Nesta edição do “Cronicamente Dramática”, Rita Cardona fala sobre aquele tipo de pessoa que olha para uma receita e pensa: “isto é só uma sugestão”. Gente que troca ingredientes, ignora medidas e depois fica genuinamente surpresa quando o prato corre mal. Uma crónica sobre o caos culinário… e a confiança injustificada de quem acha que sabe cozinhar.
Uma pergunta: uma cenoura é uma laranja?
E 10 gramas é o mesmo que 20?
Então porque é que continuam a alterar receitas à espera de que o resultado seja exatamente o mesmo?
Hoje vou falar de uma das mil e uma coisas que me fazem perder a cabeça:
Pessoas que alteram as receitas.
As receitas são um passo a passo. Uma regra. Um guião.
Não se constrói uma casa a partir do telhado, pois não?
E se preciso de 6 tijolos não vou usar 4 a pensar que fica igual.
Pode ser do meu TOC ainda não identificado clinicamente, mas esta mania de reinventar pratos dá-me comichão. Especialmente quando vem dos famosos chefs sem diploma, aqueles que acham que manteiga e margarina são praticamente a mesma coisa.
Num jantar de família, um parente decidiu fazer um salame de chocolate.
O que saiu de lá foi uma interpretação muito livre do conceito.
A receita pedia 200g de manteiga.
A resposta do ser iluminado:
— “Ah… só tenho 120g, mas está ótimo!”
Isto… com o mini mercado ainda aberto e a 10 passos de casa.
Depois vinha a parte das 200g de chocolate em pó, para equilibrar a coisa, certo?
Errado.
Pôs mais do que o pedido… e não era chocolate, era cacau 80%.
Aqui, eu já sabia que aquela obra não ia correr bem só pela má matemática, mas a esperança atirou-se da ravina de cabeça quando ele começa a colocar o iogurte…
A substituir a bolacha mais portuguesa de sempre por frutos secos e aveia, porque supostamente viu noutra receita que “ficava crocante”.
Meus caros, um bolo de cenoura não vai ser de cenoura se vocês substituírem por batata-doce ou por laranja porque são da mesma cor…
As regras existem por um motivo.
Se querem armar-se em Leonardo Da Vinci das batedeiras, façam para vocês, não para um jantar de família inteira, como se tivéssemos todos assinado um termo de cobaia.
Moral da história e sem qualquer surpresa:
Apenas dois corajosos se aventuraram a provar fatias mais finas do que uma folha de papel A4: o cozinheiro nato, claro, e o coração mais mole e empático da sala.
O resto da família fez o que qualquer pessoa sensata faria:
olhou, avaliou o “salame de chocolate com crise de identidade”
e passou discretamente à sobremesa seguinte.
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem da capa: Freepik
Escrito por: Rita Cardona
Editado por: Rodrigo Caeiro


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