Sentei-me no café e… assisti a um acidente?

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Gosto de cafés onde ninguém me conhece. Não por ser misteriosa, mas por liberdade. Posso ser só mais uma pessoa a segurar uma chávena quente e a fingir que percebe o que está a fazer da vida.

Sento-me, peço um café e começo a olhar. Não de forma descarada, há toda uma técnica nisso. Olhar como quem não olha. É assim que se apanham as melhores coisas. O homem que ri sozinho antes de receber uma mensagem, a senhora que alisa o guardanapo como se estivesse a confortar um cão, o casal que claramente já discutiu antes de entrar mas agora mastiga em silêncio.

O café está cheio, mas ninguém está realmente ali. Estão todos a meio de outra coisa qualquer, um problema, uma mensagem por responder ou uma versão diferente de si mesmos. Eu incluída, claro. Observar os outros é só uma maneira mais aceitável de evitar olhar para dentro.

Depois, de repente, um… som?

Não é dramático como nos filmes, mas é um choque feio. Um carro e um autocarro encontram-se lá fora como dois desconhecidos que se odeiam à primeira vista. As chávenas param no ar por um segundo. Alguém diz “ei”, outro levanta-se, mas só até meio.

Eu penso “agora é que vai”, mas não vai. Ninguém corre, nem grita. Há uma pausa estranha, como se estivéssemos todos à espera que alguém mais qualificado para a vida tomasse conta da situação. Um homem levanta-se, dá dois passos na direção da porta… e volta atrás, como quem se esqueceu do motivo. A rapariga ao meu lado abre a câmara do telemóvel, não sei se para ajudar, para registar ou só para ter uma coisa para fazer com as mãos.

Lá fora, o carro está torto, vencido pelo autocarro. Este último continua inteiro, quase irritantemente inteiro, como aquelas pessoas que saem ilesas de discussões que deviam ter doído a ambos. Não parece grave, mas também não parece nada de que possamos fugir com uma piada. Então tudo continua e é isso que me fica preso. Não o acidente, isso resolve-se, imagino. É a rapidez com que voltamos. À conversa, ao café e ao scroll. Como se a realidade tivesse dado um encontrão leve e nós tivéssemos decidido não levar a peito.

Defesa, cansaço ou simplesmente prática? Fico a olhar para a minha chávena já fria e penso que passamos a vida assim. A assistir a pequenas colisões (nossas, dos outros) com uma certa distância. Não porque não nos importe, mas porque importar-se demais desorganiza o dia e ninguém quer desorganizar o dia antes do meio-dia.

Pago e saio. Ao passar pelo acidente, abrando o passo. Não paro, isso seria admitir demasiado interesse. Há pessoas a falar, alguém ao telefone e um condutor a gesticular como se pudesse explicar o inexplicável. Por um momento, penso em ficar e fazer parte, em perguntar se está tudo bem. Spoiler: não pergunto.

Sigo caminho com a estranha sensação de que não foi o carro que bateu no autocarro. Fomos nós que tocámos, de leve, numa coisa mais funda e recuámos imediatamente, como quem testa a água e decide que está fria demais. No café, era tudo observação e lá fora, já era outra coisa.

Mesmo assim, escolhi continuar a ser espectadora.

Esta história foi completamente inventada, não me sento num café há imenso tempo (e, na verdade, nem sequer bebo bicas). No entanto, fica a reflexão.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte da Imagem de Capa: Freepik

Escrito por: Matilde Lima

Editado por: Rita Luís

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