Palestina 36: a tua terra é onde o teu povo está enterrado

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Que esperar de uma dádiva de paz decidida por atores externos, tendo como suposto objetivo: fazer florescer num território, lado a lado a cultura ocidental e oriental, sem a participação e a aprovação de um dos lados? Sendo os excluídos as mães e os pais dessa terra. O que esperar quando o lado oprimido jura que não será exilado? A obra cinematográfica “Palestina 36”, que estreará dia 19 de março nos cinemas portugueses, representa um fragmento dessa história.

“Palestina 36”, possibilitado num visionamento de imprensa no UCI EL Corte Inglês, é realizado por Annemarie Jacir. O drama histórico “coloca a história palestiniana onde ela pertence: na luz, no grande ecrã. Um filme sobre pessoas comuns a viver um momento extraordinário: a revolta árabe de 1936 e a comunidade que a sustentou”. Num período de dominação imperial britânica e de migração em massa da comunidade judaica europeia, vítima da ascensão do fascismo, observamos a marginalização. Simultaneamente, vemos a consequente substituição e agressão sofridas pelo povo palestiniano. Em resposta, percebemos a reação dos árabes a este fenómeno. Nesse contexto, vemos a sua união cada vez mais forte. Uma luta reivindicativa, que advém da necessidade de oposição para sobrevivência coletiva.

A paisagem da Cisjordânia dos anos 30 envolve-nos naquela que será a personagem principal de “Palestina 36”: a Palestina. No momento apresentado, existe um projeto de dominação e ocupação em curso, iniciado pelos britânicos, protagonizado e reforçado pelos zionistas europeus deslocados. Num bate-volta contrastante entre a cidade de Jerusalém e o campo da aldeia de Al-Bassa, acompanhamos Yusuf. O palestiniano gravita entre o urbano e o rural, entre o ambiente privilegiado de festas boémias e a agressividade dirigida aos seus próximos. Adotando, inicialmente, uma posição apolítica, com o crescimento das tensões e das violências cometidas pelos britânicos, percebemos que a decisão de Yusuf de se organizar nas forças rebeldes vem de uma necessidade de sobrevivência. Não há opção. Tal como noutras personagens, como é o caso concreto de Khalid, operário palestiniano que se radicaliza, define-se uma linha bastante clara. A revolta e a sua adesão começam devido a uma questão de substituição de mão de obra e de tomada de terras, dadas aos colónos. A escalada da desumanização e opressão do povo palestiniano leva episódios de extrema brutalidade, um dos quais é resistido de forma destemida por mulheres que, com pedras, o que está à mão, enfrentam os militares britânicos.

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O filme agarra-se à completude dos factos. É uma peça sensível e forte. Na minha perspectiva, a sua importância e o seu diferencial residem no apoderamento da narrativa contada à audiência. Explica a evolução de acontecimentos que ajudam a entender a atualidade. Vários momentos relevantes e interligados moldam a maior revolta palestiniana até 1948. Também instrui os dispostos sobre a história do Estado da Palestina. A morte para os residentes não é nada comparada à ideia que atravessa o tempo. Defender o justo, a terra e a comunidade é um gesto inspirador de coragem.

Outro ponto forte é, sem dúvida, toda a sua produção. Durante esse período, o projeto, desenvolvido ao longo de 10 anos, enfrentou vários obstáculos. Houve perda de locais de filmagem devido à ocupação por colonos. Existiram também riscos de segurança durante as gravações. Os atores poderiam ser confundidos com combatentes, o que colocaria as suas vidas em perigo. A produção sofreu interrupções constantes. Além disso, a equipa chegou mesmo a ser evacuada, tendo trabalhado temporariamente na Jordânia durante 13 meses por razões de segurança.

“É quase milagroso como um filme como este conseguiu ser produzido e lançado. Falado em árabe, gravado na Palestina, com atores palestinianos e outros atores famosos.”.

Além disso, através da apresentação de pequenos registos de momentos reais capturados, alterados com inteligência artificial, atribuindo-lhe uma certa coloração, a obra demonstra que o passado não é tão distante. A diretora revelou que queria que o filme “parecesse vivo”, e por isso era importante misturar ficção e realidade. As imagens ganharam ainda mais significado quando alguns locais se tornaram inacessíveis com o agravamento da guerra. “Palestina 36” revela a que veio.

Essencialmente, a metragem centra-se na revolta das colinas, uma afirmação de identidade, memória e perseverança de uma comunidade que se mantém firme, mesmo diante das ocupações e das tentativas de apagamento. Não há forma melhor de finalizar este artigo do que com palavras expressas no próprio filme, que capturam o cerne da luta: “os ingleses proíbem o kufiya e há um mar de kufiya na rua”. Esse mar de kufiya, tecido de gente, lembra-nos que o passado permanece visível, e que conhecer a nossa história é essencial para compreender quem somos e para onde queremos ir.

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Este artigo de opinião é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Fonte Imagem de Capa: https://www.instagram.com/reel/DTF8b8NCJwz/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

Escrito por: Carolina Dinis

Editado por: Maria Francisca Salgueiro

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