Limpamos as teias do rock português. As aranhas ficam.

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O Jornal desacordo teve a oportunidade de entrevistar “Marquise”, banda nortenha que leva o shoegaze e o rock alternativo do underground portuense ao Festival da Canção. Entre delírios de nuvem e algodão, faunos do passado e meninas bonitas, Mafalda, Miguel Azevedo, Miguel Oliveira e Matias levam uma nave de sons que espanca espírito e atravessa a cidade até ao palco da RTP.

Marcados por um crescimento muito rápido desde o vosso início, como é que apresentam hoje os Marquise a quem vos está a descobrir agora pela primeira vez?

Miguel Azevedo: A meu ver, são quatro amigos de vinte e dois anos e uma pessoa de vinte e três anos, que, pronto, tiveram o acaso de saber tocar instrumentos, de gostar de música e de fazer música em conjunto. E, pronto, tiveram a oportunidade de poder partilhar o que andaram a fazer nos últimos quatro, cinco anos.

Mafalda, a lírica tem um peso muito forte na identidade da banda. De que forma referências como a Lena d’Água continuam presentes na maneira como escreves e pensas as canções?

Mafalda: Continuam muito fortes. Mas, por falar nisso, da Lena d’Água, só descobri, há nem um ano, que não era ela que escrevia as canções. E fiquei super triste. Mas depois fui ver quem é que escreve e, de facto, é interessante ver como grandes músicas estão sempre associadas a nomes de compositores e letristas quase recorrentes na música portuguesa, principalmente nos anos oitenta. E pronto, acho que ainda é muito presente, porque acho que as letras dela, principalmente os álbuns antigos e mesmo ainda hoje, transparecem uma vida do quotidiano, mas bastante ambígua em certo sentido, em que não há propriamente um tema, ou pode haver, mas não é assim tão direto. E acho que isso é bastante interessante. A maneira como ela faz, tipo, uma coisa mais dark, mas meio pop. Não sei, eu gosto.

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Mais do que um disco, “Ela Caiu” parece simbolizar o fechar de um ciclo e o início de outro. Que mudanças sentem que aconteceram em vocês, pessoalmente e enquanto banda, ao longo deste processo?

Matias: Eu acho que, pessoalmente, muita coisa, porque passaram quase dois anos, de um lançamento para o outro. Para mim, essa é a grande diferença. E ainda estás a falar da questão dos ciclos… Basicamente quase meio disco já existia na altura em que nós gravamos o EP. E outras (faixas) foram desenvolvidas depois, portanto faz sentido que haja essa questão de transição. Acho que, enquanto banda, a maior diferença para aquelas músicas foi mesmo o facto de termos estado esses dois anos a tocá-las ao vivo. E isso tornou-se um elemento das músicas. E de repente, pensarmos em o que é que é música tocada ao vivo, o que é que é música gravada para um álbum. Isso foi diferente de pensarmos como é que eram as músicas dos nossos ensaios para um EP diretamente, salto direto quase.

Miguel Pereira: Também acrescentaria que, contrariamente ao EP, tivemos a oportunidade de fazer o álbum num espaço de tempo muito mais longo de gravação. O EP foi gravado em quatro dias. Foi tudo muito direto: temos estas músicas, vamos gravar, […] fazer o mais rápido possível. Neste caso, o processo foi mais preparado e […] pensado, com mais tempo e mais espaço para exploração. Pudémos gravar, ouvir com distância – e voltar a ouvir passado algum tempo-, para perceber se aquele som, aquele efeito específico, ainda faziam sentido. Isso acabou por permitir que músicas que, inicialmente, não existiam, passassem a existir. Houve situações em que as vozes só foram gravadas muito mais tarde, de forma pontual, e outras em que, passados dois meses, percebemos que havia um instrumental em falta. Houve momentos em que foi preciso deitar tudo fora e recomeçar, e desse processo acabou por nascer uma música nova, precisamente por termos tido esse tempo.

Fonte: https://www.ruadebaixo.com/marquise-estreia-se-com-o-album-ela-caiu.html

Maturar enquanto pessoas (e enquanto músicos) parece ter acontecido em paralelo no vosso percurso. Como é que esse crescimento se reflete na sonoridade e nas histórias que contam?

Mafalda: Acho que, apesar de tudo, o som já era maduro, de certa forma.

Miguel Azevedo: Uma das coisas que eu ia dizer é que varia imenso, da tua cena para o instrumental.

Miguel Pereira: Acho que, com o tempo, cada um […] vai percebendo melhor como é que funcionamos em grupo, o que vai modificando e amadurecendo a estética. Por exemplo, eu sei mais ou menos o que é que eu vou esperar de cada um de nós. Para além disso, acho que nós gravámos o EP e tínhamos… quantos anos? 19? 20? […] Portanto, acho que esse amadurecimento também faz parte de me reconhecer um bocadinho, e das referências musicais também. Pelo menos (eu), estou sempre a mudar. O que é que eu estou a ouvir naquele ano, naquele mês, naqueles meses.

Matias: O que eu ia dizer é que eu estava a sentir exatamente o contrário. Apesar de sentir que há um amadurecimento, eu não diria que exista uma evolução. Acho que é diferente. Aquilo em que eu estava a pensar era no instrumental das músicas do EP e nas letras, e compará-las precisamente com as de agora. E eu sinto que a tua cena ficou no mesmo universo. Apesar de ter amadurecido, está no mesmo universo.

Mafalda:Tínhamos 19 anos. Eu sei que não são muitos anos, dos 19 para os 23… Mas a verdade é que estás num estado de vida, numa fase de vida completamente diferente, não é? Estávamos, por exemplo, a começar os nossos cursos, a começar uma vida diferente e outros percursos, a conhecer novas pessoas, novos ambientes. Agora, já estamos numa fase mais final disso, ou já estamos mesmo noutra. Portanto, eu acho que isso também afeta bastante o amadurecimento. […] Pode não ser amadurecimento, porque eu acho que o EP é uma coisa mais upbeat e talvez menos triste, na minha perspetiva, do que o álbum [risos].

Matias: […] Estás a dizer que estávamos a começar percursos novos na nossa vida, o que é verdade. Para mim, uma das “cenas” que mudou imenso foi a maneira como eu penso agora em fazer músicas, escrever músicas… Acho que as pessoas que mais ouviam ou já ouviram música portuguesa são a Mafalda e Miguel […]. Eu era um mundo… esta questão das bandas underground era algo com que eu só comecei a entrar em contacto quando nós entrámos nisso. Mudou logo. As referências mudam logo. O andamento mudou logo. A perceção do que tu estás a expor e a materializar mudou logo. Só isso, já é todo um novo capítulo.

Mafalda: Sim, e continuando, eu antes não via tantos concertos ao vivo. […] Acho que ouço muito mais música ao vivo agora do que música gravada. Sinto que ouço cada vez menos música, mas vou cada vez mais a concertos. Isso também muda um bocado a minha perceção de como fazer música e de como é que isso depois afeta a gravação, e vice-versa. […] Agora, quando gravamos, […] já sabemos o que é música ao vivo e o que é que é música gravada, quais são as diferenças […], e essas nuances todas.

Fonte: https://www.instagram.com/p/C4v8cc6s5Jw/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==
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Muitos públicos diferentes cruzam-se no Festival da Canção. O que é que significa, para vocês, levar uma canção como “Chuva” a um palco com um alcance tão alargado?

Miguel Azevedo: Acho que é fixe […] e que é uma oportunidade para, de facto, dar a conhecer o nosso género musical, a nossa maneira de compor e dispor música, a um palco onde nós nunca acharíamos que íamos estar. […] Nós os quatro nunca tivemos experiência na televisão, num projeto do tamanho do Festival da Canção. E pronto, (O Festival), também é uma “montra” para a música emergente portuguesa, maioritariamente. E se nós deixarmos a nossa marca, e a marca da nossa cidade, que […] também se reflete na nossa música. Acho que é um ponto bastante positivo para nós e […] para a música no geral. Podia ser connosco, podia ser com outra banda underground do Porto, a poder dar-se a conhecer por isso. Sermos nós e poder estar “na vanguarda, ou na crista da onda”, para este momento em específico, do Festival da Canção de 2026, é uma oportunidade positiva para nós.

Musicalmente, onde colocam “Chuva” dentro do vosso percurso: é uma continuação natural do que já vinham a fazer ou um desvio pensado especificamente para o Festival?

Miguel Azevedo: Eu ia dizer que, a nível estilístico e a nível de sonoridade, […] é uma continuação do que estamos a fazer. E acho que também começa a ser algo mais coerente, porque naturalmente já tocamos há mais tempo e o entrosamento que temos os quatro, a nível musical, já se está a refletir numa coisa mais específica, apesar de, obviamente, ter bastantes variações: […] música acústica, estilos mais dançáveis ou mais barulhentas. Eu acho que a única coisa que é diferente, que é um bocado fora, é o facto de termos feito uma música com um máximo de três minutos, porque não dá para fazer mais. Mas, de resto, acho que, a nível sonoro, é uma continuação do caminho que temos feito.

Mafalda: Acho que a ideia era não fazer algo específico para o festival, porque nós estamos lá porque fazemos música como sempre fizemos, não especificamente para o Festival, apesar de ser uma questão bastante fixe para nós. Acho que a piada também era essa: não fazer algo que fosse “Festival da Canção”, mas continuar a sermos fiéis àquilo que nós gostamos e que produzimos enquanto músicos.

Ainda assim, “Chuva” tem uma capacidade de interpretação muito aberta. Que emoções ou imagens esperavam que o público captasse, ao ouvir a música, pela primeira vez, em palco?

Mafalda: Acho que a ideia é: eu tenho o meu significado, os outros veem outro significado, e, ambos são válidos. E isso também é bastante interessante. Mas acho que as imagens são bastante óbvias porque, apesar de tudo, a música é bastante descritiva de um cenário de destruição, quando a letra começa a falar de “chuvas ácidas e tempestades”, e “rasgar linhas e as cidades”. Acho que transporta-nos logo para esse imaginário de destruição, de vazio ou de uma cidade incompleta. Pelo menos espero que a primeira imagem que seja essa. O significado que venha a seguir. Mas as imagens são as nossas.

Mais do que uma decisão musical, a vossa escolha de não ir à Eurovisão é também ética e política. Como é que sentem que este posicionamento fortalece ou redefine a identidade da banda perante o público?

Matias: Obviamente, há muitos comentários. Acho que a opinião mais partilhada costuma ser: “não vamos confundir política com música”. Eu tenho alguma confusão com isso, porque acho que […] se todas as pessoas, no geral, forem honestas com o que estão a fazer, isso é automaticamente um ato político. Nós somos honestos com a música que fazemos, sempre fomos. E é apenas nesse sentido que ela é política. É como qualquer outra coisa que a gente faça que venha de um sítio verdadeiro. E depois, de repente, fingirmos também que estes festivais, estas coisas, não têm laços diplomáticos e políticos… eu acho que é uma opção. Portanto, nós também estamos dentro da nossa opção.

Mafalda: E acho que, mais do que tudo, um ato coletivo também, como banda, eu acho que também é um ato principalmente individual, e que cada um partilha mesmo antes desta questão da Eurovisão e do festival. E acho que a ideia era sempre sermos congruentes com aquilo que acreditamos. Fazer parte disto e não falar sobre isso era algo que a nós, principalmente, nos causava alguma inquietação. Portanto, fizemos o que tivemos que fazer, que é o mínimo.

Miguel Azevedo: Queria apenas acrescentar que, na minha opinião, isto não é especificamente uma revelação da nossa identidade como banda. Acho que estamos numa situação em que, neste caso, a RTP pôs nos pés dos artistas, incluindo nós, para tomar uma decisão, e temos a liberdade de fazer isso. Acho que é mais um revelar da nossa identidade como pessoas. Nós partilhamos a mesma opinião neste assunto, e concordámos em expor […] a nossa posição […]. E depois foi fixe, também, ter o apoio e a concordância de grande parte dos artistas. No seguimento do que o Matias e a Mafalda estão a dizer, não há propriamente como separar a música da política, especialmente numa situação em que nós estamos nesta parte da Eurovisão. Para nós, até foi uma decisão bastante simples que dissemos logo quando fomos anunciados.

Miguel Pereira: Sim, é isso. Também não tenho mais nada a acrescentar. Acho que é também uma questão da honestidade da nossa parte de sermos transparentes com aquilo que achamos.

Miguel Azevedo: E acaba sempre por ser uma expressão de quem nós somos. Nós temos crenças e acreditamos em coisas. Acaba sempre por ser uma expressão nossa, pessoal, sobre os mais diversos assuntos, só que num formato diferente.

Mesmo sem ir à Eurovisão, continuam a partilhar “Chuva” com o público. Que mensagem gostariam que permanecesse nas pessoas depois de ouvir esta canção no palco do Festival?

Mafalda: Pelo menos para mim, é que elas sejam críticas. Acho que é o máximo. Também não sabemos o que esperar da música e da receção da música e, com todo este ambiente e contexto em que estamos nesta edição, acho que é bastante direta também a nossa posição enquanto pessoas e músicos dentro do palco.

Miguel Azevedo: É um bocado também no seguimento do que estava a dizer há algumas perguntas atrás, sobre as músicas gravadas. Elas têm uma energia completamente diferente das músicas ao vivo, e conseguir fazer essa transição do estúdio para o palco, conseguir passar a energia, conseguir passar a ideia, e sentires que as pessoas estão a sentir o mesmo que tu, ou a sentir algo que tu esperas que elas sintam… Eu acho que esse caminho, e ir agora afinando a música, tanto para a parte da televisão como depois para a conversa ao vivo, vai ser muito interessante.

Escrito por: Carolina Dinis

Editado por: Cristina Barradas

Fonte Imagem de Capa: https://youtu.be/Kffo2SQICck

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