de forma clara e mais específica, em 2024 cada português consumiu em média 124kg de carne, mais de 300g por dia, sendo que a organização mundial da saúde recomenda cerca de 70g diárias para os homens e 55g para as mulheres.
Quando jogamos um vídeo jogo, penso que nenhum de nós goste de perder vidas, acabamos por ficar mais vulneráveis e cada vez mais perto do fim do jogo… E é mais ou menos isso que acontece também na vida real, diversos estudos indicam que os hábitos alimentares inadequados foram o quinto fator de risco que mais contribuiu para a perda de anos de vida saudável e para a mortalidade no país. Entre os principais responsáveis estão o consumo elevado de carne vermelha, carne processada e o baixo consumo de cereais integrais. Há até quem defenda que as chamadas carnes vermelhas devem manter-se definitivamente fora do prato.
Se antes a pressão vinha da nossa avó, que nos dizia em todos os almoços “come lá mais um bocadinho”, agora vem de uma maneira diferente, e não tão querida, vem das plataformas digitais.
Plataformas como TikTok e Instagram transformaram a alimentação num espetáculo visual, onde cada pedaço de proteína animal nos deixa mais atraentes. Grelhados em câmara lenta, desafios de proteína e promessas de transformação corporal em 30 dias, são alguns exemplos que dão palco a estes hábitos. O consumo elevado de carne é frequentemente associado a ideias de força, masculinidade e performance física. A proteína animal é apresentada como combustível de vencedores. O prato cheio de carne torna-se quase um símbolo identitário. A chamada dieta carnívora ganhou palco digital, promovendo o consumo quase exclusivo de carne (como é o caso da dieta cetogénica) com promessas que soam demasiado boas para serem verdade.
As redes sociais não criaram o nosso consumo excessivo de carne, mas amplificaram-no. E amplificam sobretudo o extremo. Uma dieta equilibrada não viraliza. Um prato cheio de legumes dificilmente gera milhões de visualizações. Já um influencer a garantir que só come carne e “nunca se sentiu melhor” tem tudo para correr o mundo. Até porque, vamos ser honestos, um bom bitoque sempre foi a escolha no menu de qualquer restaurante e preferencialmente sem alimentos verdes a estragar o prato.
Enquanto a Direção Geral de Saúde alerta para o impacto dos hábitos alimentares na mortalidade, parte da internet transforma a proteína num símbolo de disciplina, força e superioridade física. O nosso corpo pede equilíbrio. O algoritmo pede exagero. E no meio disto tudo, esquecemo-nos de algo simples, reduzir não é proibir. Não se trata de abolir a carne do prato português, mas de lhe devolver o lugar que deveria ter, o de figurante, não o de protagonista absoluto, até porque não há necessidade da carne entrar em todas as cenas quando temos protagonistas com cores muito mais vibrantes e que esses sim, são sinónimo de vida.
Talvez o verdadeiro problema não seja sermos um país que gosta de carne. É sermos um país que gosta de excessos. E agora, com o empurrão das redes sociais, conseguimos transformar o exagero em tendência.
O debate não devia ser sobre eliminar a carne, mas sobre redefinir limites. Porque quando o excesso se torna parte do nosso dia a dia e ainda recebe aplausos digitais, deixa de parecer problema e passa a parecer estilo de vida.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Pinterest
Escrito por: Sofia Maria
Editado por: Íngride Pais


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