O que vão ler a seguir, escrevi há algum tempo. Não o partilhei na altura, ainda não sabia se queria que alguém soubesse. Hoje reli-o e percebi que há coisas que deixaram de ser verdade, mas que alguém se pode rever nelas. No final, deixo-vos o que mudou.
24 de novembro de 2025
Há coisas que nunca digo em voz alta. Como o tempo que já perdi a olhar para o meu corpo como se fosse um problema para resolver. Como já cancelei planos porque não me sentia “bem o suficiente” para existir em público. Como já me escondi em fotografias (ou atrás delas).
Por fora, ninguém percebe. Rio, converso e apareço. Contudo, há um diálogo constante que me acompanha, “podia ser melhor”, “não está certo” ou “não assim”.
O mais estranho é que eu sei que não estou sozinha nisto. Vivemos rodeados de pessoas que parecem confortáveis na própria pele, mas que, em privado, travam as mesmas batalhas. Pessoas que também aprenderam a medir o próprio valor em centímetros, em números e em reflexos.
Não me lembro exatamente quando começou. Talvez tenha sido num comentário pequeno demais para ser levado a sério, mas grande o suficiente para ficar. Talvez tenha sido aos poucos, com imagens ou comparações e expectativas. Quando dei por mim, já não estava só a olhar para o meu corpo, mas a julgá-lo.
Isso cansa. Cansa nunca desligar esse olhar crítico, sentir que há sempre uma versão “melhor” de mim à qual ainda não cheguei e viver como se o corpo fosse um rascunho, algo temporário e sempre em revisão.
Às vezes pergunto-me quanto da minha vida foi adiado por causa disso. Quantos dias de verão vivi pela metade. Quantas roupas deixei de usar. Quantas vezes me encolhi, não fisicamente, mas na forma como ocupei espaço.
Tudo isto por causa de uma ideia de como eu devia ser.
30 de março de 2026
Há uns tempos que algo está a mudar. Tempos em que o meu corpo deixou de ser um inimigo e passou a ser só meu. Em que reparo menos no espelho e mais no que estou a viver. Em que a minha atenção sai da aparência e entra na experiência.
Nesses tempos, percebo uma coisa simples, um pouco óbvia: o meu corpo nunca me impediu de viver, fui eu que esperei pela sua permissão.
É por isso isso que ninguém nos diz. Não precisamos de chegar a um corpo ideal para começar a viver dentro dele. Ainda estou a aprender isso, mas também tenho uma vontade nova de fazer as pazes comigo.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de Capa: Freepik
Escrito por: Matilde Lima
Escrito por: Cristina Barradas


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