A segunda década do século XXI desenrola-se rapidamente, cada dia temos sempre algo novo a acontecer e cada evento devia pôr-nos a questionarmo-nos “Qual é o valor da nossa vida?”.
A segunda década deste século começou “em grande”. Logo nos primeiros dias do ano já seguíamos em direção a uma pandemia mundial, e nos últimos 6 anos pudemos ver o tempo acontecer. Mas aquilo que me pôs a questionar, aquilo que lançou a pergunta “Qual é o valor da nossa vida?”, aconteceu nos últimos 3 anos, principalmente.
Em outubro de 2023, tivemos o início do genocídio em Gaza, massacre esse cometido pelo Estado de Israel. Nos últimos 3 anos vemos diariamente nas nossas redes sociais imagens do povo palestino a ser massacrado e ao mesmo tempo uma falta de empatia com o povo e o negacionismo desse mesmo massacre. Pudemos ver também nos últimos anos o genocídio a desenrolar no Sudão, além de outras catástrofes humanitárias que não recebem nenhuma atenção.
Em 2022 iniciou-se a invasão Russa na Ucrânia, e na Europa o sentimento consensual foi de empatia e acolhimento ao povo ucraniano, uma atitude admirável do resto da Europa, mas porque é que esse sentimento não é igual para os outros? O que diferencia uma invasão e um massacre de outro?
Bem, talvez minha resposta para isso seria invocar Achille Mbembe e o seu conceito da Necropolítica para pensarmos juntos porque é que um massacre é tão condenado e outros tão esquecidos, ou até negados. Necropolítica refere-se ao uso do poder político para decidir quem morre dentro de um Estado, é a contraparte do Biopoder de Michel Foucault (1976).
A necropolítica, olhando para um nível global, decide quem vive e quem morre. Isto, numa escala global, significa também quem mata e quem deixa que mate. Pode-se entender, por exemplo, porque os Estados mais poderosos do Sistema Internacional permitem que Israel cometa atos genocidas sem grande punição. Essas ações contra a humanidade acontecem (quase) sempre nas franjas das “grandes” civilizações – nas regiões periféricas. Ora, o povo da periferia são os escolhidos para serem descartados, aqueles cuja a vida não vale tanto e qualquer ação contra eles não acarreta grandes punições. Podemos ver isto a acontecer dentro de Estados, por exemplo no massacre da Penha que aconteceu em outubro, no Rio de Janeiro, Brasil.
O massacre da Penha é um ótimo exemplo para usarmos ao falar da necropolítica. Uma operação que aconteceu para descartar corpos que estavam “a mais” no complexo da Penha. A operação já conta com mais de 122 mortes sendo, pelo menos 17 dessas pessoas, sem antecedentes criminais. Operação essa que aconteceu para dar show off e garantir uma reeleição do governador Cláudio Castro. É importante ressaltar que mesmo que as 122 pessoas fossem criminosas, o Estado brasileiro não tem pena de morte como punição às práticas criminosas e, assim, a polícia não deveria ter o papel do carrasco.
Em suma, o que podemos entender sobre o valor da nossa vida é o valor das duas faces da mesma moeda – qualquer evento humanitário a acontecer no norte global, o antes chamado Primeiro Mundo, tem reações imediatas de empatia e solidariedade. Isto responde, então, à questão inicial que o valor das nossas vidas é imensurável, devendo ser defendido ou protegido com tudo aquilo que nós temos. Contrastando, o valor de qualquer evento que acontece no sul global, o antes chamado Terceiro Mundo, tem reações de pouca solidariedade, ou até mesmo negacionismo dos acontecimentos. Esta é, também, a resposta para a questão inicial do valor das nossas vidas – não é universal, é geopolítico.
Foto da imagem da capa: Fepal – Federação Palestina
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Luan Souto
Editado por: Leonor Oliveira


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