A cultura portuguesa apresenta um traço curioso – a tendência para valorizar mais o que vem de fora do que aquilo que é nosso. De onde vem este enfeitiçamento, e será que devemos estar sobre ele? Seremos assim tão pequeninos?
Todos sabemos que um curso tirado em França tem mais prestígio, um artista americano é alvo de maior idolatração que um português e as palavras inglesas ajudam-nos a expressar ideias. “Like”, “literally”, “no way” aparecem no meio de conversas portuguesas como se fossem indispensáveis. Como se dissessem melhor aquilo que já sabemos dizer.
Talvez seja a cobiça do diferente, a romantização da cultura americana ou até uma mudança nos tempos que se materializa na língua. E não vou ser hipócrita, também o faço, mas preocupa-me o cenário maior.

“Portugal está cada vez mais transformado num país de analfabetos em relação ao seu próprio país. Acho lamentável que tudo isto se passe assim, com a literatura transformada numa espécie de papel higiénico e os próprios políticos a correr atrás da primeira moda com que se lhes acene”, critica Graça Moura no jornal Público.
Aparentemente a nossa auto-estima nacional é a quarta mais baixa de um ranking de 33 países, divulgado pela revista Economist. O sociólogo Manuel Villaverde Cabral, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explica que a “estrangeirização” é “um sinal do sentimento de inferioridade que os portugueses têm em relação aos outros países”.
Os portugueses não gostam de Portugal. Gostam do bom tempo, da praia, da comida, mas de forma geral, preferiam morar em outro lugar. E não os condeno: os fatores socio-económicos que explicam este descontentamento dão pano para mangas.
No entanto, quero alertar para os avanços que tivemos em 52 anos. A taxa de analfabetismo diminuiu de 25,7% (cerca de 2 milhões de pessoas) para menos de 3%. Apenas 3% da população possuía estudos superiores, em contraste com os atuais 23%. E, se restringirmos esse número apenas à faixa etária dos 25 aos 34 anos, essa percentagem cresce para 40%, como comprova o Estado de Educação 2023.
A esperança média de vida em Portugal é de quase 83 anos, mais um ano do que a média da UE. Somos considerados o 7º país mais seguro do mundo, segundo a Global Peace Index. O nosso ritmo de vida é calmo, valorizamos o tempo em família, somos um povo de proximidade que aposta na entreajuda, gostamos do lazer e da cultura.
Claro que podem considerar a minha opinião enviesada, sou uma portuguesa raiz e, genuinamente, adoro Portugal. Mas talvez ouçam um estrangeiro. Dave in Portugal é um youtuber americano que vive há 4 anos aqui. O seu conteúdo consiste na transmissão de conhecimento sobre o modo de vida português.
Os vídeos são extremamente interessantes, pois considera pacatas coisas que, para nós portugueses, são óbvias, como os horários dos restaurantes, acharmos rude usar chapéu e óculos de sol dentro de estabelecimentos, e considerarmos as velhotas relíquias nacionais, às quais temos de ceder sempre o nosso lugar ou deixar passar à frente nas filas. A maior ênfase que ele dá sobre a vivência portuguesa é o nosso ritmo de vida, explicando que foi dos maiores choques culturais que sentiu quando veio para cá.
A cultura americana é caracterizada pelo imediatismo; o rápido e o fácil acesso a tudo. Tudo está aberto 24 horas por dia e as pessoas almoçam enquanto andam apressadas para outro sítio. Em Portugal não. Comer em pé, para nós, é quase um ato de tortura. Em janeiro quase nada está aberto ou funciona em condições, as filas são demoradas, as lojas típicas fecham às 18h, e sempre que há sol fugimos todos das nossas responsabilidades para aproveitar para beber uma cerveja.

O ritmo de vida aqui é calmo e apostamos no lazer. No dia do apagão, como estava bom tempo, muitos foram para a praia e os outros foram socializar para a rua. E não me interpretem mal, não acho que chegamos cá sozinhos. A beleza está na mistura, a cultura portuguesa é rica porque, de facto, foi (e é) influenciada por outras culturas. Como Marcelo Rebelo de Sousa disse no Parlamento Europeu: não há “portugueses puros, mas diversos”.
Somos uma mistura da melancolia e da boa disposição. Filhos do fado e do pimba. Até dentro do nosso pequeno retângulo divergimos em costumes e estados de espírito: no norte mais vivaços e frontais, em Lisboa mais frios e ambiciosos, no Alentejo reina a tranquilidade e a melancolia, o sul a leveza e o prazer. Na Madeira a cordialidade e a tradição, já nos Açores a humildade e a proximidade. De facto, somos plurais.
Às vezes dá-me a sensação que os portugueses não gostam de nada. A típica atitude de responder a “Como vai a vida?” com “Eh, vai se andando já sabes como é”. Há muita coisa linda em Portugal. Diz-se que as mulheres espanholas são mais bonitas ou que os homens portugueses são baixos, mas acho que isso é um sintoma próprio português de valorizar o que é de fora. “A galinha do vizinho é sempre melhor que a minha”. Temos artistas incríveis, grandes pensadores, dizeres só nossos. Pudera, somos um país com 883 anos.
Podemos alterar esta consciência coletiva que Portugal cada vez está pior para uma mentalidade mais clara e otimista. Talvez ainda estejamos em mudança, a cicatrizar feridas do passado enquanto cometemos muitos dos mesmos erros. Há uma grande insatisfação dos portugueses para com o nosso país, muito condicionado pelos governantes que temos tido. Portugal é um país tipicamente pobre, mas a meu ver, é extremamente rico. Rico em pessoas e em cultura. Que talvez um dia alterem os nossos bolsos, também.
Como a minha mãe me costuma dizer “Não nasceste rica ,mas fiz-te bonita, dei-te o mais importante. Do resto tratas tu.” Acredito que o mesmo se aplique a Portugal.
“Eu não pedi para ser português, apenas tive sorte”, desconhecido.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Pinterest
Escrito por: Sara Reis
Editado por: Cristina Barradas


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