Em um contexto político cada vez mais marcado pela polarização, as Jornadas da Sociologia vieram oferecer algumas respostas. Escrevo este artigo com enfoque no dia 25 de fevereiro, o dia do ISCSP.
As Jornadas da Sociologia foram um evento inédito, contando com a organização conjunta dos núcleos de Sociologia da faculdade do ISCTE, da Nova e do ISCSP. “Durante 3 dias, Lisboa torna-se palco de discussão crítica, troca de ideias e construção coletiva de pensamento sociológico.”, escreve o ISCTE.
Focando me nas temáticas abordadas no dia 25, uma vez que tive a oportunidade de assistir aos 4 painéis e captar imagem pelo NES, destaco o último debate: “Democracia em tempos de incerteza”. Contou com a presença de Augusto Santos Silva, sociólogo e ex-presidente da Assembleia da República, David Justino, sociólogo e ex-ministro da Educação, com moderação do jornalista David Dinis.
No final da palestra, tive a oportunidade de dirigir uma pergunta ao painel, pelo que referi a subida do conservadorismo nos mais jovens, sobretudo entre os rapazes. Questionei: O que poderíamos fazer? Como chegar a estes jovens que se fecham nas suas bolhas políticas? No fundo, como poderíamos promover boas relações interpessoais entre pessoas de ideologias tão distintas?
O primeiro a responder foi David Justino, que propôs continuarmos a criar espaços de debate como o que tínhamos construído ali. Augusto Santos Silva, por outro lado, enumerou três passos simples: ouvi-los, tentar compreendê-los e seduzi-los.
Depois de risos, este explicou que a sedução- a arte de convencer o outro- está presente em toda a política. A ideia central era clara: excluir ou desistir destes jovens não é solução. Pelo contrário, só reforça o ódio e a polarização.
O Jornal Público afirma que um terço dos homens da geração Z tem visões mais conservadoras que homens dos anos 60.
Esta realidade é preocupante, e chocante como apontou Augusto Santos Silva. É a prova que, de facto, é possível recuar. Como escreveu Simone de Beauvoir, importante escritora feminista e teórica social francesa:

Vivemos numa época onde os direitos das mulheres (como de tantas outras minorias) estão praticamente todos garantidos no papel. Todavia, essas liberdades são discutidas em cafés e nos corredores das faculdades.
Um dado recente indica que 31% dos jovens portugueses acreditam que a mulher deve obedecer ao marido, muitas vezes com base na ideia de que o homem é o principal provedor. Este argumento ignora a realidade: o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos continuam, na maioria dos casos, a recair sobre a mulher. Sobretudo em lares mais conservadores.
Essa assimetria torna-se evidente em situações de crise. Quando o homem adoece, é comum que a mulher acumule funções e assegure a estabilidade da casa. Já quando a mulher adoece, muitos homens enfrentam dificuldades em assumir tarefas domésticas, recorrendo a ajuda externa ou mantendo a sobrecarga na parceira, mesmo doente.
“Homens têm mais dificuldade do que mulheres em lidar com o declínio de saúde da parceria, o que pode comprometer a estabilidade da união”. Enquanto o inverso quase não se verifica. Isto sugere que o papel de “provedor” não é, na prática, o único, nem necessariamente o mais estrutural para o funcionamento da vida familiar.
A linha de pensamento conservadora defende que a mulher é mais frágil e deve ser protegida. Sobretudo de outros homens. No entanto, quando surgem denúncias de violência, muitos desses mesmos homens reagem com desconforto, insistindo que “nem todos são assim”.
O contraste é evidente, já que são também eles que impõem restrições, como criticar a forma como as parceiras se vestem ou quando saem. Justificando-se com a ideia de que “sabem como os homens pensam, e maior parte são nojentos”. Ou seja, reconhecem o risco, mas deslocam o foco da responsabilidade para o comportamento das mulheres.
Isto revela um paradoxo difícil de ignorar: se os homens são perigosos o suficiente para que as mulheres necessitem da proteção de outros homens, em que homens devemos confiar?
Também afirmam que o homem é mais sexual que a mulher, que naturalmente precisa de muito e com diversas parceiras. Mas quando alguma mulher mostra o mesmo interesse, não é vista com bons olhos.
Esta lógica sempre me causou confusão, achava que o interesse deles era satisfazer as suas necessidades biológicas. Mas dizem às mulheres que se forem muito rodadas ninguém as vai querer. Porquê rebaixar uma mulher que quer fazer contigo exatamente o que queres que ela faça?
Para sustentar os seus argumentos também dizem que as mulheres nunca inventaram nada. Sem saber que o Wi-Fi, Bluetooth, bases do GPS, o frigorífico elétrico, o bote salva vidas, a máquina da loiça, a seringa de uma mão, entre outros, foram inventados por mulheres. Sinceramente, acho incrível que as poucas invenções femininas que temos conhecimento sejam tantas. Já que grande parte das suas invenções recebiam o nome dos seus maridos nos créditos.
Estes falsos dilemas e apelos à ignorância demonstram que o conservadorismo não é fruto da razão, mas sim da dominação.
Promover pensamento crítico não é apenas incentivar opiniões- é ensinar a fundamentá-las, a questionar fontes e a lidar com o desacordo. As Jornadas da Sociologia mostraram que o diálogo ainda é possível. Mais do que isso: mostraram que, atualmente, é fundamental. Num tempo em que o desentendimento tende a gerar afastamento, insistir na escuta, na compreensão e na argumentação pode parecer insuficiente: mas é, provavelmente, uma das poucas respostas que temos.
A desigualdade possui hoje em dia um carácter cultural- é a opressão que teima a não desaparecer. O desafio dos sociólogos nos próximos tempos será perceber o que causou esta vaga de conservadorismo, e dentro da Assembleia, garantir a preservação da democracia. Assim, é importante, como disse David Justino, repetir estas iniciativas, pois é na partilha de ideias que crescemos como seres humanos.
Para o ano, esperamos que Lisboa receba com ainda mais entusiasmo estas Jornadas!
Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fonte da imagem de capa: Sara Reis
Escrito por: Sara Reis
Editado por: Maria Francisca Salgueiro


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