Nascido em Penamacor em 1962, António José Seguro construiu um longo percurso dedicado ao serviço público que culminou na sua eleição como Presidente da República Portuguesa em fevereiro deste ano, com a maior votação do país num sufrágio presidencial. A 9 de março de 2026, assume esta responsabilidade com a honra e a vontade de um povo unido.
Lá ao longe, uns rapazes fogem à noite do Externato Nossa Senhora do Incenso. Quiçá não tão longe. Acredita-se que são amigos. Talvez brincando, talvez tentando chamar a atenção. Tinham 16 anos. Um deles entrou, abriu a porta principal e retirou os comunicados da escola. Nessa traquinice dormia uma causa justa; entraram no seu colégio para destruir o regulamento, cujas sanções consideravam ser “coisa de outro tempo”. Era a língua da luta. A demonstração da incipiente beligerância de quem muda o lar que leva consigo; a união como melhoria nascida do movimento; a vontade que António José Seguro sempre carregou dentro de si.
O pai geria uma papelaria, a mãe era doméstica. Mais um filho da classe trabalhadora corria rumo ao amanhã com esperança e vigor. “Fui muito feliz. Eu tinha 12 anos quando foi o 25 de abril. Tudo era novidade, tudo era conquista, tudo era possível”. A queda do Estado Novo reinterpretou a realidade. As associações e greves surgiram, as comissões de censura desapareceram. Por volta dos anos 90, um jovem António José lidera a Juventude Socialista para defender os interesses portugueses, fazendo “aquilo que era preciso e que a terra não tinha”.
Em Guterres, então Secretário-Geral do PS, encontrou uma mão para apertar. Um percurso pautado por fé e trabalho. Novas estradas em subida perante ele, prontas a ser percorridas: Chefe de Gabinete, Deputado, Comissário Permanente do Secretariado Nacional e até Secretário de Estado da Juventude. Mas Portugal já era pequeno demais. As ambições expandiram-se, tal como ele próprio, até à Bélgica, nação onde o seu trabalho recebeu o alvor de um novo século de carências e do iluminismo dos ecrãs. O passado dilui-se com as novas formas expressivas; as escolhas políticas fazem parte de histórias e prioridades com outras capas.
Com o avançar dos anos, atingiu a paciência de conviver com os retalhos desleixados da fragilidade nacional e europeia. De não ficar “atrás da porta a gerar dificuldades” ou manter-se numa sombra pesada na discordância. A liderança do PS acabou por chegar, mas, com a vitória de António Costa, percebeu que ir-se embora era melhor do que ficar onde não era querido. “Cheguei ao ponto mais alto e, não havendo o passo seguinte, que era poder ser candidato a Primeiro-Ministro, não ia ficar numa situação em que não me sentia confortável”, porque saltar para o vazio é também um ato de respeito e gratidão perante o cidadão. Não procurava vingança nem opulência. Trocou o estrado do Parlamento pelo giz, doutorou-se e encontrou no ISCSP um segundo lar.
Um homem comprometido com a docência e com a visão juvenil sobre a democracia. No entanto, há oito meses anunciou que seria candidato à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, numa candidatura individual pautada pela linguagem da moderação. “Saí quando podia dividir e volto agora para unir. Sei o que está em jogo e sei como defender Portugal com firmeza e respeito”. O desenlace chegou. A 9 de março, foi proclamado Presidente da República. Não hesitou e realizou um encontro na sua antiga casa académica, sendo acolhido por trezentos estudantes. “Olha o Professor! Viva o senhor professor! Viva Seguro!”, ouviu-se na receção. “Já não nos veremos tantas vezes no refeitório”, comentou.
Durante o juramento, também houve espaço para Espanha, representada pelo rei Felipe VI. Seguro afirmou que “ambos preferimos os caminhos às fronteiras. Sinergias que unem territórios, aproximam pessoas e transformam a vizinhança numa relação de amizade e cooperação. A relação entre Portugal e Espanha tem demonstrado que é possível construir convergências duradouras quando prevalece a vontade de um destino partilhado”.
Na segunda-feira, no Palácio Nacional de Belém, abriram-se novamente as janelas para sorrir a um novo dia. Mais do que nunca, embora nublado, o futuro ali é azul de serenidade, estabilidade e ordem. A mensagem política, as gravatas, os vestidos, o céu e o mar que Portugal sempre navegou. Uma nova via abre passo à sua sina.
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
—Fernando Pessoa, Messagem (1934).
Este artigo é da pura responsabilidade da autora, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.
Fotografia de capa: António José Seguro (Instagram: @ajseguro)
Descrição da imagem da capa: António José Seguro a cumprimentar os alunos do ISCSP na passada segunda-feira, 9 de fevereiro.
Escrito por: Reyes S. Sacramento
Editado por: Íngride Pais






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