Em Macau, é possível verificar tanto uma herança profunda de ligação ao mundo de língua portuguesa, assim como um ponto de entrada numa das regiões urbanas mais dinâmicas da China. Numa fase marcada pela consolidação do sul do país asiático como megalópole tecnológica, financeira e logística, é em Macau que permanece, em português, uma porta aberta para um dos maiores e mais inovadores mercados do mundo.
Macau está fortemente ligada aos países de língua portuguesa pela língua e por tudo o que esta ajudou a construir na economia, na cultura e na ciência. Ao mesmo tempo, não se trata de um país soberano. Macau é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China, regida pelo princípio de “Um País, Dois Sistemas”, com elevada autonomia interna, embora sob soberania chinesa em matérias como a defesa e a política externa.
Esta singularidade institucional coincide com uma transformação regional de enorme escala. Macau integra o projeto da Área da Grande Baía, uma das regiões mais ricas, dinâmicas e abertas ao exterior da China, que é consistentemente apontada como uma das grandes megalópoles mundiais das próximas décadas. Historicamente, esta zona, envolvida na região de Guangdong (Cantão), foi o epicentro das trocas entre a China e o exterior. Atualmente, prepara-se para ser, até 2035, um grande centro de inovação, serviços logísticos, financeiros e educativos, com a tecnologia no centro da estratégia de Pequim.
Do outro lado desta “porta”, está um mercado integrado com cerca de 70 milhões de habitantes. Esta dimensão faz, de forma instintiva, emergir a consideração das assimetrias dentro do próprio espaço lusófono, onde países com centenas de milhões de pessoas e Estados com apenas algumas centenas de milhares convivem e interagem. Mesmo economias de média dimensão sentem dificuldades em afirmar-se, sozinhas, num mercado desta magnitude e escala, sobretudo quando se trata de fornecer bens de grande consumo.
É precisamente aqui que a língua e a legislação de Macau ganham valor estratégico. Funcionam como “zona de aterragem” inicial para empresas e instituições dos países de língua portuguesa que queiram entrar neste mercado urbano e tecnológico com menos fricção, menor risco jurídico e maior previsibilidade do que teriam, por exemplo, noutros grandes mercados.
É oportuno enfatizar, também, que esta “porta” não serve apenas o propósito da penetração no mercado chinês. É, igualmente, uma plataforma privilegiada da China para alargar a sua influência económica, política e militar no mundo lusófono.
Os serviços financeiros, um dos eixos estratégicos da República Popular da China para a Grande Baía, já constituem, hoje, um dos elos mais desenvolvidos da interligação entre Macau e os países de língua portuguesa. Neste sentido, realça-se a presença de bancos, de forma simultânea, em Macau e em vários países lusófonos, facilitando o financiamento e as operações comerciais entre continentes. A presença financeira portuguesa mantém-se sólida tanto nos países de língua portuguesa como em Macau, e os bancos chineses vão se implantando, gradualmente, nos mercados lusófonos. A interligação financeira sino-lusófona em vários continentes é já uma realidade à vista do olho atento.
Para quem vem da China, Macau oferece um ponto de contacto linguístico, cultural e jurídico com o espaço lusófono. Para quem vem do mundo lusófono, oferece um canal para operar dentro de uma das regiões mais ambiciosas da economia chinesa.
Esta dupla função vê-se em mecanismos muito concretos. São já comuns as estruturas dedicadas a apoiar empresas lusófonas que queiram aproveitar a oportunidade da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau, financiando importações e exportações e integrando-as nas dinâmicas comerciais regionais. Ao mesmo tempo, a integração rápida nas cadeias globais de transportes e logística, reforçada por grandes redes internacionais de rotas e infraestruturas, é decisiva para servir um mercado desta dimensão.
Os investimentos chineses em infraestruturas portuárias em países de língua portuguesa e noutras regiões criam corredores que ajudam à produção, ao transporte e ao financiamento entre continentes, fomentando o estabelecimento de verdadeiras redes comerciais globais.
Nem todos, porém, aproveitam esta oportunidade estratégica de internacionalização com a mesma facilidade. Tendo em conta as prioridades tecnológicas da Grande Baía e a capacidade produtiva dos países lusófonos, quem tem maior probabilidade de sucesso são, sobretudo, as empresas de tecnologias de informação e serviços inovadores. São atividades menos dependentes de grandes volumes físicos e mais compatíveis com uma expansão rápida num mercado urbano denso e altamente digitalizado.
Neste sentido, Portugal tem feito fortes investimentos nesse domínio, atraindo talento, centros de inovação e empresas internacionais, apoiado em universidades de topo e custos competitivos. Por sua vez, o Brasil, com uma população que ultrapassa os 200 milhões, dispõe de tecnologia avançada em setores como a aeronáutica, saúde e energia, com grandes grupos económicos internacionalizados e já expostos ao mercado chinês. Para estes atores, a expansão apoiada em Macau para a Grande Baía constitui uma extensão óbvia e natural das próprias ambições de internacionalização.
A visão de Macau, integrado na megalópole da Área da Grande Baía, passa por acolher empresas inovadoras de países de língua portuguesa que, beneficiando de vantagens fiscais e de custos, se instalam na região e servem diretamente um mercado de dezenas de milhões de pessoas. As semelhanças linguísticas, culturais e históricas tornam essa expansão mais acessível a partir de Macau do que a partir de outras grandes economias desenvolvidas.
Existe ainda um terceiro eixo, para além do financeiro e logístico: o conhecimento. As Universidades de Macau e dos países de língua portuguesa têm vindo a alargar significativamente a cooperação através de intercâmbios, conferências e projetos conjuntos. Essa rede pode evoluir para plataformas de investigação em áreas como novas tecnologias, inteligência artificial e computação, com potencial para gerar descobertas de escala global, sustentadas na qualidade reconhecida das instituições.
Forma-se, assim, um ecossistema que combina finanças, logística, inovação empresarial e produção científica. O projeto de integração económica e desenvolvimento da Grande Baía do Sul da China é, sem qualquer sombra de dúvida, uma oportunidade clara para aceder ao mar infinito de potencialidades de um dos maiores mercados do globo. Em Macau, encontra-se, precisamente, a “porta” de entrada óbvia, constituída por um enquadramento institucional, linguístico e financeiro que permite uma entrada mais suave.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Escrito por: Afonso Vilan
Editado por: Leonor Oliveira


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