Na longa-metragem que está em exibição nos cinemas, o diretor debate temas urgentes da sociedade atual como imigração e grupos supremacistas, em meio à discussão sobre o amor e a importância das redes de apoio.
Se você pudesse revolucionar o mundo ao seu redor e torná-lo um lugar bom para todos, por onde começaria? Há quem defenda que o plano inicial passaria pela luta armada ou pela necessidade de grupos duvidosos para defender ideais mais questionáveis ainda. No filme “Batalha atrás de batalha”, em exibição nos cinemas, o diretor Paul Thomas Anderson mostra que a resposta, que pode não ser tão simples de encontrar, mora em um lugar descomplicado e comum para muitos de nós: o amor.
É esse sentimento que guia Bob Ferguson, o personagem principal, interpretado por Leonardo DiCaprio, na busca pela sua filha quando a jovem é levada por antigos inimigos. Desafetos que, apesar de levantarem algumas risadas no cinema, são bastante assustadores e cruéis. E além de serem capazes de tudo, a equipe comandada pelo Coronel Steven J. Lockjaw, feito pelo brilhante Sean Penn, tem ainda algo valioso ao seu lado, o poder do Estado.
O motivo que leva ao rapto de Willa, interpretada pela estreante Chase Infiniti, é ainda mais cheio de crueldade. Quase absurda, se não fosse o atual crescimento de grupos supremacistas ao redor do mundo. Participante do processo seletivo de uma dessas sociedades secretas, que buscam pela “limpeza étnica”, o líder militar precisa apagar qualquer rastro de que já teve relacionamento com etnias além da branca. Willa pode ser a prova do contrário e um possível fruto de sua relação com a ex-companheira de Bob, Perfídia, que ganha vida por Teyana Taylor.

Caos que ajuda a contar histórias importantes
Todo esse quebra-cabeça, caótico e permeado por discussões atuais, acreditem, vem apenas no segundo ato do filme. O primeiro capítulo da longa-metragem é responsável por mostrar a vida de Bob e Perfídia, como membros do grupo revolucionário French 75.
Libertação de imigrantes ilegais em uma sala de detenção, explosões de bancos, planos quase infalíveis para destruir o sistema capitalista e lutar contra as opressões raciais ou de gênero. Esse é o cenário para os primeiros minutos do filme, os quais são suficientes para entendermos que o diretor quer nos prender até o último segundo. É também o tom do debate crítico e político que Anderson carrega nas entrelinhas do roteiro, suficientemente claro para quem acompanha as notícias atuais ou para quem olha o que circula pelas redes sociais.
Intensidade na tela e no formato VistaVision
As cenas são tão intensas, assim como os ideais de Bob e seus companheiros, que é quase impossível piscar diante da tela. A experiência é ainda mais cativante pelo formato em que foi filmada, por meio da tecnologia VistaVision, a qual faz com que o filme passe pelas câmeras de forma horizontal, assim como é mostrado na tela.
De acordo com os especialistas, o formato garante mais resolução, melhor qualidade e ainda revela um certo granulado, o que dá um estilo de fotografia ainda mais cinematográfico. O mesmo formato foi utilizado pelo recente filme “O Brutalista”, do diretor Brady Corbet e indicado ao Oscar em 2024. Seja pela tecnologia ou pela forma de usá-la, a produção garantiu uma das estatuetas mais disputadas, a de Direção de Fotografia, para Lol Crawley.
O que o filme ensina sobre a revolução do amor
Para conseguir chegar até Willa, o ex revolucionário Bob precisa de mais do que apenas o que aprendeu na época do French 75. Inclusive, depois de anos de abuso em álcool e drogas, pouco resta na memória dele. Ele então aciona com o apoio do professor de artes marciais de sua filha, Sensei Sergio St. Carlos, interpretado com gentileza por Benicio Del Toro. É Sensei que garante a arma, mas também o plano de fuga e o encorajamento necessário para que Bob saia da inércia ansiosa em que vive e possa encontrar a jovem.

Se Bob não tivesse esse amigo leal e pertencente à sua rede de apoio, talvez não conseguisse as ferramentas essenciais para chegar até a jovem. Se Bob não fosse guiado pelo sentimento simples que nasce de um pai para a filha, poderia ter desistido na primeira vez em que se viu sem respostas diante de tanta violência. Em meio ao caos e em um mundo que insiste em mostrar as piores versões dos seres humanos, amar e apoiar a rede de apoio em que pertencemos pode ser a ação mais revolucionária da atualidade.
A autora escreve em português do Brasil.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: IMDb
Escrito por: Carolina Marasco
Editado por: Margarida Simões


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