Hoje escrevo para todas as pessoas que não escrevem, que não dizem, que não fazem, que não amam, que não… simplesmente. É preciso fazer algo sobre a onda nonchalant.
Por que uso a palavra pacata? Ora, o Homem sempre teve o desejo de se diferenciar dos seus pares. Somos seres naturalmente egoístas e adoramos sentir-nos diferentes dos outros. No entanto, de forma muito pacata, já ninguém quer mostrar que gosta de nada.
Acredito que tenha começado nas redes sociais (como a maior parte dos fenómenos que abrangem a nossa geração), com consequências na vida real. As pessoas não dizem que gostam umas das outras, dizem que os outros são “fixes”; não mostram interesse pela arte, veem reels no Instagram sobre o que está na moda; não são honestas quanto às suas aspirações ou preferências, talvez por acreditarem ser mais seguro gostar do que todos gostam.
O que mais me aflige são as repercussões que isto tem nas relações interpessoais. Como adivinhaste que sou estudante de sociologia? Enfim, continuando. Sinto um medo nas pessoas que caíram na, vamos chamar, “armadilha do não me importo”, de mostrar interesse, seja por quem for.
Têm amizades porque sim, porque calhou; se namoram é porque a outra pessoa quis; se mostram que gostam do pai já é uma sorte. Todavia, acredito que essa atitude é uma farsa – daí achar pacato. Funcionando como um mecanismo de defesa para nunca se magoarem.
Aquela velha ideia de que “não consegues magoar alguém que não tem nada a perder”. Um quase medo de ser diferente e, por isso, tentam ser o mais “normal” possível. Nunca mostrando que algo os magoa ou incomoda, ao mesmo tempo que julgam e ridicularizam quem tem sentimentos.
A apatia está na moda, e há muitos fatores que contribuem para isso: o individualismo crescente, o uso excessivo das redes sociais, o sentimento de incerteza que o mundo nos proporciona, etc. É normal usar a “armadilha do não me importo” como proteção.
Todavia, não me encontrarão nesse poço. Acredito piamente que é uma bênção todas as pessoas que temos a sorte de conhecer. Somos muitos no mundo; a probabilidade de conheceres a tua melhor amiga era baixíssima; até a probabilidade de teres a tua mãe como mãe era minúscula!
Aliás, a probabilidade de nasceres foi de 1 para 400 triliões. É uma sorte estarmos vivos e experienciarmos o mundo neste espaço de tempo que temos. A vida é incerta e dá muitas voltas, por isso devemos estimar quem temos a sorte de conhecer.
Interessantemente, acompanhando essa apatia, vem a crença de que os outros são horríveis. Seres cheios de falhas e que deviam trabalhar em si mesmos. É natural quem está na armadilha acreditar que há melhor por aí. E até pode ser verdade, mas argumento que as pessoas não deveriam ser tratadas de forma descartável como fazemos hoje em dia.
A probabilidade de conheceres aquela pessoa específica é baixa; no entanto, a vida
juntou-vos por alguma razão. Se correu bem, ótimo; se correu mal, foi porque precisavas de aprender algo. Há quem culpe Deus, eu culpo o universo, outros o Mercúrio retrógrado ou o joelho da avó que dói quando está frio. Mas é quase um consenso entre nós acreditar que tudo acontece por alguma razão.
Talvez o façamos para sentir algum controlo nesta bola de terra e água que gira em volta do Sol e de si mesma. Mas divago. O meu objetivo é apelar a que te importes com as pessoas que conheces e com as que não conheces. Na realidade, todos os estranhos estão à distância de um “Olá, tudo bem?”.
Diz às pessoas que gostas delas, manda a mensagem, pede para seguir, perde o medo de ser cringe. Há uma frase que circula na internet de que gosto muito: “Tu achaste cringe, eu achei engraçado, e é por isso que sou mais feliz do que tu”. As pessoas vão nos sempre magoar, é das poucas certezas que temos na vida. E qual é o mal? Pelo menos fomos honestos com o que gostamos e queremos- algo que parece raro encontrar.
E, se procurares por mim, estarei perto das pessoas que tenho a sorte de serem cringe comigo.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Sara Reis
Escrito por: Sara Reis
Editado por: Íngride Pais


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