Há uma fotografia que nunca existiu, mas que podia existir. Uma rapariga parada à porta de um liceu, nos anos 60, com uma bata branca demasiado engomada e um caderno apertado contra o peito. Não sorri. Não porque esteja triste, mas porque aprendeu que sorrir demasiado pode dizer coisas que não devem ser ditas. À volta dela, o mundo parece organizado, limpo e previsível. Dentro dela, nem tanto.
A bata branca, era um uniforme, mas também uma imposição obrigatória para as raparigas nos liceus do Estado Novo, uma espécie de segunda pele que servia para padronizar comportamentos e apagar individualidades. Cobria a roupa, escondia o corpo, evitava “excessos” e, sobretudo, marcava uma diferença clara em relação aos rapazes, que não estavam sujeitos à mesma regra.
Ser rapariga durante o Estado Novo era aprender cedo a diferença entre o que se faz e o que se sente. A escola ensinava a ler, a escrever e a contar, mas ensinava sobretudo a comportar-se. Durante muito tempo, nem sequer era certo que ali estivesse. A escolaridade obrigatória chegava mais tarde às raparigas, como se o conhecimento lhes fosse entregue com cautela, com desconfiança. Estudar era permitido, desde que não mudasse demasiado o destino.
Esse destino tinha contornos definidos. Não estava escrito num manual, embora pudesse estar. Via-se nos gestos das professoras, nas recomendações repetidas, na forma como o silêncio era premiado e a ousadia punida. A rapariga aprendia a sentar-se direita, a falar baixo e a não ocupar espaço a mais. Aprendia também que o futuro tinha portas, mas nem todas eram para si.
No recreio, que de recreio tinha pouco, quando já não existia a separação física entre rapazes e raparigas, havia linhas invisíveis a separá-los. Não era preciso sinalização, sabia-se. Como se sabe quando não se deve interromper um adulto ou quando se deve baixar os olhos. A bata branca ajudava a compor essa disciplina. Uniformizava, apagava as diferenças e escondia corpos. Do outro lado, os rapazes circulavam sem essa camada extra de controlo. A liberdade, ali, media-se pelo tecido.
Em casa, o discurso não era muito diferente. A escola servia, mas não demasiado. Era importante saber ler, escrever uma carta e fazer contas. Era importante, sobretudo, não esquecer que uma mulher devia ser discreta, competente e previsível. O resto podia ser perigoso. Havia sempre o risco de querer mais do que era suposto.
Ainda assim, alguma coisa começava a mexer. Nos anos 60 e 70, o país mudava. As famílias deslocavam-se do campo para a cidade, à procura de trabalho e de uma vida menos dura. Mais raparigas chegavam à escola, mais cadernos se enchiam, mais perguntas surgiam, mesmo quando não eram feitas em voz alta. A escola enchia-se, não apenas de alunos, mas de expectativas (nem todas seriam cumpridas).
Dentro das salas de aula, a ordem mantinha-se firme. Havia regras para tudo, incluindo para aquilo que parecia não precisar de regra nenhuma. Não se podia falar alto, não se podia contestar, não se podia organizar, não se podia sequer parecer demasiado interessada em mudar alguma coisa. As raparigas, em particular, sabiam que estavam a ser observadas. A forma como se vestiam, como se sentavam, como olhavam. Tudo podia ser interpretado.
Depois, havia o medo. Não era necessário que acontecesse alguma coisa para que o medo existisse, bastava a possibilidade. Bastava saber que havia limites e que alguém os estava a guardar.
Contudo, nem tudo era silêncio. Havia conversas sussurradas, livros lidos às escondidas, músicas que chegavam de fora e que pareciam abrir janelas onde antes só havia paredes. Havia raparigas que começavam a olhar para o mundo com uma curiosidade que não cabia nas regras. Algumas fumavam à porta da escola, outras distribuíam papéis que não deviam existir. Pequenos gestos, quase insignificantes, que no conjunto desenhavam qualquer coisa parecida com mudança.
Nem todas participavam, nem todas queriam e nem todas podiam. A maioria continuava a viver dentro do guião, a cumprir o que era esperado, a seguir um caminho que parecia já traçado. A opressão não se mede apenas pela resistência, mede-se também pela normalidade.
Quando hoje se fala de liberdade, tende-se a imaginar grandes gestos, momentos decisivos, datas que cabem num calendário. A vida destas raparigas lembra outra coisa. Lembra que a ausência de liberdade se constrói nos detalhes, nos hábitos, nas rotinas que parecem inofensivas. Lembra, talvez de forma mais incómoda, que nem sempre é preciso força para limitar alguém. Às vezes, basta ensinar-lhe desde cedo até onde pode ir.
A rapariga da fotografia que nunca existiu continua ali, à porta do liceu. Podia entrar, aprender e crescer. Podia até sonhar, desde que não fosse longe demais. O mais difícil não era obedecer, era perceber que havia mais para além daquilo e não saber muito bem o que fazer com essa suspeita.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem: Retirada do livro “Liceu de Camões 100 Anos 100 Testemunhos”
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Rodrigo Caeiro


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