Ministério dispensa Saramago e o pensamento

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Há um padrão que já não consegue ser disfarçado com linguagem técnica nem com comunicados bem polidos. As políticas educativas do Ministério da Educação, Ciência e Inovação parecem ter entrado numa deriva onde a pressa em reformar substituiu qualquer reflexão sobre o que se está a destruir pelo caminho. Fernando Alexandre tutela um sistema que se anuncia em mudança constante, mas cuja direção parece cada vez mais difícil de justificar sem recorrer a eufemismos.

A mais recente decisão de tornar opcional o ensino de José Saramago, encaixa nesta lógica com uma clareza desconfortável. Não se trata apenas de um ajuste curricular, trata-se de um sintoma. O único Nobel da Literatura português deixa de ser obrigatório num país que já tem dificuldade em garantir a presença consistente do pensamento crítico na formação dos seus alunos. O gesto não é neutro, é uma forma silenciosa de dizer que até o essencial pode ser dispensado.

O problema é que esta tendência não surge isolada. Soma-se a outras opções que vão tornando o percurso educativo mais estreito no acesso, e mais leve no conteúdo. Enquanto se levantam barreiras ou se aumentam pressões no acesso ao ensino superior assiste-se, em paralelo, a uma espécie de empobrecimento progressivo do ensino secundário, como se o sistema estivesse a ser comprimido por ambos os lados ao mesmo tempo.

Fala-se em eficiência, em reorganização, em modernização, mas no terreno o que se vai sentindo é outra coisa. Menos exigência real, menos contacto com obras estruturantes, menos espaço para o pensamento demorado. A escola vai perdendo densidade e ganhando uma aparência de funcionamento que esconde mal a erosão do essencial.

No fim, sobra a impressão de um sistema educativo que já não se limita a ser instável, mas que começa a normalizar a própria fragilidade. E quando até Saramago passa a ser opcional, a questão já não é apenas o que se ensina. É o que se está, deliberadamente ou não, a deixar de ensinar.

Como escreveu José Saramago, “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.” E talvez seja precisamente isso que está a ser tratado como opcional.

Fonte da Imagem de Capa: RTP Madeira

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Ricardo Farto

Editado por: Cristina Barradas

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