Acordamos e, quase sem pensar, pegamos no telemóvel. Deslizamos o dedo pelo ecrã, passamos por vídeos, fotografias, notícias, opiniões. Rimos, concordamos, ignoramos. Tudo parece espontâneo, quase aleatório. Mas não é.
Tudo o que vemos foi escolhido.
Não por uma pessoa, não por um acaso, mas por sistemas que trabalham em silêncio. Algoritmos que analisam cada gesto nosso, como o tempo que paramos num vídeo, aquilo em que clicamos, o que gostamos, o que ignoramos. Pequenos detalhes que, somados, constroem um perfil invisível. Um retrato digital de quem somos, ou de quem parecemos ser online.
E é a partir desse retrato que o mundo nos é apresentado.
Cada feed é diferente. Cada timeline é única. Aquilo que aparece no ecrã não é “o mundo” é uma versão filtrada do mesmo. Uma versão ajustada aos nossos interesses, às nossas preferências, às nossas reações. Vemos mais daquilo que nos prende, menos daquilo que nos desafia.
E, sem dar por isso, começamos a habitar uma realidade personalizada.
À primeira vista, parece conveniente. Recebemos conteúdos que nos interessam, evitamos aquilo que nos aborrece. Tudo se torna mais rápido, mais direto, mais “nosso”. Mas há um preço silencioso nesta eficiência.
Quando somos constantemente expostos ao que já gostamos, deixamos de ser confrontados com o diferente. As opiniões tornam-se mais homogéneas, as ideias mais previsíveis. O mundo encolhe, não em dimensão, mas em diversidade. E aquilo que pensamos começa a parecer mais consensual do que realmente é.
Porque vemos sempre mais do mesmo.
Os algoritmos não têm intenções morais, não distinguem verdade de mentira, qualidade de superficialidade. O seu objetivo é simples: manter-nos atentos. Quanto mais tempo passamos a ver, mais eficaz o sistema se torna. E, para isso, privilegia aquilo que prende, o que é rápido, emocional, imediato.
O problema é que o que nos prende e nem sempre nos acrescenta.
Neste cenário, os algoritmos deixam de ser apenas ferramentas técnicas e passam a ter um papel social. Influenciam o que consumimos, o que acreditamos, o que discutimos. Moldam tendências, amplificam vozes, silenciam outras. Sem rosto, sem responsabilidade direta, mas com impacto real.
E talvez o mais inquietante seja isto: tudo acontece sem grande resistência da nossa parte.
Aceitamos o que nos aparece. Raramente questionamos por que razão vemos isto ou aquilo. Confiamos na sequência infinita de conteúdos como se fosse natural. Como se fosse neutra.
Mas não é.
Há um filtro constante, invisível, que organiza a nossa experiência digital. E esse filtro, embora eficiente, não é necessariamente equilibrado. Mostra-nos aquilo que queremos ver e não aquilo que precisamos de ver.
Aos poucos, deixamos de procurar. Passamos apenas a consumir.
Talvez a verdadeira questão não esteja nos algoritmos em si, mas na forma como nos relacionamos com eles. Na facilidade com que entregamos aos mesmos. Na forma como confundimos conveniência com liberdade.
Porque, no meio de tanta personalização, há algo que se perde.
A possibilidade de escolher fora do esperado. De encontrar o inesperado. De pensar contra aquilo que já pensamos.
E, nesse sentido, a pergunta torna-se inevitável:
Estamos a explorar o mundo… ou apenas a ver aquilo que nos deixam ver?
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Ray Kurzweil on How We’ll End Up Merging With Our Technology (Published 2017)
Escrito por: Sofia Barros
Editado por: Rita Luís


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