Hoje em dia vivemos rodeados de escolhas. O que vestir, onde comer, que café pedir, que telemóvel comprar, que sítio frequentar. À primeira vista, parecem decisões simples, quase automáticas, parte da rotina diária. Mas talvez não sejam tão inocentes quanto parecem.
Durante muito tempo, consumir significava, sobretudo, responder a necessidades básicas. Comprava-se o que fazia falta, o que era útil, o que resolvia problemas concretos. Hoje, essa lógica mudou. O consumo deixou de ser apenas uma questão de necessidades e passou também a ter um valor simbólico. Já não serve só para ter. Serve também para mostrar, para comunicar, para dizer qualquer coisa sobre nós.
E é precisamente aqui que surge a pergunta: consumimos para ser ou para parecer?
Hoje, quase tudo aquilo que escolhemos pode transmitir uma imagem. A roupa que usamos, o sítio onde vamos tomar café, o restaurante onde jantamos, a marca do telemóvel que temos ou até a forma como decoramos a nossa vida nas redes sociais. Nada disto é completamente neutro. Cada escolha pode funcionar como um pequeno sinal, uma forma de mostrar gostos, estilo de vida ou estatuto.
Muitas vezes, nem pensamos nisso de forma consciente. Simplesmente escolhemos. Mas a verdade é que essas escolhas dizem mais do que parece. Já não compramos apenas pela utilidade das coisas. Também compramos pelo significado que elas carregam e pela imagem que ajudam a construir.
As redes sociais tornaram esta lógica ainda mais forte. Hoje, não basta viver uma experiência, quase parece que é preciso mostrá-la. Um jantar deixa de ser só um jantar. Uma viagem deixa de ser só uma viagem. Um café, uma compra ou até um momento banal podem transformar-se em conteúdo. E quando tudo pode ser mostrado, o consumo deixa de ser apenas pessoal. Passa a estar ligado à forma como queremos ser vistos pelos outros.
É por isso que o consumo se tornou tão relacional. Não consumimos só porque precisamos ou porque gostamos. Muitas vezes, consumimos também para sermos reconhecidos, aceites ou admirados. Para sentirmos que pertencemos. Para nos aproximarmos a uma certa imagem de sucesso, de beleza ou de estatuto que vemos constantemente à nossa volta ou nas redes sociais.
E é aqui que a questão se torna mais complicada. Até que ponto aquilo que escolhemos é mesmo nosso? Até que ponto gostamos de alguma coisa porque gostamos realmente ou porque aprendemos a gostar dela? Vivemos rodeados de publicidade, influenciadores, tendências e algoritmos que moldam aquilo que vemos e desejamos. Muitas vezes achamos que estamos a escolher livremente, mas essa escolha já foi influenciada antes mesmo de acontecer.
Isto não quer dizer que tudo seja falso ou superficial. Nem significa que consumir seja algo negativo. Consumir faz parte da vida social. É normal, necessário e até pode ser uma forma de prazer ou expressão pessoal. O problema começa quando o mais importante deixa de ser aquilo que a coisa é ou a utilidade que tem, e passa a ser a impressão que causa nos outros.
Quando isso acontece, o consumo aproxima-se da aparência. Deixa de estar ligado apenas àquilo que somos e passa a estar ligado àquilo que queremos parecer. E, sem nos apercebermos, começamos a orientar muitas das nossas escolhas mais para fora do que para dentro. Mais para o olhar dos outros do que para aquilo que realmente faz sentido para nós.
Talvez seja por isso que, mesmo vivendo num mundo cheio de produtos, experiências e possibilidades, tantas vezes aparece uma sensação de vazio. Não porque faltem coisas, mas porque há coisas a mais a tentar dizer quem somos. Quando tudo comunica alguma coisa, torna-se mais difícil perceber o que é genuíno e o que é apenas encenado.
No fundo, a verdade é que hoje consumimos pelas duas razões. Consumimos para ser, porque as nossas escolhas também podem refletir gostos, valores e formas reais de estar no mundo. Mas consumimos também para parecer, porque vivemos numa sociedade onde a imagem conta, onde tudo pode ser mostrado e onde o olhar dos outros tem cada vez mais peso.
Por isso, talvez a questão não seja escolher apenas uma das respostas, mas pensar no equilíbrio entre as duas. Consumir faz parte da vida, mas não devia substituir aquilo que somos. E talvez seja essa a reflexão mais importante: perceber se estamos a escolher por vontade própria ou se estamos apenas a seguir uma imagem que sentimos que precisamos de sustentar.
Porque, no meio de tantas escolhas, continua a haver uma pergunta essencial: estamos a consumir para expressar quem somos ou apenas para parecer aquilo que os outros esperam ver?
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Pin em art
Escrito por: Sofia Barros
Editado por: Íngride Pais


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