No quotidiano frenético em que nos inserimos, entre prazos de entrega que parecem questões de vida ou morte e a ansiedade constante por um futuro que teimamos em planear ao detalhe, raramente nos detemos para confrontar a fragilidade do agora.
Se o mundo terminasse no último minuto de hoje, o silêncio que se instalaria sobre os corredores desta faculdade seria, talvez, a nota mais honesta e profunda da nossa existência.
Vivemos, por inerência académica, numa projeção constante. Estudamos para uma carreira que ainda não temos, poupamos para uma estabilidade que ainda não alcançámos e adiamos a nossa felicidade para o momento em que o diploma nos chegue finalmente às mãos. Nesta espera perpétua, acabamos por tratar o presente como um mero rascunho, uma sala de espera onde a vida real ainda não começou.
Contudo, perante a hipótese do fim, essa ilusão de continuidade dissolve-se. Perceberíamos, com uma clareza dolorosa, que passámos demasiado tempo a polir o currículo e pouco tempo a cultivar a alma.
As noites em claro na secretária, o café bebido à pressa e a obsessão por uma décima na nota final perderiam subitamente todo o seu peso.
O que restaria, no fim de tudo, seriam as coisas invisíveis, aquelas que não cabem numa folha de exame nem se traduzem em créditos académicos.
Restariam os fios que nos ligam aos outros, o pedido de desculpa que ficou guardado por orgulho, o abraço que apressámos para não chegar atrasados à aula e todas as palavras de afeto que deixámos presas na garganta porque acreditámos que haveria sempre um amanhã para as dizer.
Esta reflexão não pretende ser um exercício de morbidez, mas sim um ato de resistência e de revalorização da vida. Pensar na finitude do mundo hoje é, na verdade, um convite urgente para começarmos a viver com intenção. A verdadeira tragédia da nossa jornada não é o fim inevitável, mas sim a possibilidade de chegarmos a esse momento percebendo que nunca estivemos verdadeiramente presentes.
O amanhã é uma construção teórica, uma promessa que ninguém assinou, enquanto o hoje, com todas as suas imperfeições, é a única posse real que nos pertence.
Se o mundo não acabar hoje, que este pensamento nos sirva para sairmos da próxima aula com um olhar diferente sobre quem caminha ao nosso lado. Que saibamos ouvir o som do vento, que tenhamos a coragem de ligar a quem amamos sem um motivo especial e que, acima de tudo, sejamos mais gentis com a nossa própria Humanidade.
No final, não seremos avaliados pelo que acumulámos, mas pela forma como escolhemos habitar cada segundo que nos foi concedido.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da Imagem de Capa: Gerado no Gemini por Inteligência Artificial.
Escrito por: Matilde Lima
Editado por: Margarida Simões


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